Wolmir Amado

A educação estagnada


Reitor da Universidade Católica de Goiás defende a criação do novo curso de medicina no Estado, explica como será o canal de televisão da UCG e observa que a educação parou no primeiro ano do governo Lula


JOSÉ MARIA E SILVA



Com 23 mil alunos e 1.800 professores, a Universidade Católica de Goiás começa 2004 com três grandes desafios: implantar um novo curso de medicina no Estado, gerir um canal de televisão comercial e expandir-se rumo ao Norte do país. A conquista da Amazônia e o canal de televisão são duas estratégias tão católicas quanto universitárias — trata-se de fazer frente à invasão evangélica nas telas e nas selvas. Já a criação do curso de medicina é uma ousadia acadêmica, que pode sofrer uma excomunhão laica — o Conselho Federal de Medicina é radicalmente contra a criação de qualquer faculdade de medicina no país.


A quantidade de médicos no país (que considera excessiva) e a qualidade dos cursos (que considera ruim) são as razões para o Conselho Federal de Medicina se opor à abertura de novos cursos. “O curso de medicina da Católica será pautado pela qualidade”, rebate o filósofo Wolmir Therezio Amado, 42 anos, reitor da UCG. Segundo ele, o objetivo é formar um médico diferenciado, capaz de perceber em cada paciente não uma engrenagem, mas um ser humano. Segundo ele, a Católica se preparou longamente para oferecer um curso de medicina, consolidando a área de saúde da instituição, por meio de cursos como enfermagem, psicologia e fisioterapia.


Nesta entrevista ao Jornal Opção, concedida na terça-feira, 27, Wolmir Amado fala das diretrizes do canal de televisão aberta da Católica e critica a avaliação dos cursos de direito feita pela OAB. O reitor da Católica também critica o primeiro ano do governo Lula no campo da educação. Pelo que se depreende de suas palavras, 2003 foi um ano perdido. Gaúcho de Paim Filho e autor de Religião e o Negro no Brasil, Wolmir Amado também fala da reforma universitária e recomenda cautela. No seu entender, a comunidade acadêmica tem de ser ouvida. Mas antes de abordar as grandes questões da educação, ele insiste em falar do cotidiano da universidade que dirige. E é assim que começa a entrevista.


A UCG tem algumas propostas polêmicas e ousadas, mas vejo que o sr. prefere falar das questões cotidianas. Por quê?



Gosto muito das novidades pequenas, porque elas são de alcance imediato e tocam, profundamente, na cultura mesma da instituição. Por exemplo, estamos comemorando 30 anos da revista Estudos. São 12 números, uma revista por mês. A Editora da UCG publica uma obra a cada cinco dias. Em quantidade, empatamos com a USP. E estamos qualificando as nossas revistas, a Estudos e a Fragmentos, que contam com artigos de universidades de todo o país e do exterior. Estamos abrindo a nossa editora para a literatura goiana. O nosso problema ainda é a distribuição. Mas vamos fortalecer a nossa livraria, procurando oferecer um livro de baixo preço para estimular nossos alunos a ler. Reformamos toda a nossa biblioteca, que conta com um acervo de 150 mil volumes. Creio que ter um sólida política editorial, de estímulo à leitura, é tão importante quanto construir um prédio.

O curso de medicina da Católica agora vai sair?


A idéia de um curso de medicina na Católica vem desde os anos 70. Nas Católicas do Brasil, antigas ou mais recentes, há cursos de medicina. A Católica de Brasília, com dez ou onze anos, tem curso de medicina. A PUC do Rio Grande do Sul tem a melhor Santa Casa do Brasil, uma referência no país. Aqui, sempre se falou em curso de medicina e, com isso, a Universidade Católica de Goiás consolidou vários cursos na área de saúde. O nosso curso de enfermagem tem 61 anos. É anterior à própria Universidade. Foi fundado pelas irmãs vicentinas e funcionava no prédio que era da Polícia Federal e que nós compramos. Elas foram construindo o prédio devagar. Uma delas, a irmã Luíza, virou motorista e buscava areia no Meia Ponte, num caminhãozinho. As estudantes de enfermagem estudavam de graça e moravam com as irmãs, nas dependências da casa, porque a maioria vinha do interior, algumas de outros Estados. Hoje, a enfermagem é bastante consolidada na Católica. E temos cursos de psicologia, fisioterapia, biomedicina, terapia ocupacional. A área de saúde está bastante consolidada na Católica. Só falta mesmo o curso de medicina.



A Universidade já dispõe de estrutura para criar um curso desses?

 
Essa foi nossa grande preocupação, antes de pensarmos em criar o curso de medicina. O que não é a prática no país. De um modo geral, primeiro se cria o curso, depois se criam as condições. Nos vamos começar o curso de medicina com um hospital-escola, a Santa Casa de Misericórdia, campos de estágio, bibliografia e corpo docente, com mestres e doutores. Aliás, para mim foi uma surpresa a quantidade de médicos em Goiânia com mestrado e doutorado.

O que o curso de medicina da Católica vai oferecer de diferente em relação aos outros cursos de medicina?


É um currículo muito inovador, inspirado na pedagogia de Paulo Freire, com temas geradores, adequados a problemas de saúde. Por exemplo, o tema “cabeça”. Nele entra o neurologista, mas também o que trabalha com áreas afins a esse sintoma. A partir daí, as aulas serão multidisciplinares, com mais de um professor analisando integralmente o problema. Numa segunda etapa, fornecida a bibliografia, o aluno vai pesquisar, depois volta para a sala de aula para discutir aquele assunto, comparando pesquisas. E, desde os semestres iniciais, os estudantes terão aulas práticas, tanto no hospital, quanto junto à população, no caso a população da região noroeste de Goiânia, que terá uma vinculação direta com o curso. Foi um trabalho muito demorado, muito refletido. Tivemos consultoria externa de outras universidades. E, no final do ano passado, uma comissão de consultores do MEC fez uma vistoria na Universidade e concluiu que temos todas as condições para iniciar o curso. Se a aprovação do MEC vier logo, o curso de medicina será incluído no vestibular de meio de ano, com as aulas começando em agosto. Caso contrário, ficará para 2005.



O Conselho Federal de Medicina é radicalmente contra a criação de novos cursos na área. Como o sr. avalia essa oposição do conselho?



Sem dúvida, é muito importante essa precaução dos conselhos profissionais. Há uma expansão desordenada do ensino superior no Brasil, com a criação de cursos da noite para o dia. Sobretudo, na área do direito. No caso da Católica, a criação de um curso é até muito demorada. Temos muita cautela. Para abrir o campus de Ipameri, por exemplo, com apenas dois cursos, foi um processo demoradíssimo.



O curso de direito da Católica não entrou na lista de 60 cursos recomendados pela OAB em todo país. Em Goiás, só o curso de direito da UFG entrou. Com o sr. analisa essa avaliação da OAB?



Acho grave. Por dois aspectos: se de um lado, a expansão desenfreada dos cursos de direito deveria ter sido coibida, de outro, a OAB precisa ter mais cuidado na avaliação que faz dos cursos de direito. Também é grave a metodologia que a OAB usou para avaliar os cursos. É um critério insuficiente. Baseou-se no resultados do provão e nos resultados do exame de ordem. Além disso, não consideraram cursos novos, criados há menos de nove anos. Muito menos visitaram as instituições para fazer uma avaliação mais aprofundada dos cursos. É um ato irresponsável. Prova disso é que, no ano passado, proporcionalmente, a maioria dos alunos aprovados no exame de ordem veio da Católica. O investimento, nesses últimos anos, no curso de direito foi enorme. Somos a única universidade do país que tem um juizado de casos especiais, em que os juízes estão dentro da universidade despachando os processos. E o tribunal do júri vai acontecer na nossa universidade, não será júri simulado. Não entendo como se pode recomendar ou não recomendar cursos sem ir à instituição avaliá-los. Nem o MEC cometeria essa leviandade.



O provão e o exame de ordem, juntos, não são um bom parâmetro de avaliação dos cursos?

Ora, o próprio MEC reconheceu que o provão era uma avaliação insuficiente. Como é que a OAB se baseia nele para fazer uma avaliação. Creio que essa avaliação da OAB, mais do que uma finalidade pedagógica, tem uma finalidade política, no sentido de pressionar o Ministério da Educação para que ele contenha a expansão de cursos de direito. Além disso, há um viés corporativo nesse tipo de avaliação.



Esse viés corporativo também contribui para a resistência do Conselho Federal de Medicina à criação de novos cursos na área?



Creio que sim. Porque muitas vezes o discurso que se usa para criticar a criação de novos cursos de medicina é o argumento de que já existem muitos médicos no país, que o mercado está saturado. Ora, o mercado está saturado para grande parte das profissões, não porque o país não comporta novos profissionais de nível superior, mas porque a economia não cresce. É um fato passageiro. Nem por isso se pode restringir o sonho de alguém que quer fazer um curso superior. Por outro lado, os médicos se concentram no Sul e Sudeste. O Norte do país está quase desprovido de médicos. Daqui até o Norte, são raros os cursos de medicina. Respeito muito a preocupação do Conselho Federal de Medicina. Até compartilho dessa preocupação. Mas a Universidade Católica de Goiás, a exemplo das demais Católicas do país, é uma instituição que tem história e não iria traí-la, criando um curso de medicina sem qualidade. Seria ferir a própria Igreja Católica, o próprio espírito cristão. A preocupação do Conselho Federal de Medicina é a nossa preocupação. Se fosse para abrir um curso de medicina sem condições de funcionar com qualidade, também seríamos contra.



Hoje, em Goiás, a sobrevivência do ensino superior privado depende, em parte, da bolsa universitária do governo estadual e do crédito educativo. No caso do curso de medicina, essas bolsas não são suficientes, porque o curso é caro. A Católica tem condições de bancar um curso como esse?



Sem dúvida, medicina é um curso muito caro. Mas tem uma vantagem — curiosamente, sua inadimplência é praticamente zero. Mesmo nos lugares em que chega a custar 3 mil reais por mês. E quando um aluno desiste do curso, há dez pretendentes querendo sua vaga. Ainda assim, é um curso caro para o aluno e deficitário para a instituição. Sua estrutura é caríssima e exige atualização constante, dos livros aos equipamentos, passando pelos insumos. Daí o nosso cuidado em evitar que ele prejudicasse os demais cursos de graduação. Em algumas universidades, inclusive públicas, quando um curso de medicina vai bem, ele é autônomo. Quando vai mal, arrasta a universidade junto com ele. Nosso curso de medicina vem para reforçar a área de saúde da universidade, não para prejudicar os demais cursos.



Na área da saúde mental, muitos psiquiatras e psicólogos se deixaram influenciar demasiadamente pelas críticas fenomenológicas da antipsiquiatria e descuidaram da formação técnica, do conhecimento orgânico do cérebro. Um curso de medicina com uma visão muito integral do paciente, muito interdisciplinar, não corre o risco de se tornar sociologizante demais, perdendo em qualificação técnica propriamente médica?

 

De forma alguma. Estamos tão preocupados com a qualificação técnica do médico que vamos incentivar a prática médica desde os semestres iniciais. A formação integral do nosso aluno de medicina não será uma espécie de ecletismo, mas um aprofundamento. Há a base especificamente médica, em cada especialidade, que o aluno terá de dominar. Apenas isso não basta. Sobretudo para um médico de família, que precisa ter uma compreensão holística do paciente. Aliás, há uma grande carência desse tipo de médico no país, tanto que o próprio MEC recomenda esse tipo de formação. Infelizmente, ainda convivemos com doenças de cunho marcadamente social, fruto da pobreza, das condições insalubres de vida. E, para esse tipo de doença, não adiante só o tratamento convencional — o exame, o remédio, a internação. É preciso que o médico seja capaz de analisar o paciente e o meio em que ele habita. Quantas crianças não são levadas ao pronto-socorro várias vezes ao ano por falta de condições de higiene em sua casa? Se o médico não se dá conta dessa situação, o máximo que ele consegue é evitar que a criança morra na hora de uma crise qualquer, mas não vai conseguir que ela viva com dignidade, em condições menos insalubres. E, muitas vezes, as más condições de higiene nem decorrem da pobreza, mas da falta de orientação da família.

A Santa Casa está preparada para ser um hospital-escola?



Sem dúvida. Fizemos um acerto e a Católica detém, hoje, 50 por cento do patrimônio da Santa Casa. E há coincidência entre o perfil do hospital e o perfil da universidade — tanto a Santa Casa quanto a Católica são instituições comunitárias. Ao mesmo tempo em que o hospital ajuda na formação acadêmica, também ajuda a comunidade. A Santa Casa atende mais de 30 mil pessoas por mês, ou seja, mais de mil pessoas por dia. E são pessoas pobres, vindas do interior, de outros Estados. Havia a possibilidade de se comprar um hospital pronto. Mas preferimos olhar para a Santa Casa, buscar essa parceria. Além da estrutura da Santa Casa ser muito boa, ela tem o perfil que queremos para a formação dos nossos médicos — um perfil comunitário, humano, com sensibilidade social.



Qual será o perfil da televisão que a Católica levará ao ar em 30 de abril?



Nesse caso, optamos por um canal de televisão comercial, porque o educativo iria nos impedir de ter publicidade. Então, teríamos que realocar recursos da universidade para o canal. Seria um erro. Então, optamos por um canal comercial. E vamos retransmitir o sinal da Rede Vida. Mas com muita liberdade para colocarmos no ar nossa programação local. Contratamos o jornalista Washington Novaes para conceber o projeto da televisão. De início, vamos fazer só o que for possível. Aos poucos iremos aumentando a nossa programação local. A implementação da televisão será gradual.



O sr. reconhece que o ensino superior no Brasil está crescendo de modo desenfreado. Creio até que, futuramente, vai haver um ajuste nesse setor, com o fechamento de cursos e até falência de faculdades. Então, por que a Católica pretende se expandir para o Norte do país?



Não começaremos com curso de graduação no Norte do país. Vamos oferecer cursos de especialização, em parceria com escolas mantidas por entidades religiosas. Os cursos irão atender às necessidades da região, envolvendo especialmente os professores do local. Não pretendemos cair de pára-quedas lá. Historicamente, as universidades católicas nunca caem de pára-quedas numa região. Elas se envolvem num trabalho comunitário, estruturado, com a participação da comunidade local. É um trabalho de longo prazo. Não se trata de uma expansão comercial. Estamos escolhendo os Estados da Amazônia por uma questão de solidariedade. Há uma grande carência de instituições de ensino superior nessas regiões. Essa é a lógica que preside a forma de expansão da Universidade Católica. E não vamos entrar nessa lógica empresarial.



No caso do curso de medicina, o sr. não mudou o discurso? O sr. tinha restrições ao curso, quando ele foi aventado pelo ex-chanceler da universidade, o padre José Pereira de Maria.



Eu não mudei de idéia — mudamos os projetos. Depois de uma longa interlocução, os projetos foram alterados. Acho que seria altamente precipitado comprar um hospital, por exemplo, no valor de 20 milhões. Penso que o orçamento de uma universidade não suportaria essa despesa. Prejudicaria todos os demais cursos de graduação. Por outro lado, antes de pensarmos na instalação do curso de medicina, tínhamos que concluir algumas estruturas da área de saúde, como a clínica-escola para os cursos de fisioterapia e terapia ocupacional. O aluno estava chegando no último semestre do curso, que foi no primeiro semestre de 2003, mas não dispunha, ainda, de uma clinica-escola. E era para ter. É um direito do aluno. Como criar um curso de medicina quando os cursos existentes ainda não tinham condições plenas de funcionamento? Da mesma forma, como construir uma capela de 7 milhões de reais se não tínhamos uma biblioteca adequada? Acho que uma capela ficaria de bom tamanho com um investimento de 500 mil, 1 milhão de reais. Ela não juntará milhares de pessoas. E pode ser dada a ela um multiuso, como formaturas, cultos ecumênicos. Além disso, ela ficou num lugar bem visível, mas espremida entre dois prédios. O ideal é que ficasse num espaço aberto, amplo, com uma praça na frente, como naquelas igrejas do interior, em que a praça na frente da igreja, com banquinhos, é um ponto de encontro das pessoas, para namorar, conversar, passear. Com isso, a capela ganharia destaque, teria mais impacto arquitetônico.



Há muita afinidade entre a Arquidiocese de Goiânia, por intermédio do arcebispo dom Washington Cruz e a reitoria?



Estamos com um trabalho muito integrado, numa presença muito integrada. Também fizemos, nesse ano de 2003, o estatuto novo da Universidade Católica. Foi um trabalho grande de normatização. O estatuto de então era de 30 anos atrás. Ainda previa decanatos, que foram extintos há 20 anos, substituídos pelos departamentos. O estatuto estava completamente superado. Mas, por várias razões, especialmente pelas condições políticas, não se conseguia fazer o novo estatuto da universidade. Nós assumimos e fizemos o estatuto. Não de modo escondido, no gabinete, mas de um modo participativo. Fizemos uma primeira versão e divulgamos essa versão para toda a comunidade. Vieram as emendas. Levamos para o conselho universitário. Fizemos seminário sobre o assunto e criamos um cronograma, uma metodologia de discussão. Porque sem ordem se cai no populismo, no democratismo, dando margem a uma discussão infinita, que não dá em nada. Algumas universidades que criaram estatuintes ficaram meia dúzia de anos discutindo estatuto e não chegaram a consenso nenhum sobre nada. Procuramos fazer o estatuto possível e o estatuto saiu, está aprovado. Ele altera bastante a estrutura da universidade. Na prática, sem muito alarme, nós estamos fazendo uma verdadeira reforma universitária na Universidade Católica de Goiás.



Como o sr. vê a questão da reforma universitária que vem sendo aventada no Ministério da Educação? E como avalia a curta gestão do ex-ministro Cristovam Buarque, com a entrada de Tarso Genro em seu lugar?



É até difícil avaliar, porque Cristovam Buarque ficou só um ano no ministério. E fez pouca coisa. Podia ter feito mais, talvez. A rigor, foi um ano, vamos dizer, de debate, de formulação, de proposta. Não houve implementação de nada. Creio que não houve tempo suficiente para isso. Haveria, talvez, agora, em 2004. Quer dizer, 2003 foi o ano da formulação de propostas e 2004 seria o ano para o debate nacional da reforma universitária. E penso que, mesmo em 2004, esse debate traria muitos problemas, porque é um ano eleitoral. Um deles, por exemplo, diz respeito ao tempo de validade do diploma. Ora, como se resolve isso? Inclusive do ponto de vista legal? Porque há um problema legal no caso. Vamos dizer que um doutorado irá valer por cinco anos. E as razões para essa data de validade são conhecidas — o conhecimento muda. Logo, se a pessoa não se atualiza, seu diploma ficaria superado. Entretanto, como fica essa pessoa do ponto de vista legal? Porque ela tem asseguradas as garantias legais. Se fez um concurso para docente, por exemplo, como é que se concilia uma coisa com outra: o direito adquirido no concurso e o dever de revalidar o diploma? Como é que uma instituição vai manter um professor só por um tempo que ele estiver atualizado, com o diploma valendo? Depois de quatro ou cinco anos, ele teria que fazer um novo concurso. Sem dúvida, há implicações legais nessas medidas, implicações muito complexas, por sinal. Então, fazer uma reforma universitária não é fácil.



Esse tipo de cobrança, ou seja, a validação do diploma por tempo determinado, não é uma submissão do conhecimento ao tempo apressado, voltado para o efêmero, do mundo contemporâneo? Por mais que o conhecimento evolua e mude conforme as épocas, essas mudanças não ocorrem de modo tão célere nem invalidam, sempre, o conhecimento anterior. Em algumas áreas do conhecimento, aliás, mudanças são ainda mais lentas. A filosofia, por exemplo. Como é que o diploma de um filósofo pode sair de fábrica com validade de cinco anos, por exemplo?

 

Exatamente. É preciso ter em mente que há diferenças entre as áreas do conhecimento. Na área de humanas, sem dúvida, esse tipo de procedimento seria muito problemático. O que é estar atualizado em filosofia, em história? É ler o último livro da moda? É ter produzido 20 artigos? Às vezes, um pesquisador produz um só artigo e ele tem uma repercussão, influi em mais pesquisas, do que dúzias de outros artigos sobre o mesmo tema. Fica para a posteridade. Nas áreas mais técnicas, sobretudo as que envolvem muita tecnologia de ponta, talvez seja mais fácil discernir o que está do que não está superado. Como se vê, essa é uma avaliação um tanto subjetiva, que pode acabar incorrendo em injustiças. Por outro lado, há diferenças regionais que precisam ser levadas em conta. O que significa fazer uma reforma universitária na USP, nos Estados do Sul, em Roraima, no Acre, no Mato Grosso, em Goiás? Cada uma dessas regiões tem peculiaridades que são importantes numa reforma universitária.



Ao trocar o ministro Cristovam Buarque por Tarso Genro, o presidente Lula disse que precisa de uma pessoa no ministério que não fosse ligada à área acadêmica, porque ele queria fazer uma profunda reforma universitária. Esse discurso não revela um desejo do governo de impor uma reforma do ensino superior à revelia de professores e alunos?



Na reforma apresentada pelo ex-ministro Cristóvam Buarque está muito claro no texto — só iria aderir a ela quem quisesse. Isso está muito claro no texto. Agora, em parte isso é também problemático. Especialmente, com uma expansão tão grande e desordenada do ensino superior, como ocorreu no Brasil. Seguramente, teremos de passar por mudanças, por determinadas exigências. Se uma reforma não pode ser uma imposição, também não pode deixar tudo muito livre, sem regras. O importante é que haja discussão, ajuste dos pontos polêmicos. No governo Fernando Henrique Cardoso, na gestão do ministro Paulo Renato de Souza, por exemplo, o provão foi criticado severamente. O governo achava que se criticava porque se obtinha notas baixas, que isso prejudicava a imagem das instituições. Mas não era exatamente por isso que se criticava o provão. É que ele era insuficiente, precário, como avaliação. A educação é muito mais complexa do que uma avaliação apenas. É preciso ter essa complexidade da educação em mente ao se discutir a reforma universitária.