Temporários farão protesto no TRT

Diário do Pará, 25.04.2005

Servidores estaduais temporários prometem ato para pedir estabilidade e direitos trabalhistas durante audiência

Cerca de 20 mil servidores estaduais temporários farão hoje uma manifestação em defesa da manutenção de seus empregos e da garantia dos direitos trabalhistas aos que estão sendo demitidos. Eles irão aproveitar o fato de que estará sendo realizada a segunda audiência no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) sobre o Termo de Ajuste de Conduta proposto pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) ao governo do Estado e pela qual exige a demissão imediata dos temporários e contratação dos concursados. Nesta sessão deverá ser examinada a contra proposta do Estado para efeito de acordo a ser celebrado junto à 13ª Vara do Trabalho de Belém.
O MPT alega que desde 1988 as contratações desses temporários vêm sendo feitas de maneira inconstitucional sob a alegação de que, quando concretizadas, as contratações não podem passar de 24 meses de validade. Em síntese, o MPT alega que do ponto de vista jurídico os temporários não podem ser enquadrados legalmente.


Kilber Nunes, assessor da Comissão de Servidores Temporários (CST), afirma que a categoria não é contra os concursados e “nem mesmo contra as demissões”, mas que a “grande preocupação” é com a “maneira abrupta” como essas demissões estariam acontecendo. Segundo Kilber, houve um acordo entre a CST e a Sead pelo qual somente temporários com menor tempo de serviço seriam demitidos, mas o acerto não estaria sendo cumprido. “O que se vê é que servidores com mais de 10 anos de trabalho são os mais atingidos”, diz Kilber, mostrando uma lista de demitidos organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Saúde no Estado do Pará (Sindsaúde).

“CAOS” - Soraya Albim, representante da Fundação Santa Casa, afirma que o MPT pode provocar um “possível caos” no serviço público de saúde porque, ao pressionar pelas demissões, estaria promovendo a descontinuidade desses serviços. “Mesmo os concursados não poderiam suprir a lacuna porque estão destreinados”, diz ela. Além disso, completa Soraya, faria crescer o número de desempregados entre uma faixa de cidadãos cuja idade avançada dificilmente possibilitaria novas oportunidades. Ela aponta a demissão recente de 50 cozinheiras da Santa Casa, a maioria com mais de 50 anos de idade e grande parte “arrimo de família”.
Tamar Dias, da CST, explica que outra luta é assegurar os direitos trabalhistas aos demitidos. Lembra que a Lei que regulamenta o FGTS, garante o devido depósito do FGTS aos servidores, mesmo aqueles com contratos considerados nulos.


Para Kilber Nunes, os temporários com mais de 10 anos de atividade teriam ainda uma outra chance de garantir o emprego. Segundo ele, corre na Câmara Federal um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que cria o cargo de temporário em extensão, o que significaria que, na medida em que fossem surgindo vacâncias por aposentadorias, pedidos voluntários de demissão ou morte, os temporários automaticamente assumiriam esses cargos e, assim, chegariam a estabilidade tão desejada. Kilber diz que a PEC já recebeu a aprovação de todas as comissões por onde tramitou e que ainda neste primeiro semestre estará em pauta de discussão e votação. “Estamos pedindo urgência urgentíssima para este projeto com base no vínculo dos que têm mais de 10 anos de serviço”, diz ele.

Esperança pela anulação das demissões

Atualmente são exatos 4.815 concursados somente para a área de saúde esperando a efetivação. Miriam Carvalho, membro da CST, lembra que não houve concurso para auxiliar de enfermagem mas que, mesmo assim, o setor estaria sendo atingido pelas demissões. Ela própria, com 13 anos de serviço, acaba de ser demitida. Miriam lembra a quebra do acordo para que o pessoal com mais de 10 anos de trabalho fosse preservado e explica que está “cheia de esperança” de que as portarias de demissões sejam anuladas. “Isso é possível, desde que sejam levadas em consideração as questões sociais”, diz ela, lembrando que anulações desse tipo já aconteceram.
Todos os entrevistados se queixaram da OAB-PA, afirmando que foi o órgão que “pressionou o MPT para atacar os temporários”, como diz Kilber Nunes. Segundo Soraya Albim, ao longo dos anos a OAB nada fez para neutralizar a Lei Bararu, usada nos últimos tempos pela Assembléia Legislativa para prorrogar os contratos temporários. “Por que só agora a OAB se manifesta contra isso, depois de 20 anos?”, indaga Soraya. Ela diz que a OAB resolveu “descarregar suas baterias” contra os temporários sem mesmo ouvir os sindicatos das categorias e também sem comparecer às inúmeras audiências com autoridades sobre o caso. Soraya indaga ainda por que a OAB e o MPT concentram seus esforços contra o governo estadual mas, contudo, não estariam movendo nenhuma ação contra a Assembléia Legislativa. “Em vez de vítimas, a OAB transformou os temporários em culpados”, diz ela.

“LEGALIDADE” - O presidente da OAB-PA, Ophir Cavalcante Júnior, reage à insinuação de que o órgão teria pressionado o MPT para entrar com a ação contra o governo estadual para exigir a demissão dos temporários. Ele explicou que a participação do MPT no caso é uma “conseqüência deste processo que se arrasta há tempos” e garantiu que, juridicamente, “não existe qualquer tipo de respaldo para os temporários”. Ophir lembrou ainda que uma comissão de temporários esteve em seu gabinete e que no encontro afirmara que “a OAB é pela legalidade”. O presidente da OAB-PA acha que o caso chegou ao estágio atual em conseqüência de critérios estabelecidos pelo próprio Estado.


Sobre a reclamação dos temporários sobre a possível rapidez com que as demissões estariam sendo consumadas, Ophir Cavalcante Júnior explicou que “esta rapidez” existe apenas no ponto-de-vista da categoria e contra-atacou: “A sociedade é que é paciente, pois espera por uma solução do caso há mais de 20 anos”. Ophir afirmou que não estará hoje na audiência na 13ª Vara do Trabalho porque a OAB não faz parte do processo. A audiência será presidida pelo juiz do Trabalho, Mauro Volpini Ferreira.

Eduardo Mendes


Concursados também farão manifestação

Temporários e concursados prometem fazer hoje manifestações em frente ao Tribunal Regional do Trabalho (TRT). Uma contra o não cumprimento do calendário oficial de nomeação dos concursados, proposto pelo governo durante reuniões com os aprovados nos últimos certames, e outra por causa da indefinição da situação dos servidores temporários.
Os manifestantes vão aproveitar a 3ºaudiência sobre o assunto, na 13º Vara Trabalhista do TRT, e que julgará a assinatura do Termo de Ajuste de Conduta proposto pelo Ministério Público do Trabalho ao governo do Estado, para a completa nomeação dos concursados até o mês de setembro.
Segundo José Araújo, um dos aprovados, o governo não está cumprindo o calendário oficial das nomeações dos aprovados, proposta no CIG em janeiro e na Sead em fevereiro. O governo teria começado a falhar no acordo em março, quando deixou de chamar parte dos 615 aprovados que constavam na agenda mínima de nomeação daquele mês.

“IMORAL” - Araújo disse que não saber afirmar ao certo o número de pessoas que deveriam ter sido convocadas, mas acrescenta que de acordo com calendário proposto, só na Secretaria de Trabalho e Promoção Social (Seteps), 162 aprovados deveriam ter sido nomeados em março e 102 em abril. “No mês de março nem todos foram convocados e ninguém dos previstos para serem chamados em abril, foi nomeado até agora”, reclama.
José Araújo argumenta que o artigo 37, inciso II da Constituição Federal determina que o serviço público seja exercido por pessoas admitidas em concurso, com exceção dos cargos de livre nomeação ou de confiança (DAS). “Seria bom para o Estado regularizar a nossa situação. A situação dos temporários, que já vem se arrastando há vários governos é uma questão ilegal, imoral e injusta”, denu
ncia.

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