Temporários ganham nova esperança
Diário,
24.12.2006
Assessoria
jurídica do novo governo tenta formulação de novo Termo de Ajuste de Conduta
Com
o novo governo, esperamos que sejam realizadas novas negociações, até porque se
demitirem todos os temporários, sem a realização do concurso público, haverá um
colapso no sistema”. Esta expectativa de Miriam Andrade, coordenadora do
Sindicato dos Servidores da Saúde (Sindsaúde),
provavelmente é a mesma dos quase 22 mil trabalhadores temporários que correm o
risco de perder o emprego.
“Na área da educação são mais de 11 mil, sendo que cerca de 6 mil são
professores. O que irá acontecer se todos eles forem demitidos agora? Com
certeza haverão muitas escolas paralisadas por falta de educadores. Além disso,
os temporários são pessoas que possuem famílias e filhos para cuidar. Se demitidos, teremos um grave problema social”, alega Eloi
Borges, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores
As esperanças de se manter no emprego por mais tempo serão realmente renovadas
em 2007, quando Ana Júlia Carepa assumir o governo do
Estado. A equipe de transição propôs esta semana (e a governadora aceitou) que
todos os contratos, principalmente dos sistemas de ensino, de saúde e
carcerário, sejam renovados por pelo menos seis meses. “Este é o tempo mínimo
necessário para a realização de concursos públicos e a posse dos novos
servidores. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado pelo atual
governo e não cumprido, deixa para que em tempo recorde
vários concursos sejam feitos e finalizados para que a máquina pública
não pare”, informou Antônio José Soares, assessor de imprensa da governadora
eleita.
Ele disse ainda que se a decisão judicial for cumprida, 250 mil alunos vão
ficar sem aula em 2007. “Nosso setor jurídico está correndo para marcar com a
Justiça do Trabalho e com o Ministério Público do Trabalho a realização de
novas reuniões para que um novo TAC seja assinado, dando uma sobrevida para os
atuais contratos. Desta forma, setores como o carcerário, que tem 93% dos
cargos ocupados por temporários, pode entrar
PEC é tábua de
salvação para 15 mil
Os sindicalistas
Mirian Andrade e Eloi Borges concordam que é preciso realizar concursos
públicos para que todos os postos sejam preenchidos. “Na verdade foi um grave
erro manter esta situação por todo este tempo. Desde 1988 que é necessário o
concurso para o servidor público e nada foi feito. Vamos sentar com o novo
governo para que se possa pelo menos prorrogar o prazo de demissão para a
realização dos concursos”, disse Eloi.
“Nós também estamos pedindo que, em caso de demissão, aqueles servidores que
possuam mais de 10 anos de serviço sejam deixados por último, para que dê tempo
de ser avaliada a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que, se aprovada,
dará estabilidade para estas pessoas”, conta Mirian. “Os servidores temporários
com 10 anos ou mais de trabalho somam 15 mil em todo o Estado”, completa.
A PEC citada por Miriam é a de número 054/1999, que está tramitando em caráter
de urgência no Congresso Nacional. Ela prevê a contratação dos funcionários
temporários que possuem tempo de serviço público superior a 10 anos. Estima-se
que o projeto seja um dos primeiros a ser votado
Mirian
“É um terrorismo
psicológico”
Eloi Borges, do Sintepp, recomenda que os trabalhadores temporários iniciem
os estudos para participar dos concursos. “Nós vamos cobrar a realização destes
concursos e por isso estamos orientando todos os companheiros a começar uma
preparação para as provas, pois elas deverão acontecer, mais cedo ou mais
tarde”, disse.
Os sindicalistas e os próprios temporários acreditam, portanto, que se encerra
no dia 1° de janeiro um grande capítulo da desvalorização do servidor público,
seja ele temporário ou não.
A técnica laboratorial Jandira Campos Sodré, 39 anos, é uma das mais de oito
mil pessoas que vão perder o emprego nos próximos meses. “São dias sem dormir
direito, comer direito. É um terrorismo psicológico que mata famílias inteiras.
Me dedico há 12 anos ao serviço público, sou chefe de
família, tenho uma filha de 10 anos, como é que agora depois de uma década
querem arrancar todo esse investimento e nos deixar sem direito à nada. Isso é
que deveria ser inconstitucional”, declarou Jandira, que trabalha no
Laboratório Central da Secretaria de Saúde do Estado (Sespa).
“Só no LabCentral são mais
de 200 técnicos temporários. Se todos forem para a rua, a população ficará sem
serviço”, avalia a servidora. A força que move Jandira é a possibilidade da
aprovação da PEC 54 no início do próximo ano. “Na política tudo é possível. Com
articulação e vontade a justiça será feita”, disse.
Entenda o caso dos temporários
- Em maio de
2005, o juiz Mauro Volpi, da 23ª Vara Trabalhista, determinou que o Estado
demitisse todos os mais de 21 mil servidores temporários até 31 de março de
2007. As demissões deveriam seguir um cronograma: quase a metade deles -
10.338, deveria estar fora do serviço público até 31 de dezembro do ano
passado. Até 30 de junho de 2006, mais 5 mil temporários deveriam ser
demitidos, e até 31 de março de 2007 outros 6 mil deveriam sair.
- O Estado ficou
obrigado a cumprir uma cota mensal de demissão de 500 temporários. A cada
decisão descumprida, há multas que variam entre R$ 15 mil e R$ 30 mil. As
demissões deveriam obedecer o critério de antiguidade, dando precedência aos
servidores contratados após 1988, quando entrou em vigor a obrigatoriedade do
concurso para o ingresso no serviço público. E partir daquele dia, o governo
ficou terminantemente proibido de contratar trabalhadores temporários, sob pena
de multa de R$ 15 mil por trabalhador contratado. O que não foi cumprido de
acordo com a comissão de transição.
- Após meses de
desobediência à determinação, a juíza Ida Silene, da
13ª Vara do Trabalho, no final de agosto deste ano, voltou a exigir a dispensa
imediata de todos os servidores temporários em cumprimento ao cronograma
homologado em maio do ano passado. Mas como é proibida a demissão e a
contratação no período eleitoral, nada pôde ser feito. A situação só veio à
tona, após a emissão do relatório levantado pela comissão de transição indicada
pela governadora eleita Ana Júlia, que verificou que desde o dia 16 de agosto
deste ano, a magistrada emitiu decisão, recusando-se a homologar o novo
cronograma de demissões proposto, pois entendeu que houve descumprimento do
governo do Estado ao primeiro acordo judicial firmado em maio de 2005, que
estabelecia o distrato de 21.838 temporários até
março deste ano.
- No último dia
1°, o desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), Marcos Louzada
Maia, concedeu liminar ao Estado do Pará, suspendendo a decisão da juíza Ida Silene. Pelo descumprimento do acordo original, a juíza
determinara multa de R$ 30 mil por dia que, se aplicada, contabilizaria mais de
R$ 10 milhões contra a Fazenda Estadual até o final do ano.
- De acordo com
a procuradora Loana Oliana,
que está à frente da questão dos temporários juntamente com as procuradoras
Rita Moita Costa e Ana Maria Rodrigues, o Estado do Pará e MPT impetraram
recurso contra a decisão no dia 13 de setembro deste ano, sob a alegação de que
todos os concursos públicos programados para serem realizados este ano, seriam
organizados pela Universidade de Brasília (Cespe/UnB), mas acabaram sendo adiados por suspeita de fraude na
instituição. Outro argumento foi de que houve impedimento causado pelo período
eleitoral.
Tiago Chaves