Temporários batem às portas da Justiça

O Liberal, 25.09.2005


Cerca de 30 mil servidores do Pará com demissão prevista até 2007 podem causar despesas de mais de R$ 1,1 milhão ao governo estadual

 

ANDERSON ARAÚJO

Os cerca de 30 mil servidores temporários no Pará com demissão prevista até 2007 podem causar despesas de mais de R$ 1,1 milhão ao governo estadual com ações judiciais para receber verbas recisórias. O dado é da comissão nacional pela aprovação do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 054/99, que visa garantir a estabilidade aos funcionários admitidos até 12 de dezembro de 1995.

O assessor parlamentar estadual da comissão e coordenador nacional do grupo, Kilber Nunes, estima que cerca de 1,5 mil pessoas já tenham ajuizado ações contra o Estado. Parte dos direitos trabalhistas terão o mérito discutido na Justiça, mas a Súmula 73, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), garante de antemão o pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), o que já representa uma preocupação para a Procuradoria-Geral do Estado do Pará.

Os números informados por Nunes se baseiam em estimativas dos sindicatos que representam os servidores públicos de várias categorias, como educação, saúde e segurança, entre outras. Os números se baseiam na quantidade de ações que estão sendo levadas à apreciação do Judiciário por iniciativa dos próprios demitidos, sem a mediação de entidades sindicais. Um exemplo são as procurações concedidas ao advogado trabalhista Ubiratan Aguiar. Ele afirma que já entrou com mais de 50 ações no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 8ª Região. Desse total, ele afirma que pelo menos 30 já foram sentenciadas favoravelmente aos trabalhadores. As vitórias judiciais proporcionaram o resgate do FGTS apenas.

Kilber Nunes sublinha que a principal luta dos temporários ainda é aprovação da emenda em tramitação no Congresso Nacional. Ele analisa que a crise política - que praticamente paralisou os trabalhos do Legislativo - atrapalhou a votação, mas estima que até 14 de outubro os deputados federais vão decidir sobre a legislação, que pode conferir a condição de estáveis à grande parte dos 432 mil servidores temporários de 18 Estados. No Pará, cerca de 30 mil aguardam a decisão. O coordenador da comissão aponta que 21.838 estão lotados nas secretárias de Estado. O restante está na administração indireta, ou seja, em autarquias, fundações, empresas públicas e de gestão mista do governo e da iniciativa privada.

A situação dos demitidos é crítica, diz Nunes, e o FGTS será uma ajuda financeira, principalmente para os que tinham mais de dez anos de serviço público e estão na faixa etária entre 40 e 50 anos. “Nessa idade é muito mais difícil a reinserção no mercado de trabalho”, comenta. Ele explica que é a Súmula 73 do TST que garante as parcelas do FGTS, além da Lei 8.036/91, que dispõe sobre esse benefício trabalhista, obrigando o empregador a fazer o depósito mesmo que o contrato seja considerado nulo.

“O Estado não pode enxergar o pagamento dessas indenizações apenas como um custo. Deve ser observado também o ponto de vista das famílias que estão com seus chefes desempregados. Serão mais de 10.338 este ano sem um bom Círio, sem 13º e sem Natal”, destaca. As demissões são parte do acordo entre Estado e o Ministério Público do Trabalho (MPT), feito através de um Termo de Ajuste de Conduta, assinado em maio deste ano. Kilber Nunes destaca que até agora mais de 2.300 foram mandados embora.

Demandas judiciais devem aumentar após
o Legislativo votar projeto

Nos sindicatos, a expectativa é de que, após a decisão sobre o projeto de emenda constitucional, em Brasília, aumente a procura por advogados para ajudar os temporários a pôr a mão nas verbas das recisões contratuais. No entanto, há entidades que já demonstram que seus associados estão na briga pelo ressarcimento do aviso prévio, 13º salário, férias e outros direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). No Sindicato dos Servidores Públicos Estaduais em Saúde, conhecido como Sindsaúde, a assessora jurídica da entidade, Solange Rodrigues, já ajuizou mais de 300 ações.

Ela ressalta que, para receber o FGTS, direito respaldado pela súmula do Tribunal Superior do Trabalho, é preciso ingressar com ações judiciais. Os processos reivindicam também os outros benefícios. Dentre seus clientes, a maioria é de servidores temporários com mais de dez anos de serviço público.
“Há pessoas que desempenhavam há mais de 17 anos a função”, ressaltou. A advogada afirma que não há como calcular a despesa do Estado com o pagamento das indenizações, pois depende do cálculo baseado nos salários dos servidores. Os vencimentos mais baixos, segundo ela, estão na faixa de um salário-mínimo. A média salarial entre os representados por Solange é de R$ 500.

Paciência - A advogada assegura que os reclamantes terão que exercitar a paciência, pois a previsão é de que as sentenças sejam proferidas em quatro anos, no mínimo em três. “A demora se dá porque o Estado nunca faz acordo e recorre em todas as instâncias possíveis. O pior de tudo é que há pessoas estão em uma situação extremamente difícil”, lamenta. Para obter mais informações sobre as ações dos temporários e a posição do governo estadual em relação ao assunto, a redação de O LIBERAL tentou contato por telefone com o procurador-geral do Estado, Aloísio Campos. Sua chefia de gabinete informou que ele estava em reunião e só poderia atender a Imprensa nesta segunda-feira, 26.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp), Antônio Carlos Barros, assinala que a entidade sempre foi a favor dos concursos públicos como forma legítima de ingresso no serviço público. No entanto, está sensibilizada com a situação dos temporários. “Estamos tentando negociar que as demissões não atinjam imediatamente os funcionários com maior tempo de serviço. E que sejam feitas gradativamente”, não sumariamente, declara.

Os educadores somam a maior parcela de temporários no Estado. Dos quase 22 mil ligados às secretarias, eles totalizam 14 mil. A advogada do Sintepp, Helena Alves, afirma que está sendo feito um trabalho de orientação na entidade, neste primeiro momento. Lá, ressalta, não há ações ajuizadas. “Os professores estão aguardando as definições de Brasília”, justifica. Ela critica que as conseqüências do acordo entre o governo e o Ministério Público do Trabalho (MPT) estão voltadas somente para as demissões. “A primeira cláusula é para realização de concurso público. Até o momento, não houve nenhuma comunicação ao sindicato, indicando que isso vai acontecer”, reclama.

Helena Alves se queixa de que as demissões dos temporários continuam acontecendo, porém o governo estadual está contratando novos funcionários para a Secretaria Executiva de Educação do Pará (Seduc), sem concurso público. “Não mudou nada”, avalia. Helena informa que denunciará a prática junto ao procurador do MPT no Pará.  Segundo ela, as novas contratações estariam violando o acordo feito em maio deste ano. No próximo dia 27, haverá audiência pública na sede da Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD). A reunião ocorrerá das 9h às 12h e terá a presença de membros do MPT, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) - Seção Pará, além de sindicalistas da categoria. A presença de representantes do governo estadual ainda não foi confirmada.
(A. A.)

 

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