Temporários sob aflição
O
Liberal, 15.05.2005
Decisão judicial que obriga o Estado
a demitir milhares deles dissemina a angústia
A decisão da
Justiça do Trabalho que determina o distrato (ou
demissão) dos cerca de 22 mil servidores temporários no Estado do Pará vem
tirando o sono desses trabalhadores. O martelo foi batido na semana passada,
pelo juiz Mauro Volpi, da 23ª Vara Trabalhista. Ele determinou ao Estado que,
até 31 de março de 2007, demita cerca de 22 mil servidores temporários. Desse
total, aproximadamente 10 mil, contratados quando foi promulgada a Constituição
Federal de 1988, terão que ser excluídos do serviço público até 31 de dezembro
deste ano. Até 30 de junho de 2006, deverão ser demitidos 5
mil temporários e até 31 de março de 2007, mais 6 mil.
A situação atormenta, sobretudo, os que há anos
recebem treinamentos constantes para o desempenho de funções peculiares. É o
caso da cozinheira Marília Léa de Vasconcelos, 36
anos, há 15 trabalhando exclusivamente no preparo de leite, mingaus e variedades
lácteas para os pacientes do hospital da Santa Casa de Misericórdia. Outros com
poucas perspectivas de reinserção no mercado de
trabalho são os temporários com idade avançada, como o motorista Jaime Augusto
dos Santos, de 54 anos, que há 15 é lotado na Fundação Hemocentro e Hemoterapia
do Pará (Hemopa).
Marília trabalha no setor de nutrição, numa função específica, mais conhecida
como lactária. O papel dela é cumprir o mapa de
refeições lácteas elaborados pelos nutricionistas do hospital para a recuperação
dos pacientes. Uma vez por ano, Marília recebe um treinamento para o
aperfeiçoamento na prestação de seus serviços.
“Atordoada” - Esse é o primeiro e
único emprego da vida de Marília, que, sozinha, sustenta dois filhos. “Ainda
estou atordoada. Não sei o que fazer”, diz ela, referindo-se a notícia de que
perderá a ocupação. Ela conta que esse serviço normalmente é terceirizado nos
outros hospitais. E garante que, no Estado do Pará, há pouca gente habilitada
para desempenhar a tarefa. Marília já vai começar a distribuir o currículo
pelos hospitais, na tentativa de conseguir um emprego, nem que seja de
cozinheira comum ou copeira.
A assistente social Edileusa Maria Lobato, de 38
anos, também realiza atividade peculiar dentre outras que desempenha no Hemopa: a de captação de doadores nos hospitais. Há 12 anos
ela trabalha na instituição como temporária. Nunca teve outro emprego. Na
Divisão de Serviço Social, Edileusa atende doadores,
pacientes e seus familiares, mas já passou um ano e meio no Hemopa
de Santarém, onde instalou o serviço de assistência social voltado para a
captação de doadores. “Foi um serviço bom. Tive até reconhecimento dentro da
fundação”, orgulha-se.
No próprio Hemopa, ela fez vários cursos de
capacitação específica. Mas a notícia do distrato foi
“um banho de água fria”. “Eu sempre procurei fazer um serviço de qualidade”,
lamenta. Separada e com dois filhos para manter, ela também já está
distribuindo currículos e conta que já recebeu duas propostas do interior, mas
preocupa-se com a mudança que isso trará à sua vida. Diante das dificuldades,
ela não perde o otimismo. “Não tenho medo. Vou sair de cabeça erguida”.
Nem todos conseguem ser tão otimistas. “A angústia é
muito grande”, diz o professor de Língua Portuguesa Sérgio Marinho, 33 anos, há
oito como temporário na rede pública de ensino do Estado. Ele também leciona em
escolas particulares no turno da manhã, mas o serviço público representa 70% de
sua renda mensal, no qual atua à tarde e à noite. Casado e sem filhos, ele
reclama que o mercado está difícil e pensa até em abandonar a profissão. “Estou
pensando em ir para a informalidade, montar uma barraca. Ou então vou estudar
Direito. A perspectiva é a pior possível, o mercado está fechado. Vou sair sem
um centavo, sem direito a nada, depois de todos estes anos de trabalho”,
lamenta-se.
Ele fez o concurso da Secretaria Executiva de Educação (Seduc),
há cerca de dois anos, e foi um dos classificados. Marinho tem a esperança de
ser chamado antes que o certame perca a validade. “Aquilo de que ‘sou
brasileiro e não desisto nunca’ acabou. Já desisti. Estou sem chão, sem rumo,
tamanha a instabilidade que estou vivendo”.
Já o motorista Jaime vive uma situação mais complicada. Ele e a esposa, a
professora de alunos especiais Ângela Maria, de 38 anos, trabalham como
temporários no Estado e estão ameaçados de perder as únicas rendas que possuem
para o sustento da família (eles têm duas filhas). Jaime já trabalhou como
taxista e motorista de empresas antes de entrar para o Hemopa.
Mas, hoje, ele está desacreditado, pois acha que não arrumará outro emprego
porque está à beira da terceira idade. “Fica ruim pra mim. Não posso fazer
nada. Táxi, está difícil conseguir, não tenho dinheiro
pra comprar um. Eu e minha esposa estamos demais preocupados com a situação.
Nem temos nem tempo de procurar outro emprego porque trabalhamos o dia
inteiro”, revela.
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