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Autor |
Gilvam Borges (PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro /AP) |
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Data |
23/03/2007 |
Casa |
Senado Federal |
Tipo |
Discurso |
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O SR. GILVAM BORGES (PMDB - AP. Pronuncia o seguinte
discurso. Sem revisão do orador.) - Agradeço a V. Exª,
Senador Mão Santa, um exemplo de grande tribuno nesta Casa, marcado pela
concisão e pela eficiência, justamente nos discursos, embora enfático e, em
certos momentos, prolixo. V. Exª daqui a pouco
usará a tribuna e terei o prazer de presidir a sessão. Espero que terminemos
esta sessão hoje às 3 horas da tarde, se Deus quiser. Sr. Presidente, Srªs
e Srs. Senadores, O Estado de S. Paulo, o JB, o Correio
Braziliense, todos os jornais trouxeram a
notícia. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar fraude no último exame
da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, O que aconteceu?
Simples, Sr. Presidente. Aliás, simples, porém
vergonhoso. As respostas da prova de um candidato foram preenchidas com letra
diferente da dele, e isso, vejam bem, depois de ter
sido entregue em branco à banca examinadora. O inquérito corre em
segredo de Justiça e deverá ser concluído até meados de abril, mas a Polícia
Federal investiga se existe na OAB um esquema de venda de provas para
ingresso na própria OAB. O exame foi aplicado em
dezembro de 2006 para 600 candidatos, e a fraude, conforme notícia-crime
entregue pela OAB à Polícia Federal, foi descoberta em 1º de fevereiro. Os
fiscais notaram que a caligrafia das respostas era diferente da original de
um dos candidatos, quando o mesmo dissertou sobre cinco questões de Direito
Penal. O incrível é que a
pessoa passou no exame, apesar de ter entregado as respostas aos cinco
quesitos Um laudo grafotécnico foi realizado e comprovou que as grafias
eram diferentes, ou seja, ficou constatado que a letra do candidato que
preencheu o formulário de identificação era diferente daquela constante do
caderno de provas. Esse não é o primeiro caso de fraude em Exame de Ordem da
OAB/DF. A Polícia Federal vai
apresentar, nos próximos dias, os resultados do inquérito, e a OAB já
anunciou no seu site que o exame, a partir de agora, será executado
com os serviços técnicos especializados do Cespe. O curioso, Sr. Presidente, é que o estudante sai da universidade e
precisa fazer o exame para o exercício da profissão em entidade classista,
que agora se julga incapaz de fazê-lo e contrata o Centro de Seleção e de
Promoção de Eventos de uma universidade federal, no caso, a de Brasília. Aproveito esse
acontecimento para relembrar a V. Exªs e a todo o
povo brasileiro, especialmente aos estudantes de Direito e a seus familiares,
que apresentei no mês de junho do ano passado, o Projeto de Lei do Senado de nº 186, de 2006, que estabelece o fim do exame de ordem
para o exercício da advocacia. Na ocasião, fui
inclusive destratado pelo então presidente da OAB, que classificou meu projeto
de inconseqüente e incentivador do estelionato. Disse, à época, e hoje repito, que não abro mão de minhas prerrogativas de
Senador da República, especialmente a liberdade de votos e de opiniões! Nunca
me intimidei com críticas e ameaças. Jamais me intimidarei! Estou convicto de que o
Exame de Ordem é uma excrescência que precisa ser abolida do ordenamento
jurídico deste País. E as dezenas de correspondência que recebo diariamente
me dão a certeza de que estamos no caminho certo. Não é justo que o estudante
despenda cinco anos de sua vida nos bancos de uma faculdade e, depois de
formado, seja privado do exercício de sua profissão por um exame que se
propõe a aferir o grau ético do candidato. A prova não prova nada!
O exame da OAB não avalia se o bacharel está apto ou não para exercer a
profissão. Quando muito, testa a capacidade de memorização do candidato. A
pessoa se torna um bom advogado acumulando conhecimento ao longo dos anos que
ficou na faculdade e no próprio exercício da advocacia. Por que um médico como
V. Exª, Presidente Mão Santa, formado, não tem de
fazer exame para exercer a profissão e o advogado tem? Salvar vidas e cuidar
de doentes é menos importante do que vigiar o cumprimento das leis por acaso?
Será que a OAB quer assumir o papel do Ministério da Educação, reprovando
cursos de Direito legalmente estabelecidos? Ora, para isso existe o Exame
Nacional de Desempenho de Estudantes - Enade,
coordenado pelo Ministério da Educação. A OAB precisa se
restringir à fiscalização do exercício da profissão, abstendo-se do papel de
avaliar os cursos superiores, atribuição que não possui. Até hoje, não consigo
entender por que as instituições de ensino podem formar médicos, economistas,
engenheiros, biólogos, sem que, para ingressar no mercado de trabalho,
precisem realizar qualquer exame de ordem ou conselho, mas não possam formar
bacharéis em Direito aptos a advogar! E tudo isso porque a
todo-poderosa Ordem dos Advogados do Brasil se arvora em fiscalizadora do
ensino superior brasileiro, usurpando, assim, as prerrogativas do Ministério
da Educação, das faculdades e das universidades do Brasil. Note-se, repito, que apenas os bacharéis em Direito padecem desse
anacronismo. Os graduados em Medicina, em Psicologia e em Odontologia, por
exemplo, não necessitam se submeter a qualquer avaliação, para serem
inscritos em seu órgão de classe. Os seus diplomas já os credenciam, para que
possam exercer suas profissões. Basta, pura e simplesmente, o diploma
universitário expedido por instituição reconhecida pelo MEC. Por que, então,
persistir com esse tratamento desigual para com os acadêmicos de Direito? É
preciso dar um basta nessa mentalidade atrasada e cartorial, que ainda impera
no Brasil e que é fonte de tanto retrocesso para o País. Senador Mão Santa, V. Exª, impertinentemente, ocupa todas as posições desta
Casa, um dos grandes tribunos, e nunca deixa de apartear aqueles que aqui
estão. Por esse motivo, eu já me antecipo, concedendo-lhe um aparte. O Sr.
Mão Santa (PMDB
- PI) - Senador Gilvam, V. Exª
traz a debate um assunto muito importante. Vou relatar aqui a minha opinião e
a minha experiência, como médico há quarenta anos. Entendo que esse exame na
Medicina é desnecessário, porque a Medicina é muito ampla. Shakespeare dizia, ó, Senador Marcelo Crivella,
que o futuro é de quem sabe mais, mais de menos. É o especialista. A medicina
chegou a isso. O estudante de medicina, depois de seis anos e vendo a
complexidade com que se agiganta a medicina - eu tenho 40 anos de formado -
vê que hoje há cadeiras que não havia no meu currículo. Nessa profissão
liberal, no decorrer do ano, o estudante mostra uma paixão e uma dedicação
por determinada especialidade. Vou contar um fato que traduz isso. Todos temos de ter aquele conhecimento básico de clínica
médica, de cirurgia, de pediatria e de obstetrícia. Lembro-me de um colega
que hoje é extraordinário professor, catedrático de psiquiatria. No sexto
ano, ele estava fazendo um estudo de obstetrícia. Como V. Exª
é pai, já esteve em maternidade e sabe que, nessas maternidades
universitárias, o volume é muito grande. Lembro-me de que mandaram
esse que se dedicaria à psiquiatria receber, internar e acompanhar uma
paciente. E o professor perguntou: "E a bolsa?", referindo-se a
bolsa d´agua, com o líquido amniótico. Ele
respondeu: "Não a vi com bolsa, não". E essa pessoa é professor
catedrático de psiquiatria. Ele ia se dedicar à psiquiatria. V. Exª entendeu? Se ele fosse fazer um exame geral de
medicina, talvez o mundo especializado teria perdido
um dos maiores psiquiatras deste País. O que acontece com o estudante de
medicina é que, depois, tem de fazer as especializações. Só será
cardiologista se receber diploma da Sociedade de Cardiologia, o que exige
residência em clínica médica e cardiologia. Para ser cirurgião plástico é preciso
fazer cirurgia geral e depois mais cirurgia plástica. Além dos seis anos, são
mais quatro ou até cinco anos de especialização. É um curso deveras
prolongado e atende à medicina de hoje, que exige a capacidade de resolutividade do especialista. É o que tenho a contar
sobre como se procede. A medicina está evoluindo em todos os aspectos pela
presença do especialista. Por analogia, V. Exª traz
à tona o caso do Direito, que deve ser debatido. Essa é a minha opinião sobre
o que vivo há quarenta anos, que é a medicina. O SR. GILVAM BORGES (PMDB - AP) - Agradeço o aparte
de V. Exª. Sr. Presidente, os profissionais de
todas as áreas do conhecimento humano, das ciências exatas, das ciências
humanas, das ciências biológicas, têm um caminho a percorrer na academia:
diplomas, pós-graduação, doutorado. Somente os advogados, somente a OAB se
arvoram a usurpar do Estado, da universidade, do Ministério da Educação a
cassação sumária e imediata do diploma. Se você sair da universidade, seu
diploma não vale, só se passar pelo cartorial, pela
Ordem dos Advogados do Brasil. É óbvio, até os mais
dos mais ignorantes hão de analisar de uma forma simplista, mas de uma forma
em que os fatos estão evidentes. Eles não podem fazer isso. Mas há muitos
anos eles vêm fazendo. Eles não podem fazer isso. Eles podem julgar os
colegas pelo mau exercício da profissão, como órgão regulador de classe, para
gerenciar a ética, não para cassar diplomas de quem passa cinco anos no banco
de uma faculdade ou universidade. Nós precisamos corrigir
isso, Senador Mão Santa. E precisamos corrigir de uma forma coerente. Nada
contra a organização. Eu acho que as entidades de classe e os sindicatos têm
um papel importante. Mas a injustiça que é feita, a cassação sumária do
diploma do estudante, do acadêmico que se forma, é uma coisa absurda. O bom profissional
sempre teve e sempre terá um lugar cativo no mercado de trabalho. Deixemos
que a sabedoria do mercado selecione os melhores - é assim que se procede na
vida, no dia-a-dia. As estatísticas são
implacáveis! Em média, apenas 30% dos candidatos são aprovados no exame da
Ordem. Então, Sr. Presidente, dizer que há 520
mil advogados no Brasil é o mesmo que afirmar que temos cerca de um milhão e
quinhentos mil bacharéis no limbo da profissão, por não haverem logrado êxito
no malsinado exame da OAB. Vejam V. Exªs a tragédia
pessoal e financeira que estes números representam: um milhão e quinhentos
mil bacharéis em Direito condenados ao exercício de funções secundárias,
diversas daquela para a qual se graduaram nas universidades. Ora, não há previsão
legal para que uma instituição auxiliar ao Estado brasileiro substitua o
próprio ente estatal na avaliação das faculdades de Direito. Embora disparatada,
essa situação resulta em graves prejuízos aos direitos dos bacharéis, que
permanecem em um desconfortável limbo após sua formatura: não podem advogar
por impedimento do órgão de classe a que pretendem
se filiar e nem podem atuar como estagiários, por não serem mais estudantes
da ciência de Rui Barbosa. Gostaria de deixar
claro, Sr. Presidente, que não tenho absolutamente
nada contra a OAB, uma entidade séria, respeitável e que tem prestado
inúmeros e relevantes serviços ao País, mormente na época da ditadura, em que
combateu bravamente em prol dos direitos humanos e das liberdades
democráticas. O que não posso tolerar, Sr.
Presidente, e não tolerarei, é uma argumentação falaciosa, baseada em
premissas equivocadas, a fim de manter uma prática que, sob todos os
aspectos, prejudica os estudantes e os graduados em Direito em todo o País. Neste momento, o meu
projeto se encontra em apreciação na Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania. Por esta razão, rogo ao eminente Senador Antonio Carlos Magalhães,
Presidente da CCJ, que designe Relator para o projeto e que este promova uma
audiência pública, a fim de que conselheiros da OAB, bacharéis, reitores e
professores possam discutir o assunto com a profundidade que ele merece. E,
claro, com a urgência que o assunto exige. O mundo tem pressa, e
nossos jovens não podem mais esperar. Clamam por uma solução rápida, que lhes
restitua o direito inalienável do exercício da profissão. Era o que tinha a
dizer, Sr. Presidente, Srªs
e Srs. Senadores. Muito obrigado. |
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Fontes: |
Secretaria-Geral da Mesa |
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