JORNAL
– O POPULAR – 16.05.2007 – PÁG.03
Segurança das provas é frágil, revela advogado
http://www.go.trf1.gov.br/setoriais/biblioteca/clipping%5Cclipping_2007_05_16.doc#POP01
Waldineia
Ladislau

Aliciadora conversa com dois candidatos ao
exame no Parque Vaca Brava, em Goiânia
O
esquema de segurança das provas da seccional goiana da Ordem dos Advogados
(OAB), embora terminasse com a colocação de todas as provas em urnas lacradas,
passava, até chegar lá, pelas mãos das funcionárias da entidade Maria do
Rosário Silva de Oliveira, a Fiinha e Osmira Soares de Azevedo, do
ex-vice-presidente da Comissão de Exame de Ordem, Pedro Paulo Guerra de
Medeiros, e da professora Ângela Jungmann. Em entrevista pelo telefone celular,
ontem à tarde, o ex-presidente da Comissão, Eládio Augusto Amorim Mesquita,
explicou que ao final, as urnas ficavam guardadas em um armário dentro de uma
sala do Centro de Serviços da OAB. Só as duas servidoras da seccional tinham as
chaves do armário e da sala.
As
informações foram passadas através do celular do advogado Luiz Inácio de
Medeiros, que visitava ontem o primo Pedro Paulo, Eládio, e o ex-tesoureiro da
OAB, José Bezerra Cavalcante, presos provisoriamente por ordem judicial sob
suspeita de envolvimento em fraudes na aplicação do exame para novos advogados.
Eládio, que aproveitou para desabafar, dizendo que ele e os demais conselheiros
foram “execrados, condenados e mutilados”, salientou que quando saírem da
Academia da Polícia Militar, onde estão encarcerados, vão “provar que tudo não
passa de sofismas”. Ele disse ainda que a fraude só pode ter sido feita por
alguém que conhece o sistema e tem acesso a ele, mas não quis apontar nomes.
Segurança
Eládio
disse que cada pessoa designada para elaborar as questões – tanto da prova
objetiva, que é constituída por 100 perguntas, quanto da subjetiva – passava,
ao final, o material em disquete para Pedro Paulo, que o repassava para a professora
de Letras Ângela Jungmann, responsável pelas correções. Ao final das alterações
necessárias, ela devolvia o material para Pedro Paulo que fazia, então, a
organização e formatação, num só disquete. O disquete final passava pelo Centro
de Processamentos de Dados (CPD) da OAB. Segundo Eládio, o CPD era o setor
responsável por impedir que, na gráfica, o conteúdo do disquete pudesse ser
copiado.
Há
vários anos a OAB de Goiás utiliza os serviços da Gráfica Vieira, no Setor
Universitário. A empresa foi escolhida
Começam
pedidos de intervenção
O
advogado anapolino Jeovah Viana Borges Júnior está com pedido de intervenção do
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na entidade goiana
pronto e adiantou que irá hoje a Brasília protocolá-lo. O requerimento é
justificado “pelas graves violações legais e estatutárias” veiculadas pela
imprensa com base no inquérito da Polícia Federal sobre as fraudes nas provas.
Diante
dos fatos, o advogado acrescenta que o artigo 54, inciso VI, da Lei 8.906/94
rege o assunto, ao dispor que “compete ao Conselho Federal intervir nos
Conselhos Seccionais, onde e quando constatar grave violação desta lei ou do
regulamento geral”. Se atendido, é nomeada diretoria provisória, que deve
permanecer no cargo até que os fatos sejam apurados.
Outro
pedido de intervenção está sendo elaborado pelos integrantes do Movimento por
Renovação e Ética na OAB. Quando o documento estiver pronto, como adiantou
ontem o advogado Ricardo Dias, ele será levado pessoalmente ao presidente do
Conselho Federal, Cezar Britto.
Conversas
mostram nomes de compradores de carteiras
Vinicius
Jorge Sassine
Das
conversas telefônicas dos acusados de aliciamento de candidatos surgiu boa
parte dos nomes de advogados que teriam comprado a aprovação no exame da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB)
Um
dos nomes investigados no grupo de aliciadores, conforme a PF, é o de Rosa de
Fátima Lima Mesquita. Em imagens coletadas na investigação, ela aparece com
dois candidatos no Parque Vaca Brava, no Setor Bueno. Um deles foi aprovado. A
própria advogada teria sido aprovada por meio fraudulento, em abril de 2006.
Segundo
a PF, Rosa usou parte do dinheiro para comprar um veículo CrossFox, assim como
Eunice da Silva Mello. Outro acusado de aliciamento, José Rosa Júnior é
apontado como principal parceiro de Eunice e Rosa. A negociação e o pagamento
dos dois veículos ficaram sob a responsabilidade de José Rosa. Outros 80 nomes
foram relacionados pela PF, mas não há provas para suspensão do registro.
Supostos
beneficiados se justificam
Um
agradecimento pelo tratamento médico, um pedido de emprego para a filha ou o
esquecimento de protocolar o pedido de inscrição para o exame. Citados nas
conversas telefônicas utilizadas pela Polícia Federal (PF) como provas das
fraudes na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), supostos beneficiados pelo
esquema apresentam diferentes justificativas e negam participação.
O
médico oftalmologista Clausmir Zanetti Jacomini, que se formou em Direito e fez
a prova da OAB em dezembro do ano passado, é citado nas investigações da PF
como beneficiado. Em fevereiro de
Clausmir
sustenta que conheceu Maria do Rosário em uma consulta médica. “Eu nunca tinha
visto essa senhora, e fiquei sabendo que ela trabalhava na OAB.” Ao dizer a
Maria do Rosário que não havia passado na segunda etapa, ela o teria orientado
a apresentar recurso. “Fiz um requerimento simples, e ela disse que deveria ser
uma peça jurídica. Então sugeriu que eu poderia entregar depois.”
Nas
conversas telefônicas, Maria do Rosário reclama do não-pagamento de Clausmir
pela aprovação. “Jamais falei em dinheiro com Maria do Rosário.” O médico
afirma que entrou na faculdade de Direito para acompanhar o filho, que pensava
em desistir do curso.
O
médico Luiz Chein, proprietário de um hospital em Petrolina, também nega ter
sido beneficiado pela fraude no exame da OAB. O nome de Chein aparece em uma
mensagem de texto de celular enviada por Pedro Paulo Guerra de Medeiros, o
Pepê, ex-vice-presidente da Comissão de Exame da OAB em Goiás, preso pela PF.
Após uma mensagem de texto de Chein – “Alguma notícia para mim sobre aquele meu
pedido?” –, Pedro Paulo responde com uma outra mensagem em que diz estar dando
atenção especial ao pedido. “Amigo Chein, naquele dia mesmo, falei com os
responsáveis pela seleção, pedindo especial atenção a pessoa por mim
mencionada”, respondeu. Luiz Chein sustenta que o pedido, na verdade, era para
Pedro Paulo arrumar na OAB um emprego para a filha, que é pedagoga.