Reprovação nas provas da OAB preocupa ministro João
Otávio de Noronha
Do noticiário do STJ, em
18.09.2006
A crescente
proliferação dos cursos de Direito no país e o alto índice de reprovação nos
exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tem preocupado instituições,
professores, alunos e profissionais da área. Atualmente, estão funcionando
quase mil cursos autorizados pelo Ministério da Educação, e o índice de
reprovação no exame da Ordem já atinge níveis alarmantes, ultrapassando, na
maioria dos estados, 50 por cento.
Para o ministro João
Otávio de Noronha, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), as duas questões
estão interligadas. Em sua avaliação, “algumas faculdades estão deixando a
desejar em seu programa”. Mas não se podem desconsiderar as provas aplicadas
pela OAB, afirma o magistrado, que também é professor em cursos de graduação e
pós-graduação e atuou na advocacia antes de tomar posse no STJ. “Com base em
algumas provas que tive a oportunidade de ler, acredito que os examinadores
estão exigindo muito de quem está apenas iniciando no Direito”, opina.
João Otávio de Noronha
defende que o exame aplicado pela OAB limite-se a medir o
potencial de cada candidato. “A prova da OAB não é um concurso para
juiz, promotor público ou para o exercício de qualquer função da carreira do
Estado. Acredito que a prova deve se limitar a exigir o mínimo de conhecimento
ao novo profissional, pois a advocacia não é só conhecimento. O advogado não
sai pronto da faculdade. A advocacia é também experiência de vida e jurídica. É
o conjunto – conhecimento e experiência – que vai formar o ótimo advogado, pois
o mercado é extremamente seletivo e só prestigia os melhores.”
Proliferação de cursos
Levantamento realizado
pelo Conselho Federal da OAB e disponibilizado no site
da instituição atesta que, atualmente, existem 959 cursos de Direito em
funcionamento no Brasil, com autorização do MEC. Segundo o Conselho, são 73 a
mais que em outubro do ano passado, quando a OAB promoveu a contagem. São Paulo
e Minas Gerais lideram o rancking nacional com o
maior número de cursos. Os paulistas têm à disposição 213 faculdades de
Direito, cerca de 22% a mais que em 2005, quando dispunham de 202. Os mineiros
contam com 121 cursos, quase 13% a mais que no ano passado. Os estados com
menor número de cursos de Direito são Acre e Roraima. Cada um oferece apenas
três.
A contagem por região
mostra desigualdade no oferecimento de cursos de Direito. A região Sudeste, que
conta com os números expressivos de São Paulo e Minas Gerais, fica com 459
instituições. A região Sul vem em seguida, com 199. O Nordeste é o terceiro na
oferta – são 159 faculdades. No Centro-Oeste são 89 e, no Norte, apenas 53,
pouco mais que 5% do total em funcionamento no Brasil.
Para o ministro João
Otávio de Noronha, o excesso de faculdades mostra que o ensino foi “mercantilizado”. “Eu não acredito ser válido esse aumento,
pois não acho que o Brasil demande mais escolas de Direito”. O ministro destaca,
ainda, o custo relativamente baixo para instalação do curso. “Para se montar
uma faculdade de Direito, é suficiente uma biblioteca, sala de aula e giz – sem
grandes investimentos como exigem outras faculdades, por
exemplo de Engenharia ou Medicina”.
Além disso, ressalta o
ministro, expande-se o entendimento de “que o curso de Direito propicia muitas
oportunidades na vida. Isso é um equívoco, pois ele oferece as mesmas chances
que outros segmentos. Um exemplo é a medicina. Você pode ser médico
legista, clínico, etc.”. No entanto, segundo o magistrado, “talvez o
Direito, de modo geral, ofereça o maior número de oportunidades em concurso
público. Mas isso não significa que a carreira ofereça mais vantagens do que
outras. As chances surgem para os melhores profissionais, e é o mercado que faz
essa seleção”.
João Otávio de Noronha
enfatiza, ainda, a importância de se investir na criação de cursos técnicos.
“Ensino superior é para os vocacionados, pessoas que
têm aptidão para exercer profissões técnicas, de nível mais elevado,
como médicos, advogados, engenheiros, entre outros. O que devemos ter,
no Brasil, é o curso médio com formação técnica.”
Para o ministro, o
investimento em cursos técnicos vai melhorar a oferta de trabalho qualificado e
produzir mais oportunidades para todos. “Eu não acredito que todo cidadão tem
de ser engenheiro, médico... Há cidadãos destinados, vocacionados,
para a operação. Eles precisam de cursos técnico-operacionais. Mas, no Brasil,
o que acontece hoje é que todo mundo faz um curso superior, ainda que não venha
a exercer a profissão. Isso é um erro. Acredito que essas pessoas que concluem
cursos superiores sem vocação sejam, geralmente, as reprovadas nos exames da
Ordem, no caso do Direito, por exemplo”.
Reprovações
Em contrapartida à
grande oferta de cursos de Direito, o país assiste aos índices de reprovação
divulgados pela OAB, números que preocupam instituições de ensino, professores,
alunos e profissionais do Direito. Informações publicadas no site da instituição mostram índices de aprovação no
primeiro exame de 2006 abaixo de 50% de aproveitamento em, praticamente, todos
os estados brasileiros (em alguns estados, os números foram divulgados antes do
resultado final após a análise dos recursos).
São Paulo, que lidera
a lista em quantidade de cursos, também sai na frente, desta vez com números
negativos. O primeiro exame da OAB promovido no início deste ano foi o terceiro
pior já realizado naquele estado. Foram 18.922 reprovados contra 4.048
aprovados, cerca de 10% de aprovação entre os inscritos. O índice de reprovação
no Distrito Federal também é alarmante. Neste ano, o exame aplicado em março
reprovou em torno de 68% dos inscritos, índice um pouco acima da reprovação
ocorrida em Goiás, que registrou cerca de 63%.
Dados da OAB também
indicam números baixos de aprovação nos estados do Pará, Santa Catarina,
Sergipe, Rio Grande do Norte e Rondônia. Nenhum ultrapassou a marca de 50%. Os
registros de aprovação mostram índices aproximados de 20%, 19%, 42%, 43% e 33%
respectivamente, nesses estados. A Bahia foi o único estado que divulgou
números positivos no site da OAB Federal a respeito
do primeiro teste de 2006. Foram 335 aprovados de 448 inscritos – em torno de
75% de aprovação.
Diante do índice de
reprovação geral, o ministro João Otávio de Noronha acredita ser necessária a
revisão profunda da forma como está sendo feito o exame da OAB. “É preciso ser
discutido o método, pois hoje o provão exige que o aluno seja um generalista, o
que me parece ter um grau muito elevado de dificuldade para um principiante.”
Além da discussão
sobre o método, o ministro e professor ressalta a
preocupação com o crescente número de cursos no país. “Pode-se aprovar no exame
da OAB sem aumentar o número de vagas de Direito.” Para
o ministro, com o excesso de faculdades, as instituições acabam contratando
professores pouco qualificados, com pouca aptidão. “Aqui quero fazer uma
ressalva: o fato de o profissional dispor de doutorado, mestrado não o
qualifica como profissional apto ao exercício do magistério, pois o magistério
requer muito mais que conhecimento. Exige-se aptidão, e isso não é medido. E no
Brasil contenta-se apenas com títulos de mestrado ou doutorado, mas este não
pode ser o único critério.”
O ministro João Otávio
de Noronha finaliza: “Estamos enviando ao mercado uma quantia superior à
demanda. Isso faz com que a carreira sofra um desprestígio, pois os
profissionais com pouca qualificação passam a exercer uma concorrência
predatória. O mercado seleciona e, com o tempo, vai excluir os profissionais
mais fracos, porém não sem antes de esse aumento desenfreado de cursos causar
seqüelas à própria sociedade”.