P O R    U M A    G R A V A T A

     02.04.2007

Publicado em:

http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2007/04/por_una_gravata.html

 

A árvore que queira crescer até o céu deve mandar suas raízes até o inferno  (Friedrich Nietzsche)

Uma coisa que nos desconcerta é ver uma pessoa bem-sucedida, com boa educação e dinheiro, com as portas abertas para a sociedade e para um mundo de oportunidades, fazer uma besteira digna de um marginal. A coisa é ainda mais grave quando vemos que o VERDADEIRO marginal (ou seja, aquele que vive à margem da sociedade) muitas vezes consegue viver uma vida bem mais equilibrada e digna do que o ídolo da TV.

Este ano os brasileiros ficaram atônitos com dois casos de personalidades que foram parar na polícia por se envolverem em furtos: o estilista Ronaldo Ésper, no fim de janeiro, e o rabino Henry Sobel, na semana passada. O objeto do furto do primeiro choca pelo ridículo: um vaso de cemitério. Já no caso do segundo foi bem mais grave: 5 gravatas de 3 lojas de grife dos EUA, no valor de US$ 680 (o que, para os padrões de Sobel, não é muito, mas a gravidade estava muito mais no alto risco de ser pego).

Acho que todos aqui já sabem que existe a cleptomania, que distúrbios psíquicos ou desvios de comportamento podem levar uma pessoa a cometer pequenos furtos pelo simples prazer da adrenalina (ou pra se sentir "vivo"), ou que pode haver mesmo a boa e velha safadeza. Não estou aqui para julgar as pessoas envolvidas, o que me interessa mesmo é mergulhar na psiquê de um caso como esse, e o de Sobel é um dos mais emblemáticos.

Vejamos então: o rabino Henry Sobel é (ou era) simplesmente o líder incontestável do judaísmo no país. Ainda mais: gozava de prestígio e admiração de líderes das mais diversas religiões, e por isso mesmo era convidado a cultos ecumênicos e movimentos de paz. Teve os culhões de, em plena ditadura militar, conduzir, com Dom Paulo Evaristo Arns, um culto ecumênico lembrando a morte do jornalista Vladimir Herzog ("suicidado" pelos militares). O ato foi a primeira grande manifestação contra o regime militar (1964-1985) na década de 70. Em 2006, teve um encontro com o Dalai-Lama, e esse ano foi convidado para o encontro de líderes religiosos com o papa Bento 16. O cara é um ícone de religiosidade, certo? E religiosidade rima com bondade, certo? É aí que pode ter início nossa história.

Em 2003, após o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach e Felippe Caffé, declarou na televisão ser a favor da pena de morte: "O judaísmo condena categoricamente a pena de morte. Mas, na qualidade de pai, defendo a pena de morte em casos excepcionais", disse. Ele foi duramente censurado. Dias depois, teve de se retratar publicamente. O episódio mostrou explicitamente um conflito emocional entre o homem público e o privado, o ícone versus o ser humano. "Na hora de intensa emoção, fiz a declaração. Não estou arrependido, era o que sentia. Quero que a sociedade compreenda minha revolta", disse Sobel, que celebrou o Bat-Mitzvá da garota e o casamento dos pais dela.

Após isso, quantos sapos mais ele teve de engolir? Quantas vezes teve de formatar suas idéias ao pensamento que a sociedade espera de uma pessoa em sua posição? Não estou querendo aqui dar uma de advogado. Quanta gente vive sendo tolhida e não sai por aí extravasando suas frustrações roubando? Mas isso é algo que acontece no dia-a-dia e lidamos com isso de muitas formas, seja matando Orcs (ou alemães, , priminha?) nos jogo de PC ou dando um duro trocando os móveis de lugar. No fundo, estamos o tempo todo tentando nos manter sãos e equilibrados, através de mecanismos de compensação, mas não existe um padrão que podemos definir de "normal" pra ninguém!

Esse tipo de conflito acontece mais freqüentemente do que sabemos pela imprensa. Casos extremos é que chegam até nós, como o de Winona Rider e mais recentemente Keanu Reeves. Diagnosticar o problema como stress, drogas ou doença pra mim não era suficiente. Mas não conseguia imaginar um quadro psicológico, até que vi um e-mail de Felippe Romanelli, da lista OVDT-MT:

Estive pensando no drama que o rabino Henry Sobel está passando, detido na Flórida acusado de furtar gravatas, e a correlação com a questão do nosso mal não reconhecido, de que falamos recentemente.

Para quem não sabe, o rabino desempenhou um papel de destaque na redemocratização do país, em companhia do então cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, e do pastor James Wright. Os três religiosos, em 1975, quando o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências do Doi-Codi, celebraram um culto ecumênico na catedral da Sé que foi um marco na luta pelo fim da ditadura. O rabino é presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, um dos líderes mais importantes da comunidade judaica brasileira.

Segundo seu médico: "Henry Sobel foi internado no Hospital Israelita Albert Einstein devido a episódio de transtorno de humor, representado por descontrole emocional e alterações de comportamento."

O que levou esse homem de uma grande estatura moral a cometer um furto e passar por essa situação constrangedora? Penso que Sobel está passando por uma "enantiodromia".

Enantiodromia significa "passar para o lado oposto", literalmente "correndo no sentido contrário", referindo-se à emergência do lado inconsciente, não reconhecido, no curso da vida.

O "passar para o outro oposto" é uma lei psicológica pela primeira vez esboçada por Heráclito, significando que mais cedo ou mais tarde tudo se reverte para seu oposto. O corpo humano e seus sistemas buscam sempre funcionar em equilíbrio, como um pêndulo, que tende sempre a ficar estável.

Isto ocorre quando a vida consciente vai para uma extremidade do pensamento. Por causa dessa unilateralidade, a mesma hora um outro lado contrário e poderoso se faz presente e começa a se apresentar inibindo a atuação da consciência e tomando controle.

Jung emprega este termo para caracterizar o aparecimento do contraste inconsciente. Sempre que predominar uma tendência unilateral na vida consciente, com o decorrer do tempo, acaba por converter-se numa posição contrária inconsciente que se manifestará como um obstáculo ao consciente, e mais tarde, como uma interrupção da consciência.

A Enantiodromia é experimentada com uma neurose aguda, e normalmente obscurece o renascimento da personalidade.

Nas palavras de Jung: "Jamais se pode afirmar com cem por cento de certeza que as figuras espirituais do sonho sejam moralmente boas. Freqüentemente elas têm o sinal, não só da ambivalência como da malignidade. Devo porém ressaltar que o grande Plano segundo o qual é construída a vida inconsciente da alma é tão inacessível à nossa compreensão que nunca podemos saber que mal é necessário para que se produza um bem por enantiodromia, e qual o bem que pode levar em direção ao mal."

Abraços a todos

Felippe


"Enantiodromia" pra Heráclito, "Sombra" pra Jung, "Ritmo e polaridade", para o Hermetismo... interessante quando se observam como anos de represamento camuflados de perseguição e repressão podem estourar de forma dramática, como nos casos de padres pedófilos e, mais recentemente, um juiz da Vara do Menor acusado - quem diria - de pedofilia.

Seguindo a lógica da frase de Nietzsche, quanto mais "mítica" for a pessoa (queira ela ou não), mais precisa ser sua personalidade trabalhada, como uma espécie de "âncora consciencial". Uma sabedoria que os romanos tinham com o Cave ne cadas. Não que Keanu Reeves ou Sobel estejam perto da iluminação, mas nós, como pessoas "comuns", temos muito mais chance de trabalhar nossa sombra do que eles, os "astros", pessoas em quem projetamos nossas paixões, idealizações, admiração, e eles têm de corresponder, consciente ou inconscientemente, àquilo!

Ninguém se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim enfrentando a escuridão do inconsciente

(Carl Gustav Jung: "A Árvore Filosófica")