País dos bacharéis
517 mil advogados: sobram
profissionais, falta qualificação
por Maurício Cardoso
O país dos bacharéis tem
517.173 advogados. O número, divulgado pela Ordem dos Advogados do Brasil, a
entidade que regula o exercício da profissão no país, não causa surpresa, mas
suscita reflexões. A opinião geral é que não há mercado de trabalho para tanta
gente e o que é mais grave: falta qualidade na área.
O dado coloca o Brasil em
terceiro lugar na lista dos países com maior número de advogados no mundo. Fica
apenas atrás dos Estados Unidos, reconhecido como o
país com maior grau de litigiosidade no mundo; e da Índia, que tem uma
população pelo menos cinco vezes maior. Só o estado de São Paulo tem 176 mil
advogados, mais do que os 110 mil da China, o país com maior população do
planeta (1,3 bilhão de habitantes). Certamente, faltam advogados na China e
sobram em São Paulo.
Números não dizem tudo
sobre o assunto. Indicam a quantidade de portadores da carteira da OAB,
mas nem todos exercem a profissão. “Ainda assim é possível perceber que há um
excesso de profissionais, o que deixa uma boa parcela fora do mercado e outra
no subemprego”, diz Alexandre Bertoldi, do
Pinheiro Neto Advogados, uma das maiores e a mais tradicional sociedade de
advogados do país.
Para Bertoldi,
preocupa a avalanche de novos profissionais lançada
a cada ano no mercado, sem perspectiva de colocação. “Em outros países, como
nos Estados Unidos, é muito mais difícil entrar numa escola de Direito”. Mais
seletividade seria também uma garantia de qualidade na outra ponta do ensino.
“A falta de qualificação dos novos profissionais, em geral, é uma grande
preocupação,” diz Bertoldi.
Os altos índices de
reprovação do Exame de Ordem, em todo o país, acabam sendo recebidos como um
mal necessário. “Os critérios mais rígidos do Exame de Ordem têm contribuído
para uma depuração dos novos profissionais”, diz Bertoldi.
Com ele concorda Carlos
José Santos da Silva, o Cajé, sócio do Machado
Meyer Sendacz Opice
Advogados. “O Exame de Ordem acabou se transformando num filtro em prol da
qualidade dos novos advogados”, diz ele. No último Exame de Ordem em São Paulo,
menos de 10% dos cerca de 20 mil candidatos foram aprovados.
Mesmo com esse freio, o
contingente de novos advogados não pára de crescer. Em 2001, quando a OAB
começou a fazer o controle informatizado dos registros, havia no país 362 mil
advogados. Desde então 155 mil bacharéis conseguiram o registro profissional, o
que dá em média 30 mil novos advogados por ano. “O mercado não está maduro para
absorver esta oferta de mão de obra”, diz Santos da Silva. “E boa parte desta
mão de obra não está qualificada para enfrentar o mercado”.
É ampla a diversidade de aspectos que envolve o tema. Para os 92 milhões de
brasileiros que vivem com menos de dois salários mínimos por mês, a União
dispõe de 106 defensores públicos. Na esfera da justiça estadual, são cerca de 4 mil os advogados públicos destinados ao atendimento da
mesma freguesia. A desigualdade social e econômica implica um
volume estratosférico de conflitos, cuja parcela maior sequer é levada ao
sistema judicial estatal. Não por acaso os jovens juizados
especiais já estão entupidos, os empresários aprendem a buscar soluções para
suas controvérsias na arbitragem privada e as tentativas de solução
administrativa nas relações com o poder público falecem diante da precariedade
do Estado.
Outro aspecto relevante é
que a figura do advogado, ou mesmo do bacharel, num cenário de valorização
crescente do Direito (algo relativamente recente na história do país), tem sido
importante não apenas para dar conta das atividades privativas da advocacia,
mas para cargos e funções igualmente relevantes na administração pública e
privada, bem como em atividades que a tangenciam, como contabilidade, perícia,
jornalismo ou atividades em que o manejo da lei está em suas raízes, como é o
caso de policiais, militares, auditores e consultores.
Nessa perspectiva, como
disse o promotor André Luís Alves de Melo em recente entrevista a este site, o domínio da mecânica legal e jurídica pode ser uma
ponte essencial no processo de inclusão social, não para o
acesso à Justiça, enquanto aparato estatal, mas para o acesso ao Direito, como conjunto de prerrogativas previstas na
Constituição Federal, mas que no dia-a-dia das pessoas, é mera abstração — não
apenas por falta de fiscalização, mas por falta de conhecimento mesmo.
Distribuição pelos estados
Com seus 176 mil
causídicos, São Paulo tem quase o dobro de advogados do segundo colocado, o Rio
de Janeiro, que possui 91 mil. Minas Gerais vem em terceiro com 48 mil. Na
outra ponta da tabela, aparecem Roraima, com 426 profissionais, Amapá com 734 e
Acre com 1.346. Os números guardam uma relação óbvia com a população e o PIB de
cada unidade da Federação. A cada ano, o número de novos advogados gira em
torno de 10 mil pessoas.
A exceção é o Distrito Federal, que apesar de estar em 20º no ranking da
população aparece em 5º no da advocacia. A explicação também é óbvia: a
presença do governo federal e dos tribunais superiores atrai todas as atenções
para a Capital.
O cruzamento dos números
permite, ainda, algumas constatações. Assim, existe um advogado para cada grupo
de 350 brasileiros. Ao mesmo tempo, pode-se verificar que para cada juiz ou
desembargador em atividade há 40 advogados. Segundo dados do Conselho Nacional
de Justiça, havia 12.891 juízes no país em 2004. E cada advogado toca 130 dos
66 milhões de processos em tramitação na Justiça.
Veja os números:
|
Estado |
Advogados |
Estagiários |
|
|
1.346 |
232 |
|
Alagoas |
1.967 |
133 |
|
Amapá |
3.149 |
113 |
|
Amazonas |
734 |
17 |
|
|
13.550 |
2.350 |
|
Ceará |
9.199 |
737 |
|
Distrito Federal |
13.829 |
2.594 |
|
Espírito Santo |
6.741 |
604 |
|
Goiás |
12.966 |
2.972 |
|
Maranhão |
4.010 |
243 |
|
Mato
Grosso |
5.511 |
2.922 |
|
Mato
Grosso do Sul |
6.221 |
443 |
|
Minas
Gerais |
48.306 |
16 |
|
Pará |
7.193 |
392 |
|
Paraíba |
5.509 |
431 |
|
Paraná |
26.909 |
799 |
|
Pernambuco |
12.894 |
1.544 |
|
Piauí |
2.804 |
135 |
|
|
91.094 |
27.242 |
|
|
4.069 |
312 |
|
|
40.416 |
4.903 |
|
Rondônia |
2.353 |
130 |
|
Roraima |
426 |
17 |
|
Santa
Catarina |
13.472 |
722 |
|
|
175.920 |
29.014 |
|
Sergipe |
2.368 |
228 |
|
|
2.217 |
104 |
|
Brasil |
515.173 |
79.349 |
Revista Consultor
Jurídico, 29
de julho de 2006