Overdose de ética não faz mal a ninguém
Entrevista do Presidente da OAB, publicada no “Correio de Sergipe,
em 10.06.2007 (Fonte: http://www.ejur.com.br/_entrevistas.php#)
Habacuque Villacorte
O entrevistado deste domingo é o atual presidente nacional da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB), o sergipano Cezar Britto, que se encontra em Sergipe
desde a última quinta-feira, onde cumpre uma agenda de compromissos. Dentre
vários assuntos, Britto destacou a importância do Plano Nacional de
Democratização e Acesso à Justiça, falou sobre cláusula de barreira para novos
advogados e sobre a criação de um código de ética para a magistratura. Defensor
da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional
para investigar as relações das empreiteiras com os governos federal, estaduais
e municipais, Cezar Britto falou também sobre a Operação Navalha, condenou as
acusações prévias e as condenações por antecipação, e lamentou que informações tão
sigilosas tenham "vazado" para a imprensa.
Britto também não poupou os excessos cometidos pela Polícia Federal e se disse
preocupado com a consolidação do Estado Policial. Confira a seguir, e na
íntegra, a entrevista concedida ao Correio de Sergipe:
P - Como o senhor avalia a participação dos advogados sergipanos
nos cenários nacional e local nos últimos anos?
R - No campo do Direito,
um momento bem especial. Em que os advogados aqui nascidos conseguem projeção
nacional. Mas não apenas porque aqui nasceram, mas porque o trabalho aqui
desenvolvido demonstra que Sergipe está no mesmo patamar dos demais Estados
brasileiros. Nos últimos anos, três advogados passaram a exercer representações
nacionais: Carlos Ayres Britto (Supremo Tribunal Federal), José Simpliciano Fontes (Tribunal Superior do Trabalho), e agora
eu na presidência nacional da OAB. E não apenas no campo da advocacia. O
Tribunal de Justiça e o Tribunal Regional do Trabalho (ambos de Sergipe) são
apontados como exemplos de modernização e agilidade processual no Brasil.
P - E o que dizer da
gestão de Henri Clay Andrade à frente da OAB-SE?
R - A OAB sergipana é extremamente respeitada no Brasil. E se ela é tão
respeitada, significa que o presidente Henri Clay
também é. A luta dele (Henri Clay), por exemplo, no
campo da defesa do rio São Francisco é apontada como
referencial de atuação da Ordem no campo de defesa do patrimônio nacional.
P - O senhor declarou
que o oligopólio reforça a baixa qualidade dos cursos de Direito. O que
aconteceria, por exemplo, se o Exame Nacional da Ordem fosse abolido?
R - Três conseqüências
graves: imediatamente teríamos um acréscimo no hall de advogados do Brasil de
aproximadamente 2,5 milhões de inscritos, com um crescimento anual de 249 mil
profissionais. Se o Brasil já possui hoje algo em torno de 600 mil advogados,
correspondendo a 20% dos advogados no mundo, se perceberia o absurdo que nós
passaríamos a ter praticamente a metade dos advogados do mundo; o segundo, que é mais grave, é que boa parte com baixa qualificação
profissional e a péssima qualidade do ensino jurídico. No último exame nacional
da Ordem, que abrangeu 17 Estados da Federação, constatou-se a afirmação
anterior. As boas instituições de ensino, que são poucas, conseguem aprovar
mais de 75% dos seus inscritos, e as de péssima qualidade reprovam
aproximadamente 100% dos seus egressos. Se o exame consegue a aprovação de mais
de 75% egressos, não é o exame que está ruim, mas as instituições é que estão
fracas; já o terceiro, que para mim é o principal aspecto,
é que a profissão do advogado tem relação direta com a defesa de princípios e
regras fundamentais ao ser humano, como a liberdade, a luta pela desigualdade,
a conquista de um direito violentado, a supressão de uma esperança de justiça.
E se essa profissão não é exercida com uma necessária qualificação, o prejuízo
que se causa à cidadania que contrata o serviço é grave é irreversível.
Certamente os presídios estariam superlotados de cidadãos que perderam sua
liberdade por uma defesa mal feita. O exame de ordem é acima de tudo um
instrumento de defesa da cidadania.
P - Chegou o momento
de se desenvolver o Plano Nacional de Democratização e Acesso à Justiça?
R - Não se tem dúvida
disso! O Brasil ainda é campeão de injustiça em que o acesso a ela é caro,
excludente e para poucos. É caro porque ainda se cobra (principalmente na
Justiça Comum) custas processuais que inviabilizam para vários cidadãos a luta
para o ressarcimento dos seus direitos. É excludente porque os juizados
especiais e na Justiça do Trabalho, ainda se admite a idéia de que alguns
cidadãos, buscando seus direitos, façam, utilizando as próprias mãos, sem o
auxílio do advogado, tendo geralmente do outro lado grandes grupos econômicos
sendo bem defendidos, a exemplo dos bancos, empresas aéreas, de telefonia,
energia e outras que se tornaram campeãs no desrespeito ao consumidor. Para
ampliar o acesso à Justiça, é preciso fortalecer a Defensoria Pública, para que
os advogados possam suprir as carências jurídicas dos mais necessitados e passem
a atuar nesses juizados com equilíbrio processual.
P - Qual a finalidade
da "cláusula de barreira" para os novos advogados?
R - A cláusula de barreira
foi estabelecida na compreensão de que a experiência fornecida pelo tempo na
advocacia qualificaria melhor o advogado para exercer o cargo de direção na
Ordem. Tanto assim o é que a Constituição Federal também está exigindo esse
lapso temporal para o exercício do cargo de magistrado. Essa é a razão da
cláusula de barreira! Mas eu tenho nessa gestão a intenção de consultar, em
plebiscito, a advocacia brasileira sobre a necessidade ou não da sua manutenção
no Estatuto ou a redução para o prazo de três anos como está a se exigir na
magistratura.
Fonte: www.oab.org.br