O QUE É O TERCEIRO MUNDO ?
Fernando Machado da Silva Lima
26.12.1999
Na
primeira parte deste trabalho, mostramos como as grandes empresas controlam a
economia e o poder. Mostramos como a nobreza de que falava Sieyés, na época da
Revolução Francesa, foi hoje substituída, em escala mundial, pelos grandes
capitalistas, industriais e chefes das poderosas multinacionais. Mostramos como
o clero foi substituído pelos adoradores de uma nova divindade – a tecnologia,
voltada apenas para a obtenção do lucro, sem qualquer preocupação com suas
conseqüências sociais. Mostramos como hoje o povo , especialmente o do chamado
Terceiro Mundo, tem sido atingido por
essa política, apresentada sob a roupagem de globalização.
Na
segunda parte, mostramos as conseqüências dessa crise, no Brasil, e mostramos
como as nossas “elites” têm atuado a favor dos interesses do capitalismo e da
globalização e têm causado o aprofundamento de nossos graves problemas sociais.
Na
terceira parte, mostramos como o povo do Terceiro Mundo está hoje, dois séculos
depois da Revolução Francesa, sob o jugo do Absolutismo, representado pelos
interesses internacionais das grandes potências e da centena de empresas que
controlam o Mundo.
Para
encerrar este trabalho, procuraremos fazer um paralelo entre a situação
descrita por Sieyés, de que a França não possuía uma verdadeira Constituição,
porque não tinha sido elaborada pelo povo, e a situação atual.
Se para Sieyés, apenas a Nação teria o
poder de elaborar uma Constituição, e conseqüentemente, a França não possuía
uma verdadeira Constituição, no Mundo de hoje, sob o enfoque das relações
internacionais, podemos afirmar, do mesmo modo, que inexiste uma
"Constituição", no sentido de um conjunto de normas jurídicas
elaboradas de modo a que o poder delegado (pelo povo) jamais possa tornar-se
prejudicial a seus constituintes.
"A Nação existe antes de tudo, dizia
Sieyés. Ela é a origem de tudo. Sua vontade é sempre legal, ela é a própria
lei. Antes dela e acima dela, existe apenas o direito natural. "
Na mesma linha de raciocínio e admitida a
vitória dessas idéias defendidas pelos revolucionários franceses, a tal ponto
que hoje todos os Países se dizem democráticos, então é evidente que, no plano
internacional, também o povo existe
antes de tudo e sua vontade deve ser sempre a lei suprema. Sua vontade será sempre legal e não poderá ser
subordinada aos interesses particulares dos diversos Estados e nem mesmo aos do
"condomínio oligárquico" que dividiu entre si o governo do Mundo.
A
Constituição Brasileira, apesar de ter sido elaborada por um Órgão
Constituinte, que seria, teoricamente, capaz de representar o povo, e que aliás
é a nossa sétima Constituição, não passa de uma folha de papel, desvinculada da
realidade e incapaz de garantir os direitos e deveres que teoricamente
assegura. E o Governo representa menos o povo do que os interesses do sistema
financeiro e da globalização.
O
Estado é criação do Homem, existindo assim para cumprir a destinação que lhe
foi reservada, sem no entanto poder sobrepujar, por si só, seu criador. Tudo
deve ter sempre sua origem e sua finalidade na pessoa humana e em seus direitos
fundamentais, considerada sua preexistência. O que vem sendo feito, a nível
mundial, não desmente, absolutamente, essas assertivas, mas comprova,
tão-somente, a eventual preponderância da força sobre o Direito, embora essa
eventualidade seja, de certo modo, crônica.
A força
da Monarquia Absolutista foi substituída pela das grandes potências. As masmorras da Idade Média e as da Bastilha
cederam seu lugar às dependências policiais e dos órgãos de espionagem e
informações. As torturas e os canhões têm hoje sucedâneos muito mais eficientes
no emprego dos meios de extermínio de massa, tais como o Napalm e a chamada guerra
química ou bacteriológica. Finalmente, o aparelhamento tributário da Monarquia
foi substituído pelo sistema financeiro internacional e pela inflação.
O povo continua sendo o Terceiro Estado – ou
o Terceiro Mundo - que apesar de ser reconhecido como o titular do Poder
Constituinte, nada tem sido até a presente data e que apenas deseja
"tornar-se algo".
Mas seria isso possível, em uma ordem mundial
que, curiosamente, pode ser descrita, também, com as palavras de Sieyés, quando
se referia à separação existente, na França, entre clero, nobreza e povo?
"Não existe, diz uma máxima do Direito
Universal, maior falta do que a falta de poder. Sabemos que a nobreza não foi
indicada pelo clero e pelo terceiro estado para representá-los . O clero não
está, absolutamente, encarregado da procuração dos nobres e dos comuns. Decorre
daí que cada ordem é uma nação distinta, que não é mais competente para se
imiscuir nos negócios das outras ordens, do que os Estados Gerais da Holanda ou
o Conselho de Veneza, por exemplo, possam votar nas deliberações do Parlamento
Inglês. Um procurador não pode ligar senão seus comitentes, um representante
não tem o direito de falar senão por seus representados. Se se desconhece essa
verdade, é preciso anular todos os princípios.
"Vê-se, assim, que é, na realidade, perfeitamente inútil,
procurar a relação ou a proporção de acordo com a qual cada ordem deva
concorrer para formar a vontade geral. Essa vontade não pode ser una, enquanto
subsistem três ordens e três representações. No máximo, essas três assembléias
poderão se reunir no mesmo intento, como três nações aliadas podem ter o mesmo
desejo. Mas não conseguireis jamais uma nação, uma representação e uma vontade
comum. Eu sinto que essas verdades, por mais seguras que sejam, tornam-se
embaraçosas em um Estado que não se
formou sob os auspícios da
razão e da eqüidade política.
Que quereis? Vossa casa só se sustenta por artifício, com o auxílio de uma
floresta de esteios informes colocados sem gosto e sem esquema, que não seja o
de escorar as partes à medida em que elas ameaçam cair; é preciso
reconstruí-la, ou resolver-vos a viver ao relento, no dia em que a tortura e a
inquietude de ser, enfim, derrubem essas ruínas."
Qual poderia ser
a relação, ou a proporção, segundo a qual cada País deveria concorrer para
formar a vontade geral ? Essa vontade não pode ser uma, enquanto subsistir a
distinção entre os Países Ricos e o Terceiro Mundo. É evidente que o Mundo
também não se formou sob os auspícios da razão e da eqüidade política. Hoje, nem
mesmo o relento restaria aos sobreviventes dessas ruínas, fundadas na injustiça
e no absurdo.
Para que se
possa esperar um futuro melhor, há que introduzir, nas relações internacionais,
dois novos princípios: o da razão e o da eqüidade. Afinal, como perguntaria
Sieyés, se pudéssemos colher da injustiça e do absurdo os mesmos frutos que da
razão e da eqüidade, onde estariam então as vantagens destas?
Resta-nos esperar, apenas, que prevaleçam esses
princípios e que o LUCRO seja
derrubado do altar em que o colocaram, para que seja abolida, no âmbito
internacional, por parte das multinacionais que decidem os destinos dos povos,
essa atuação injusta e predatória.
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