O QUE É O TERCEIRO MUNDO ?
Fernando Machado da Silva Lima
12.12.1999
Na primeira parte deste trabalho, mostramos como as grandes empresas
controlam a economia e o poder. Mostramos como a nobreza de que falava Sieyés,
na época da Revolução Francesa, foi hoje substituída, em escala mundial, pelos
grandes capitalistas, industriais e chefes das poderosas multinacionais.
Mostramos como o clero foi substituído pelos adoradores de uma nova divindade –
a tecnologia, voltada apenas para a obtenção do lucro, sem qualquer preocupação
com suas conseqüências sociais. Mostramos como hoje o povo , especialmente o do
chamado Terceiro Mundo, tem sido
atingido por essa política, apresentada sob a roupagem de globalização.
O resultado
desse quadro é por demais evidente: a miséria, o desemprego, a desnutrição, as
endemias, a marginalidade, a criminalidade, a prostituição, os tóxicos, o
lenocínio, o jogo- o Brasil se
transformou em um grande cassino, bancado pela antiga Caixa Econômica Federal.
Além disso, como causa e conseqüência, prospera a corrupção de governantes e de
governados, incapazes todos de democraticamente decidirem os destinos de seus
próprios Países. Os serviços básicos para o bem estar social são abandonados e
as crises se multiplicam.
No Brasil, assistimos nos últimos anos à crise do
Sistema Financeiro da Habitação, com a constatação de que o trabalhador
brasileiro não terá condições de adquirir uma habitação condigna; assistimos à
crise da Previdência Social, sempre deficitária; assistimos à crise do campo,
com as invasões programadas e multiplicadas; assistimos à crise do Judiciário,
incapaz de garantir os mais elementares direitos do jurisdicionado; assistimos
à crise do ensino, com todas as greves
nas universidades autárquicas, também carentes de verbas para sua mais simples
e elementar manutenção.
Que
será do povo sem casa, sem pensão e aposentadoria ou assistência médica, sem
educação, sem profissão, sem emprego, sem trabalho, sem segurança ?
Que
será do País sem Universidade, geradora de tecnologia, exatamente a tecnologia
capaz de possibilitar o rompimento do círculo vicioso desse endividamento
externo e dessa dependência ao sistema financeiro internacional ?
Aos
Países desenvolvidos interessa, é claro, manter os subdesenvolvidos como
mercado para a atuação das organizações multinacionais e como exportadores de
matérias primas e produtos agrícolas, a preços convenientes para o sistema
internacional.
Mas ao povo, interessa essa situação? Ao Terceiro
Mundo, interessa continuar importando capitais e tecnologia, para ser explorado pelos Países ricos, em
troca de um alinhamento que lhe possa
garantir a "segurança" , ou em troca da famosa globalização?
Onde
estarão os representantes do povo?
Dizia Sieyés, no seu panfleto:
"O Terceiro Estado não tem
tido, até o presente,
verdadeiros representantes nos Estados Gerais. Assim, seus direitos políticos
são nulos."
Hoje, é evidente que o Terceiro Mundo não tem
tido, até o presente, verdadeiros representantes
nos organismos internacionais. Ou será que o centro das decisões mundiais não
se encontra nesses organismos?
Os
direitos políticos do povo, no plano internacional, são hoje em dia nulos,
porque as grandes decisões são sempre tomadas sem levar em consideração os
interesses populares.
Podemos
responder, assim, parodiando Sieyés: O
que tem sido o Terceiro Mundo até o presente ?
Nada.
Sieyés
dizia que o terceiro estado era prejudicado pela influência da nobreza, que tudo pode, distribuindo lugares, empregos, e benefícios:
“Os defensores mais ferrenhos da aristocracia estarão na ordem do terceiro estado e entre os homens que, nascidos com muito espírito e pouca alma, são tão ávidos do poder e das carícias dos grandes quanto incapazes de sentir o valor da liberdade..."
Seria o
caso, hoje, no plano desse relacionamento internacional, das "elites" que nos diversos Países do
Terceiro Mundo têm atuado mancomunadas com os interesses do capitalismo e da globalização, das multinacionais e dos
países ricos, detentores da tecnologia e interessados em manter a exploração
dos países pobres.
Duzentos
e dez anos após a Revolução Francesa e depois de todos os movimentos liberais,
hoje é quase um lugar comum em todas as Constituições a afirmativa referente à
existência de um regime democrático. Todas repetem o enunciado clássico: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Todos os Estados se proclamam democráticos.
Como é possível, então, que tenhamos chegado,
no Mundo de hoje, a essa situação de profunda injustiça social e a essa
completa heteronomia, no sentido de que
o povo está subordinado a uma ordem jurídica para cuja criação ele não
concorreu?
A luta pelo poder não está sendo vencida pelo
povo. Ao contrário, devido às condições atuais, em que a detenção do poder, do
capital e da tecnologia possibilita os meios indispensáveis para a própria
ampliação desse mesmo poder, o que se observa é que os Países pobres (Terceiro
Mundo) têm cada vez menor esperança de romper as cadeias do subdesenvolvimento.
E o pior é que, quando são levados a certas aventuras desenvolvimentistas,
financiadas por interesses estrangeiros, também prejudicam cada vez mais seu
povo, e criam problemas de difícil solução.
O
grande inimigo da Democracia, tanto no plano interno quanto no das relações
internacionais, é o LUCRO, desde que associado à injustiça e à desmedida
ganância, posto que a ausência de limitação legal permite que sejam
postergadas, em nome da liberdade contratual e dos princípios da livre empresa,
todas as garantias que deveriam ser dadas ao povo, sempre o grande prejudicado
pela ausência da norma jurídica eficaz.
O Homem ainda não aprendeu a se governar.
Isso é mais do que evidente, pela simples observação do cotidiano, que ressalta
o primado da força e da violência, e a universalidade do governo de homens, ao
invés do sonhado governo de leis. E os prejuízos são da mesma forma evidentes,
mesmo para aqueles que pensam estar conseguindo benefícios através da opressão
e da exploração, revelando seu mais sensível enfoque crítico pela proliferação
dos atos de terrorismo, que visam à desestabilização de certos governos ou
refletem a luta pelo poder.
Estudos realizados e estatísticas publicadas comprovam a desnecessidade
da miséria mundial. Se o Mundo fosse racionalmente administrado, todos
colheriam os benefícios, até mesmo aqueles que hoje possuem o
"Poder". A simples destinação dos recursos voltados ao armamentismo e
à cristalização dessa estrutura de fatores reais do Poder, para outras atividades
sociais, como as de produção de alimentos, poderia mudar a face do Mundo, mas
implicaria também em um sensível deslocamento dos centros de Poder.
Na terceira parte deste trabalho, trataremos do absolutismo, fazendo um paralelo entre
a Monarquia Absolutista francesa e a situação atual, em que o inimigo da
democracia é o esquema mundial de Poder.
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