O QUE É O TERCEIRO MUNDO ?

 Fernando Machado da Silva Lima

  05.12.1999

 

PRIMEIRA PARTE – A GLOBALIZAÇÃO

 

 

O Abade Sieyés dizia, há mais de  duzentos anos, em sua famosa obra "Qu'est-ce que le Tiers État?",  que o terceiro estado (o povo) era tudo, porque o poder a ele deveria pertencer, e não ao clero e à nobreza.

 

 Tratava-se, então, de problema interno, dentro do âmbito de um Estado (a França), com a exploração de uma classe (o povo)  pelas demais (clero e nobreza), tendo Sieyés defendido, como precursor da Revolução Francesa, a  titularidade do Poder Constituinte para o povo.  Hoje, a situação é idêntica,  no âmbito das relações internacionais, com a inexpressividade política dos Países pobres, o chamado Terceiro Mundo.

 

  Para os franceses, a nobreza se tornara estranha à Nação, por sua preguiça e por seus costumes dissolutos, enquanto no Mundo de hoje, marcado pela chamada globalização, os Países ricos ocupam posições privilegiadas em matéria de riqueza e poder que em nada  contribuem para a manutenção da paz mundial.

 

 Também precedendo a uma Revolução, dizia LENIN que

 

"O capital financeiro é um fator, poderíamos dizer, tão poderoso, tão decisivo, em todas as relações econômicas e internacionais, que é capaz de subordinar, e subordina, efetivamente, até mesmo Estados que gozam de uma completa independência politica."

 

  Hoje, enquanto os chamados Países ricos controlam mais de 2/3 (dois terços) da renda mundial, toda a população restante sobrevive, em sua maior parte, em condições miseráveis que têm tornado o mito da soberania uma das maiores ficções jurídicas atuais.

 

As grandes empresas controlam a economia e o poder em escala mundial, comandando quase que integralmente a política estatal dos países do Terceiro Mundo, que cada vez mais abdicam de sua soberania ao se endividarem, pela opção de um modelo econômico de impossível auto-sustentação, desenvolvido com tecnologia estrangeira adquirida a peso de ouro.

 

  A nobreza de Sieyés foi substituída, em escala mundial, pelos grandes capitalistas, industriais e chefes das poderosas multinacionais, enquanto que o clero cedeu seu lugar aos adoradores de uma nova divindade : a tecnologia, assim entendida a aplicação de conhecimentos científicos para o lucro e pelo lucro, sem qualquer consideração superior pertinente ao bem estar social, à moral ou à decência.

 

Se para Sieyés o problema se identificava com a nobreza e o clero, que exploravam o povo, verdadeiro gerador da riqueza e a quem deveria pertencer o poder, forçoso é reconhecer que hoje, sob um enfoque mundial, esse mesmo povo se encontra cada vez mais em uma situação heterônoma, isto é, subordinado a uma ordem de cuja elaboração não participou. No entanto, sob um enfoque puramente axiológico, acreditamos não exigir prova a assertiva de que a vida de um pobre vale tanto quanto a de um rico, o que leva à conclusão, forçosa, de que o Poder, no plano mundial, para ser democrático, deveria caber à maioria. Assim, a exploração dos Países do Terceiro Mundo, decorrente da globalização, é tão ou mais odiosa do que aquela da Monarquia Absolutista francesa.

 

Quase duzentos anos depois, vitoriosa a Revolução Francesa, editadas as Declarações de Direitos, todas unanimemente reconhecendo a dignidade humana e o direito a uma existência decente, capaz de possibilitar o aperfeiçoamento do homem em todos os seus aspectos, persiste o estado de escravidão, não mais apenas interno, mas também financiado internacionalmente e orquestrado de acordo com os grandes interesses e os grandes esquemas de poder estruturados a nível mundial.

 

A luta pelo poder tem levado ao vilipêndio do "Terceiro Estado", que hoje identificamos com os pobres, desde as atrocidades de Hitler e Mussolini até as Guerras Modernas, com a destruição de cidades inteiras – Hiroshima e Nagasaki-  e povos, como na Coréia, no Vietnam, no Oriente Médio,  no Líbano, no Iraque...

 

Se nesses duzentos anos a Humanidade, da qual já se disse que, embora ainda não tenha aprendido a se governar, já aprendeu como se destruir, tivesse entendido a mensagem de Sieyés e dos revolucionários franceses, que pretendiam inaugurar uma nova era, com a abolição da odiosa Monarquia Absolutista, segundo o lema "liberté, egalité, fraternité", não teríamos cometido tantas atrocidades e o mesmo povo, não o francês, mas o de todas as nacionalidades, teria finalmente atingido aquele ideal: o de resolver o que fazer de seu destino e o de não se suicidar por decisões alheias.

 

 Para Celso Lafer e Felix Peña - "Argentina e Brasil no Sistema das Relações Internacionais"-, com a atenuação do conflito nuclear e a aceleração das mudanças tecnológicas, que levaram à multipolaridade do Poder e à neutralidade ideológica, o esquema mundial de Poder levou à destruição das barreiras nacionais, e a uma nova divisão internacional do trabalho. Disso resultou a globalização,  patrocinada pelo condomínio oligárquico das grandes potências.

 

Conseqüentemente, os povos são hoje avaliados como "mercados" (para produtos, capitais, capacidade  financeira, empresarial e tecnológica) e, como tal, são objeto  de acordos e tratados de cooperação e integração que nem sempre - ou quase nunca- consultam aos seus reais interesses, exatamente porque as decisões não cabem a representantes desse povo, mas aos condomínios de poder favoráveis aos interesses do condomínio oligárquico que rege o Mundo.

 

Isso explica todas as guerras modernas, que perderam aqueles resquícios de justificativas patrióticas e são, claramente, de inspiração mercenária, com os diversos Estados dispostos a se alinharem ao lado daqueles que oferecerem as maiores vantagens. Exemplo é a luta pelo controle da Região petrolífera do Oriente Médio, que somente tem servido para empobrecer, violentar e matar o povo desse "Terceiro Mundo".

 

 A atual crise financeira internacional desnudou ainda mais o problema, haja vista que o endividamento excessivo de diversos Países do Terceiro Mundo, processado nos últimos anos, em geral através de decisões autocráticas, impostas pelos governos desses Países, levou a graves crises internas, com inflação galopante, recessão e desemprego, agravando ainda mais o quadro já crônico de miséria, de injustiça social, de criminalidade, de insegurança.

 

O impasse está criado. O Mundo é governado pelas grandes Potências, que controlam o Sistema Financeiro Internacional, mas esse esquema de Poder levou a uma crise sem precedentes e está sendo, agora, contestado e atacado, embora nenhum desses Países tenha ousado, ainda, declarar a guerra ao sistema financeiro internacional. É o Terceiro Estado reagindo contra os abusos do clero e da nobreza, contra a exploração e as atrocidades da Monarquia Absolutista.

 

 A dívida externa da América Latina era de US$333 bilhões, em 1.983. Hoje, somente o Brasil "deve" mais de US$500 bilhões aos Países exportadores de capital, a juros flutuantes, decididos unilateralmente.

 

Na segunda parte deste trabalho, trataremos da crise resultante da globalização.

 

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