O PALHAÇO
Fernando Machado da Silva
Lima
09.06.2001
Francamente,
eu já estou até sentindo como se aquela bolota vermelha estivesse enfiada na
ponta do meu nariz. Estou me achando o próprio palhaço do circo. Pior, até,
porque o palhaço é simpático, todos acham graça dele, e eu, com tantas
reclamações, denúncias e críticas, já estou ficando rabugento, enjoado e
inconveniente, porque todos estão fartos de tantos escândalos e de tanta
impunidade.
Ninguém se
interessa mais em saber o que aconteceu com o juiz Nicolau, nem muito menos com
o caso do Banpará, ou com o Marka/Cindam. E a Georgina do INSS, lembra? Parece
que ficou tudo bem, exceto para os aposentados.
Ninguém quer
mais saber, também, o valor total da nossa dívida externa, nem quantos
deputados, senadores, ou membros do Governo sabiam que o painel eletrônico do
Senado estava sendo violado, talvez, apenas talvez, com a finalidade de
modificar suas decisões. Já está tudo bem, agora. Os senadores acusados
renunciaram, e ficaram impunes, simplesmente porque não lhes foi aplicada a lei
que determina que a renúncia não poderá impedir a continuidade do processo e,
se for o caso, a cassação e a inelegibilidade por oito anos. Essa norma está no
decreto legislativo nº16/94, aprovado pelo Congresso Nacional após o escândalo
dos “anões do orçamento.” Apesar disso, já foi arquivado o processo dos
ex-senadores ACM e Arruda. Ninguém reclamou nada. Parece mesmo muito normal a
impunidade. A opinião pública até simpatiza com esses senhores, pela sua
coragem, e pela sua atitude desafiadora. Afinal de contas, muitos outros
estariam, também, comprometidos. No próximo ano, o povo com certeza os elegerá
novamente.
Leis, nós temos. Até demais. O grande problema é que ninguém acredita
que elas são necessárias. Existe um sentimento generalizado de impunidade, e de
revolta. Se ninguém respeita nada, por que somente eu teria que respeitar? O
resultado é que, com tanta corrupção, com a irresponsabilidade generalizada, e
com a desnacionalização da nossa economia, desaparecem também nosso
auto-respeito e nosso sentimento de nacionalidade. Não basta que nós tenhamos
Constituição e leis. É preciso que o povo sinta que elas representam a sua
vontade e que são necessárias para garantir os seus direitos. É preciso que o
povo saiba que todos são iguais perante a lei, porque a igualdade é o
pressuposto básico da democracia. Sem ela, sem a igualdade, o regime é
autocrático, embora a Constituição afirme expressamente o contrário.
No regime
democrático, a Constituição é a norma jurídica superior, que determina o
funcionamento das instituições e garante os nossos direitos fundamentais. Ela é
o pacto inicial solenemente celebrado, mas infelizmente seu conteúdo é quase
desconhecido para a maioria dos brasileiros. Ela parece algo misterioso, abstrato,
e inútil, para aqueles que desconhecem quanto sangue foi derramado para que os
povos livres pudessem ter uma Constituição. Na realidade, ela não é apenas uma
espécie de norma suprema abstrata, mas também um projeto, uma representação de
sonhos e de ideais. É essencial, portanto, que o povo conheça a Constituição, e
as regras fundamentais que regem a democracia, porque somente assim seria
possível a reabilitação da política e da cidadania. O povo não pode exigir o
cumprimento de regras que desconhece.
Ainda ontem,
estava eu tranqüilamente abastecendo o meu carro, se é que alguém pode ficar
assim tão tranqüilo, com o preço do combustível, mas tudo bem. Eu estava
abastecendo o carro, e estava até de bom humor, quando se aproximou um sujeito
fumando. Evidentemente, com o resto de educação que eu ainda tenho, porque a
vontade que me deu foi aquela mesmo que você está imaginando, pedi a ele que se
afastasse, porque o cigarro poderia causar um incêndio e até uma explosão. O
fumante, como seria previsível, não ligou e ficou até aborrecido. Reclamei com
o guarda de segurança, mas este também não tomou nenhuma providência, e me
mandou falar com o gerente do posto. Este, por sua vez, estava fumando, em
companhia de outra pessoa, e não me deu atenção.
A mesma atitude do gerente desse posto é a do
Governo, completamente insensível em face dos problemas sociais. As verbas
públicas que deveriam servir para desenvolver a Amazônia e o Nordeste foram
utilizadas apenas para engordar as contas bancárias de políticos, parentes e
aderentes. A lei orçamentária deveria priorizar os investimentos em energia,
transportes, educação e saúde, ao em vez das obras suntuárias, com os palácios
do Governo, e isso foi muito bem exposto no artigo do professor Cristóvam
Buarque, publicado no último dia 8, nesta mesma coluna. A nossa carga
tributária é uma das mais pesadas do Mundo (31%), mas o retorno, que deveria
ser representado por esses investimentos indispensáveis, é quase nulo. Uma das
conseqüências é o “apagão”, e o mais absurdo é que nós ainda vamos pagar a
multa, que deveria na realidade ser paga pelo Governo, porque não soube gerir
os recursos provenientes de nossos tributos.
Enfim, ninguém
respeita as regras estabelecidas, e nós todos, cidadãos e contribuintes,
ficamos com cara de palhaço. Mas fica a dúvida: quando será que o circo vai
pegar fogo e vai explodir?
Parece que a única diferença que existe entre a nossa Democracia atual e a dos Governos Militares é o nome que se dá atualmente aos decretos-leis, porque hoje, eles são chamados de medidas provisórias, mas também podem alterar a Constituição. O resto continua muito igual, especialmente a subserviência e o comprometimento do Congresso.
Aliás, minto. Hoje, existe a liberdade de imprensa, que não existia
no Regime de 64. Hoje nós podemos reclamar, denunciar, e pedir providências das
autoridades. Podemos pedir o fim da impunidade, antes que o circo pegue fogo. O
problema é que ninguém nos ouve. O problema é que nenhum de nós respeita as
leis. Ninguém acredita na Constituição. Não existe um sentimento de
nacionalidade, ou de cidadania. O voto não é consciente. A nossa é apenas mais
uma das democracias formais latino-americanas, onde todos reclamam e ninguém
tem razão.
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