O NOVO PRESIDENTE DA OAB
Carlos Nina
Tribuna do Nordeste, São Luís – MA, 04/02/2007
Conheci o novo Presidente da OAB nacional, Cezar
Britto, empossado no começo deste mês, quando estive no Conselho Federal
(1998/2003).
Pessoa cordata e discreta, não teria contra ele
nenhuma reserva se não tivesse ele ocupado a Secretaria da OAB no mandato
anterior (2004/2006) e, nesse cargo, compactuado, ainda que pelo silêncio, com
as indignidades perpetradas por seu Presidente.
Se de alguma forma reagiu, não chegou ao
conhecimento público, nem dos advogados. E é difícil saber, porque a Ordem tem
sido uma caixa preta maior e mais fechada do que aquelas apontadas por seus
dirigentes no Poder Público.
A eleição e a posse de Cezar Britto, contudo, me
suscitaram duas reflexões.
A primeira é quanto ao passado, à própria
eleição, que, na verdade, não existiu. Nem foi uma aclamação, mas uma imposição
do esquema de poder que controla a entidade. Fato esse que demonstrei,
juntamente com Moreira Serra Júnior , no livro Pela Ordem, lançado em novembro
de 2006.
A “eleição” de Cezar Britto, ou de qualquer
outro que fosse ungido, confirmou exatamente tudo o que dissemos naquele livro,
Pela Ordem:
“Também para o Conselho Federal o
esquema é centralizador, embora tenha sido revogado um dos maiores absurdos:
quem elegia a Diretoria do Conselho Federal eram as Seccionais.”
“A esperteza maior, porém,
continua. O candidato a presidente depende da indicação de, no mínimo, seis
Seccionais...”
“Não é necessário muito
esforço para perceber que qualquer advogado que pretenda disputar a presidência
do Conselho Federal dependerá de acesso, no mínimo, a seis presidentes de
Conselhos Seccionais, o que cria dificuldades e embaraços, facilitando
candidaturas de interesse de quem já está no poder na OAB.”
“Quem duvidar disso basta
conferir as últimas eleições do Conselho Federal, que lembram o Gênesis:
ERNANDO UCHOA elegeu REGINALDO CASTRO, que elegeu RUBENS APPROBATO, que elegeu
ROBERTO BUSATO, que quer eleger alguém.”
“Disputa democrática, com
garantia de igualdade para todos os advogados, nem pensar.”
Quantos advogados não gostariam de disputar a
presidência da Ordem? Mas o bunker é uma fortaleza
inexpugnável. E seus beneficiários se ufanam disso...
Grande mérito. Hitler também se ufanava.
A segunda reflexão é quanto ao futuro.
Fora aquela restrição já mencionada, que pode
ser relevada e tributada ao temperamento de Cezar Britto, ninguém pode,
antecipadamente, dizer que dará seguimento a essa jornada de indignidades na
qual a OAB foi lançada. Há que se lhe dar o crédito da esperança. Especialmente
porque, diferentemente de seus antecessores que assumiram e se mantiveram
apontando para as mazelas do Poder Público (Legislativo, Executivo e
Judiciário) com o dedo enlameado pelo corporativismo pernicioso, a fraude, a
corrupção e a impunidade internas, Cezar Britto fez a mea
culpa devida, em nome dos advogados e, no caso, aceito que as tenha feito no
seu próprio nome, para acreditar que seu discurso não será apenas mais uma
falácia de dirigentes da Ordem.
Cezar Britto admitiu que “Não podemos ficar
mudos, dormentes e cegos para a triste realidade que vive o Brasil; não podemos
mais deixar de reconhecer a nossa surdez aos apelos da sociedade; não podemos
mais recusar o mandato que nos faz defensores do Direito e da Justiça”.
Cezar Britto reconheceu que os integrantes do
Poder Judiciário e os administradores da Justiça, dentre os quais os advogados,
“estamos falhando no cumprimento da nossa missão constitucional; não assumimos
integralmente nosso papel político e não estamos fazendo o nosso dever de casa
- não fazemos do Poder Judiciário o que deele quer a Constituição Federal”.
Embora eu já venha dizendo isso há mais tempo,
inclusive em livro editado pelo próprio Conselho Federal da OAB - A Ordem dos
Advogados do Brasil e o Estado brasileiro -, é bom saber que alguém assume a
direção nacional da Ordem com esse pensamento.
Que isso tenha o mesmo significado do que eu já
dizia nesse livro, escrito há seis anos: “...é preciso, também, que a instituição
se volte para suas próprias entranhas e faça os cortes na própria carne. Urge
que isso seja feito, para que a Ordem, fortalecida por um ensino jurídico que instrumentalize melhor os profissionais do Direito,
saudável pela solidez dos valores éticos que devem nortear seus quadros, esteja
preparada para melhor desempenhar suas finalidades.”