O massacre dos bacharéis
Fonte: O Paraná - PR
17/02/2005 - Arnoldo Anater
O
massacre que os candidatos a juiz de direito estão sofrendo no Paraná faz
lembrar a advertência do ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira quando foi
apresentado em Curitiba a um grupo de 23 aprovados, tirados de quase três mil
inscritos. Ao receber a informação dos diretores da Escola da Magistratura o
ministro, hoje vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça – STJ - foi
imediato e sincero: “não, isso não pode, está errado”. Depois acrescentou que a
justiça não precisa de gênios, simideuses, mas sim de
juizes humildes, que tenham bom senso, lógica e que amem
sobretudo o direito, o estudo, o trabalho e o que fazem. Para ser um bom
magistrado e um bom julgador não precisa ser privilegiado, o esforço aliado a
uma mediana inteligência é o quanto basta.
Sálvio reforçou seus argumentos dando um exemplo. Contou ter participado de
banca examinadora no Rio de Janeiro e na ocasião o candidato aprovado em
primeiro lugar o foi porque tirou as maiores notas em todas as etapas do
concurso.Conseqüentemente, teve o direito de escolher a comarca de maior
expressão para iniciar a carreira. Mas logo após a posse passou a criar
inúmeros problemas para a magistratura. A reincidência constante levou o
Tribunal do Rio a aconselhá-lo a pedir exoneração do cargo.E o fez. Ao
contrário do primeiro, o último classificado foi designado para uma pequena
comarca, sem processos complicados e até de fácil decisão já que pela sua
classificação não demonstrou ser uma sumidade e seria apenas mais um juiz. Puro
engano, o juiz assumiu a comarca sabendo de suas limitação. Dedicou-se profunda
e constantemente ao estudo e ao trabalho e tornou-se um nome internacional: Alirio Cavalieri.
O mesmo massacre ou pior está sendo cometido pela OAB-Paraná em seu exame de
ordem. Essa parece quer concorrer com os índices de reprovação das escolas
superiores nas provas de vestibular.Nunca aceitei a exigência desse exame para
a inscrição na Ordem. O bacharel ao concluir o curso de direito, ao receber seu
diploma não está apto, habilitado a exercer a profissão! Então, qual a razão do
exame! Não existe ainda a avaliação do Ministério da Educação que estuda o grau
de capacitação dos professores e dos alunos? Nessa altura o exame de ordem não
faz sentido, porque tudo foi devidamente avaliado, medido e pesado. Se falhas
há na formação me parece que essas não são do aluno, do estudante que ao
concluir a preparação lhe dão aval para desempenhar sua profissão. Por que não
pôr, então, nos bancos das provas as instituições de
ensino ou seus próprios mestres! As deficiências não são só
das Faculdades de Direito, elas vêem de longe, é de estrutura. Mas o mais grave
problema está no sucateamento dos professores. Há anos eles não são
valorizados, prestigiados, perderam o lugar de respeito na sociedade como
formadores de nossos filhos. Recebem salários aviltados e em razão disso
perderam a vontade e o amor de ensinar. Isso porque a educação e a cultura no
Brasil sempre estiveram em plano inferior.
Combater a criação de novas escolas superiores é uma incoerência num País onde
o analfabetismo ainda é alto e a ausência de técnicos é muito grande. Vamos
criar escolas, faculdades e depois vamos fiscalizar o ensino que elas
ministram. O que é injusto, contudo, é sacrificar bacharéis que precisam
trabalhar já e advogado se forma no dia-a-dia do exercício. A Ordem está se
comportando como a loja que precisa de balconista, mas só com experiência.
O autor é jornalista é bacharel em Direito.