O FUTURO DAS PROFISSÕES: A EDUCAÇÃO SUPERIOR, O CREDENCIALISMO
E A CONSTITUIÇÃO
Simon
Schwartzman
Texto de introdução a seminário organizado
pelo Centro de Treinamento para o Desenvolvimento Econômico - CENDEC, Brasília,
1986.
O seminário
Em novembro de 1986 será eleita, no Brasil, a Assembléia Nacional Constituinte,
com mandato para reorganizar o país e prepará-lo para o século XXI, como uma
democracia moderna e socialmente justa. Sua tarefa é monumental. Não só ela
terá que reparar as injustiças e distorções construídas durante os vinte anos
do regime militar, como também refazer as instituições e tradições legais,
desenvolvidas à medida em que o país crescia nas primeiras décadas desse século
e que permaneceram inalteradas desde então. Qualquer que seja o resultado
final, a aproximação da Constituinte tem sido vista como uma oportunidade para
se discutir e reexaminar um grande número de questões que são consideradas
relevantes e que podem vir a ser retomadas pela própria Constituinte no próximo
ano.
É nesse contexto que se está organizando um seminário, em meados de 1986 em
Brasília, sobre questões relacionadas à educação de elite, profissionalização e
ao credencialismo, sob os auspícios do Centro de Treinamento para o
Desenvolvimento Econômico - CENDEC - e com o auxilio da área educacional e de
treinamento do IPEA (Instituto de Planejamento Econômico e social), o principal
órgão técnico do Ministério do Planejamento do Brasil, e que recebe assistência
técnica e financeira do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD). O Seminário, com duração de dois dias, contará com aproximadamente cem
participantes de diversas partes do país, incluindo professores universitários,
empresários, funcionários públicos do alto escalão, lideres de associações ou
instituições profissionais e acadêmicas. As discussões versarão sobre um número
limitado de trabalhos a serem apresentados por especialistas brasileiros e
estrangeiros. Mesmo que não se espere que surjam propostas formais para a
Constituinte, o Seminário seguramente chamará atenção para problemas e questões
que geralmente não estão no primeiro plano das atuais discussões políticas no
Brasil, as quais podem ser retomadas no futuro, à medida em que avancem os
debates sobre a futura Constituição do país.
O Seminário, que acontecerá em Brasília nos dias 09 e 10 de setembro de 1986,
será composto de três sessões, cada uma com dois palestrantes, e de uma mesa
redonda final. As conclusões e resumo dos principais pontos discutidos serão
organizados pelo CENDEC e publicados logo após o Seminário.
O Problema - A Educação de Elite
em Sociedades
Nenhuma sociedade pode funcionar adequadamente se não tiver elites competentes
em posições de liderança e de direção em suas principais instituições -
companhias, sindicatos, órgãos públicos, serviços de saúde, bancos,
universidades, partidos políticos. Nas sociedades democráticas, o recrutamento
e a educação de elite deve ser abrangente e universalista, de modo a evitar que
uma determinada classe ou estrato social monopolize posições de prestigio e
poder. É por essa razão que a educação superior, em sociedades democráticas, é
considerada como uma responsabilidade do setor público, mesmo quando levada a efeito
por instituições privadas.
A educação superior está geralmente associada a dois processos intimamente
relacionados: a profissionalização e o credencialismo. No Brasil, há a
tendência a percebê-los como a mesma coisa. Dessa forma, as universidades são
vistas como fornecedoras de educação especializada a seus alunos, os quais se
tornam legalmente autorizados a desempenhar um determinado número de atividades
profissionais. Segundo essa perspectiva, a sociedade deve estar organizada de
tal modo que todas as atividades profissionais sejam desempenhadas por
profissionais legalmente autorizados através de diploma fornecido por
instituições educacionais oficialmente credenciadas. Quando a realidade não
condiz com esse modelo, isto é visto como uma das muitas imperfeições da
sociedade brasileira que precisam ser corrigidas.
A Educação de Elite
No entanto, uma perspectiva comparativa mostra que as coisas podem ser bem
diferentes. Todos os países têm instituições que se dedicam à educação das
elites; porém, há uma grande variedade na maneira pala qual essas instituições
são organizadas e no conteúdo do que ensinam. O que há de comum entre, digamos,
a École Politechnique francesa, a Business School de Harvard, a Universidade de
Tóquio e Oxford? Muito pouco, a não ser o fato de serem todas instituições de
prestigio e qualidade e de seus alunos se destinarem a posições de grande
responsabilidade e reconhecimento em seus respectivos países. O acesso a essas
instituições é bastante competitivo e seletivo, e a qualidade de seus
professores e alunos, aliada a seu status
de elite, parecem ser suficientes para capacitá-las a dar aos alunos o tipo de
educação que se espera que tenham. Se essas instituições ensinam engenharia,
administração de empresas ou literatura não parece fazer muita diferença.
Educação Profissional
O desenvolvimento da educação técnica e especializada em instituições de nível
universitário está relacionado, seguramente, às necessidades da sociedade
moderna de técnicos e especialistas em diferentes áreas, como também à ênfase
dada às noções de sucesso e competência na educação de elite, em contraste com
a ênfase mais tradicional dada aos modos aristocráticos e à cultura geral, mais
típica das escolas tradicionais de elite. Assim sendo, a moderna educação
profissional de nível universitário faz parte de um movimento mais amplo de
mobilidade social das novas elites, que se apresentam como mais modernas,
competentes e cientificas do que as tradicionais. As instituições de elite que
têm uma orientação técnica tendem a ser guiadas pela noção de sucesso em seu
recrutamento e a imprimir as noções de prestigio e reputação baseadas no
desempenho intelectual e profissional. Ao fazer isso, elas podam dar a
impressão de que há uma crescente democratização das oportunidades e da justiça
social.
O movimento em direção ao conhecimento especializado e às noções de sucesso tem
sido, historicamente, suficientemente forte para moldar as instituições de
ensino superior no mundo inteiro, desviando-as da educação generalista e
levando-as a dar uma qualificação profissional a cada aluno que se forma. No
entanto, essa tendência tem seus limites. A educação de elite não desaparece,
mas se embute em alguma instituição em moda ou em alguma área do conhecimento.
E a sociedade moderna nunca se torna tão completamente diferenciada e especializada
como eram as expectativas acerca da divisão do trabalho nas sociedades
industriais.
Credencialismo
A falta de um ajuste adequado entre o mundo do ensino superior e o mundo real
das ocupações e profissões ajuda a explicar o fenômeno do credencialismo, que
se constitui na tendência de unir essas duas realidades através de
procedimentos legais e formais. O credencialismo tem, pelo menos, dois efeitos
contraditórios. Pelo lado positivo, ele se justifica enquanto mecanismo que
garante à sociedade que aqueles que exercem uma determinada profissão estão, de
fato, preparados para tanto. Assim sendo, a universidade assegura que seus
formados estão preparados para desempenhar as tarefas para as quais eles foram
supostamente treinados, e o Estado assegura que as universidades estão
habilitadas a fornecer essas credenciais. Se essas duas garantias são dadas
corretamente, elas devem assegurar aos empregadores e usuários de serviços
profissionais de que estão recebendo serviços profissionais competentes, como
também devem assegurar aos alunos de que vão receber o treinamento adequado
quando ingressarem na universidade.
Contudo, um vez que muitas das atividades remuneradas e de alto prestigio não
necessitam, de fato, de uma grande especialização técnica, o sistema de
credenciamento pode facilmente se tornar um mecanismo para garantir o
privilégio profissional e de status
a certos grupos. A um nível extremo, o sistema de credenciamento pode criar e
proteger, através de mecanismos legais e formais, empregos desnecessários e
privilégios que não têm nenhuma relação com qualquer habilidade técnica ou
profissional. Isto implica em uma deterioração progressiva do processo
educacional, com os rituais de formatura tornando-se a preocupação dominante
das instituições de ensino, em detrimento dos processos reais de educação e de
treinamento profissional. Dessa forma. a educação especializada, que se inicia
com um movimento em direção à racionalização e democratização de oportunidades,
pode tornar-se um sistema de irracionalidade e de privilégios sociais.
Os objetivos do seminário
A falta de clareza sobre as diferenças, os interesses velados e as
conseqüências implícitas dos três processos acima resumidos - a educação de
elite, a educação profissional e o credencialismo - ajuda a explicar a
perplexidade daqueles que tentaram, tanto no Brasil quanto em outros países,
contribuir para a melhoria do ensino superior.
O Seminário deve examinar, em primeiro lugar, o que está ocorrendo com a
educação de elite no mundo de hoje e como a experiência brasileira se compara à
de outros países. Quais as instituições que, de fato, desempenham ou tentam
desempenhar esse papel e o que se pode esperar delas no futuro? Uma questão
central é o possível contraste entre as instituições universitárias e as não
universitárias, tais como o Instituto Rio Branco, a Escola Superior de Guerra
ou a Escola Superior de Educação Fazendária e suas correlatas internacionais.
Um papel importante também tem sido desempenhado por algumas escolas
secundárias nas grandes cidades. Uma outra discussão interessante é a mudança
no papel de várias profissões - direito, engenharia e economia - enquanto fonte
de recrutamento das elites nacionais. Será a educação de elite de boa qualidade
e bem institucionalizada, ou será ela casual? O seminário deve investigar
perguntas como: a educação de elite tem, necessariamente, um forte preconceito
social implícito em seu processo de recrutamento, ou será ela universalista?
Será que ela deve tornar-se mais aberta e explícita?
Em segundo lugar, o Seminário deve tratar as questões da educação profissional,
em termos da polaridade existente entre esta e a educação generalista As
questões a serem levantadas têm relação com a procura efetiva do mercado por
profissionais especializados e com os possíveis hiatos entre o que o mercado
busca e o que as instituições educacionais oferecem. A educação especializada
avançou em demasia (por exemplo, na Medicina), ou ainda está atrasada? É
possível e desejável prever, no país, uma volta do sistema educacional superior
à educação generalista? o que se pode esperar da recente expansão de profissões
não tradicionais? Quais as possíveis relações entre os cursos de graduação
especializados e profissionalizantes e a tendência em direção aos programas acadêmicos
de pós-graduação? Quais têm sido as tendências nos países mais desenvolvidos?
Por ultimo, o credencialismo deve ser examinado em, pelo menos, dois aspectos.
Em primeiro lugar, ele deve ser relacionado à tradição corporativa mais ampla
da sociedade brasileira, mas também levando-se em conta que este é,
provavelmente, um fenômeno mais genérico e universal. Em segundo lugar, deve-se
discutir o credencialismo à luz do atual excesso de portadores de diploma de
curso superior, que parece ser uma importante característica da sociedade
brasileira moderna (mas este também é um fato relativamente comum em países com
um sistema de educação superior em massa). É possível - e desejável - que se
retorne a um mercado de trabalho especializado menos controlado? Qual a
experiência de outros países nessa questão? É possível alterar o atual sistema,
em expansão, dos conselhos profissionais, dos currículos legalmente definidos
das universidades e dos privilégios de trabalho? Como se poderá levar a efeito
uma política que venha a ser traçada de desregulagem acadêmica e profissional?