REFORMA POLíTICA/OAB
rejeita Constituinte
Jornal de Brasília (DF)
Por: Thiago
Data: 08/08/2006
Conselho Federal da Ordem rechaça convocação e afirma
que a medida só se justifica quando há ruptura institucional
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) rejeitou ontem a tese
de convocação de uma Assembléia Constituinte
exclusiva para a votação da
reforma política, com a alegação de que a medida só se justifica quando há
ruptura institucional, o que não é o caso. Depois da repercussão negativa em
torno da idéia, o assunto transformou-se em polêmica na reunião do Conselho
Federal da OAB, que teve momentos de tensão, com alguns conselheiros criticando
seus colegas que estiveram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana
passada, quando foi discutida a tese da Constituinte
exclusiva.
Foi a própria OAB que divulgou em nota, semana
passada, que o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, havia
informado ao presidente da entidade, Roberto Busato,
da disposição do presidente Lula de propor a constituinte,
caso a Ordem encampasse a idéia. Mas ontem, na reunião do Conselho, as
divergências foram expostas e a idéia da constituinte
exclusiva arquivada.
O conselheiro da OAB no Ceará, Paulo Quezado, cobrou
explicações dos quatro ex-presidente da OAB presentes
no encontro com Lula. "Os ex-presidente são membros vitalícios e devem
explicações à entidade. Esse negócio de Constituinte
é golpe, o Congresso foi eleito."
O advogado Reginaldo de Castro, um dos quatro ex-presidentes que estiveram no
Planalto, defendeu-se: "Levamos ao presidente o documento sobre CPIs. De repente alguém tocou em
reforma política e Lula disse que era simpático à uma constituinte exclusiva. Ninguém apoiou, ninguém disse que a OAB apoiava.
Sou a favor a uma Assembléia Constituinte
não parcial, mas é um sonho utópico. E isso eu, pessoalmente, o advogado
Reginaldo".
Na nota divulgada ontem, a Ordem rechaça qualquer possibilidade de convocação
de uma constituinte: "A Constituinte – plena ou parcial, exclusiva ou derivada – só se justifica
quando há ruptura institucional. Não é o caso", diz um trecho da nota. Os
conselheiros aprovaram a criação de um fórum para debater a reforma política e
propor um anteprojeto, no ano que vem, ao Congresso eleito. O coordenador do
fórum será o jurista Fábio Konder Comparato.
Críticas ao Congresso
Na reunião, Roberto Busato aproveitou para criticar o
atual Congresso. "A CPI dos Sanguessugas revelou
que a atual Legislatura é, talvez, a Legislatura mais vergonhosa da história da
República, pela extensão do comprometimento do Congresso Nacional com a máfia
das ambulâncias. É um absurdo o que aconteceu dentro do País", disse
o presidente da OAB.
O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, procurou mostrar que o
governo não se sentiu derrotado com a decisão da OAB. "Se será através de
uma mini constituinte
ou do próprio Congresso, isso não é relevante. Relevante é que a reforma
política seja feita. A repercussão (da proposta de Assembléia Constituinte) foi altamente positiva,
tanto que a reforma política passou a ser uma urgência. O
centro da proposta do presidente Lula e o centro da proposta da OAB é o
mesmo: fazer imediatamente uma reforma política. A OAB propõe que a próxima
Legislatura faça essa reforma e também considerou que a atual não teria
condições de fazê-la. Isso não é nenhum ataque a nenhum partido ou parlamentar,
é a situação política que está criada no País. O governo vai se somar sim ao
movimento da OAB."
Para Tarso, o financiamento público das campanhas e a fidelidade partidária são
as duas questões mais importantes da reforma. "O financiamento público
permitiria uma fiscalização mais dura, mais certeira e mais justa das campanhas
pelos próprios tribunais. Já a fidelidade partidária daria coerência ao sistema
político-partidário", disse Tarso, que aproveitou para contestar
declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, à revista Época,
questionando a importância da fidelidade partidária: "Acho isso um
equívoco de fundo. É inclusive depor contra a reforma política, pois isso é uma
questão fundamental para se ter governabilidade".