LEITURA
NECESSÁRIA PARA O CIDADÃO BRASILEIRO, PRINCIPALMENTE AQUELES QUE
SÃO ADVOGADOS (OU SERÃO UM DIA)
Repassando com a
autorização do autor conforme consta no fim da mensagem.
Brasília-DF, 06
de fevereiro de 2006
Excelentíssimo
Senhor Ministro Nelson Azevedo Jobim,
Saúdo Vossa
Excelência e, respeitosamente, rogo sua atenção por alguns minutos.
Sei que o seu
tempo é precioso e às vezes insuficiente para atender a todos os compromissos e
responsabilidades inerentes ao seu importante cargo.
O "Correio Braziliense" que circulou no dia 02/02/2006 trouxe, em
primeira página, como manchete principal: "JOBIM LARGA A TOGA E SOBE AO
PALANQUE".
Não vou comentar
nem reproduzir trechos do artigo, pois Vossa Excelência já deve ter lido a
matéria. Desejo apenas transmitir a Vossa Excelência a minha alegria e
satisfação pela sua decisão de abandonar a Suprema Corte (para onde nunca
deveria ter ido) e retornar às lides políticas. Dadas as denúncias que vêm
sendo divulgadas na imprensa, de uso da toga em benefício de interesses
próprios, quanto antes Vossa Excelência deixar o cargo, melhor para
todos. O bom mesmo seria se Vossa Excelência considerasse a conveniência
de abandonar de vez a vida pública.
Tenho em mãos o
histórico de sua vida. Poucos brasileiros têm ou tiveram o privilégio e a
oportunidade de construir um currículo tão vasto, tão precioso e tão rico. A
vida pública de Vossa Excelência está recheada de cargos importantes,
condecorações, mandatos eletivos e missões relevantes - aqui e no exterior.
Depois de tão
significativa trajetória, tendo Vossa Excelência percorrido os
largos caminhos do magistério, do Poder Legislativo e do Executivo, foi,
aos cinqüenta e um anos, guindado à invejável condição de Ministro do Supremo
Tribunal Federal.
Aí começou o seu
desconforto!
Sem se desligar
das manhas da política, Vossa Excelência, com o tempo, já não conseguia mais
disfarçar suas imensas dificuldades para o exercício da suprema judicatura. Se
Vossa Excelência, como homem de inteligência privilegiada e posições definidas,
já sabia que isso iria acontecer, por que não recusou
a indicação?
Assim, os fatos
foram se sucedendo, a indignação pública foi crescendo, até que importantes
segmentos da sociedade, como, por exemplo, a Ordem dos Advogados do Brasil e o
Conselho da Magistratura, secundados pelas vozes dos mais proeminentes e
respeitados juristas brasileiros, começassem a questionar a juridicidade de
suas decisões e a imparcialidade de sua conduta como Ministro, principalmente
como Presidente da Suprema Corte, culminando com a interpelação de Vossa
Excelência - fato inédito em nossa história - promovida por inúmeras e
respeitáveis personalidades da vida nacional.
Releva
acrescentar que Vossa Excelência foi o primeiro Ministro do Excelso Pretório a ser
interpelado judicialmente, no exercício de suas exclusivas atribuições - mais
um item no seu currículo.
Mas, é muito
importante que Vossa Excelência compreenda que não são as reações da OAB, nem
as da Magistratura, nem as de expressivos setores da sociedade as mais
preocupantes. As que mais clamam à consciência nacional são aquelas que
ouvimos diariamente contra as manobras de pedidos de vista, com prazos
intermináveis, feitos por Vossa Excelência, quando na pauta de julgamentos do
Supremo são incluídos processos nos quais o governo tem manifesto interesse
(alguns engavetados há mais de sete anos). Vejamos alguns exemplos:
·
ADIN 1940/03 - 02 anos e 10 meses de gaveta;
·
ADIN 1625/03 - 02 anos e 04 meses de gaveta;
·
ADIN 1924/03 - 02 anos e 03 meses de gaveta;
·
ADIN 2077/03 - 02 anos e 03 meses de gaveta;
·
ADIN 2135/02 - 03 anos e 07 meses de gaveta;
·
ADIN 2591/02 - 03 anos e 03 meses de
gaveta.
·
ADIN 255/02 - 03 anos e 07 meses de gaveta;
·
ADIN 1648/02 - 03 anos e 04 meses de gaveta;
·
ADIN 1945/99 - 06 anos e 08 meses de gaveta;
·
ADIN 1923/99 - 06 anos e 06 meses de gaveta;
·
ADIN
423/99 - 07 anos de gaveta;
·
ADIN 682/98 - 07 anos e 02 meses de gaveta;
·
ADIN 1764/98 - 07 anos e 09 meses de gaveta;
·
ADIN 1491/98 - 07 anos e 07 meses de gaveta;
·
ADIN 1894/98 - 07 anos e 02 meses de gaveta;
·
ADIN 494/97 - 08 anos e 01 mês de gaveta;
Mais polêmico que
isso só mesmo a sua atuação na Constituinte.
A ADIN 1940/03
foi conclusa a Vossa Excelência no dia 19/03/2003, já com o parecer do
Ministério Público. Como as demais, também tomou o rumo do puxa e
empurra.
Que pensamento
passa pela cabeça de Vossa Excelência quando se depara com um quadro como
este? Que juízo de valor devemos nós brasileiros
fazer de sua atuação como Ministro e como Presidente do Supremo Tribunal?
Quando ainda
estava no serviço ativo, presenciei um colega ser punido com cinco dias de
suspensão, por ter permanecido com um inquérito policial cujo prazo para
remessa à Justiça já havia se esgotado há dezenove dias.
Fico
imaginando... Se fosse aplicada a mesma regra no STF, pela proporção,
Vossa Excelência deveria ser punido com vinte e dois anos de suspensão.
A sua decisão de
impedir a continuidade de alguns trabalhos investigatórios, a cargo da Polícia
Federal e das Comissões Parlamentares de Inquéritos, e o seu desprezo pelas
justas manifestações de inconformismo diante de suas polêmicas decisões, como
se Vossa Excelência fosse o senhor da vida e da morte e estivesse acima do bem
e do mal, são fatos que a nossa cidadania reprova.
Agora, a imprensa
nos dá a notícia de sua decisão de voltar às paliçadas do PMDB - partido sem
definição política, sem identidade ideológica, sem autenticidade partidária e
sem um programa de ajuda ao país (o único programa conhecido é o do casuísmo,
do oportunismo e do adesismo incondicional).
Não constitui
nenhum segredo que o PMDB sempre revelou uma incontrolável vocação para aderir
a quem estiver no poder, não tendo nenhuma importância se o grupo governante
empunha a bandeira da esquerda, da direita, do centro, de cima, de baixo ou da Cochinchina.
A conclusão óbvia
que se pode extrair dessa situação é que o Partido demonstra não ter condições
para governar o país, ou não deseja assumir essa responsabilidade, preferindo
apenas ganhar o controle das tetas da viúva.
Aliás, as duas únicas vezes que o PMDB chegou ao poder foi trombando
com as regras e as tabelas. Primeiro, com Sarney - de maneira no mínimo
discutível, uma vez que assumiu substituindo um presidente que morreu antes de
tomar posse - e depois, com Itamar Franco, após um processo de cunho
notoriamente político, que culminou com a cassação do mandato do ex-presidente
Collor de Melo.
Mas não pretendo,
nesta carta, avaliar o PMDB. Isto é tarefa para os eleitores.
Voltemos a falar de Vossa Excelência.
Vossa Excelência
foi Ministro da Justiça do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e, pelas
suas mãos, chegou ao Supremo Tribunal Federal (talvez um dos grandes erros de
FHC). Agora, adere a Lula da Silva - adversário do seu ex-padrinho e
homem de rumos políticos e ideológicos totalmente contrários às aspirações
democráticas do povo brasileiro e aos governos que Vossa Excelência serviu, ou
deles participou, no passado.
Corre, inclusive,
pela imprensa a notícia de que Vossa Excelência será o candidato à
vice-presidência na chapa de Lula da Silva. Pela sua postura nos últimos
dias, no exercício da presidência do STF, é bem possível que seja
verdade. Não tenho nada com isso. Vossa Excelência tem curso
superior, é vacinado, batizado, maior de idade (no dia 02/04/2006 será um
sexagenário, como eu) e absolutamente livre para escolher os seus caminhos.
Mas, como
político e homem público, Vossa Excelência deve explicações e satisfações ao
povo, que lhe outorgou todos os mandatos que já exerceu - e eventualmente algum
outro que vier a exercer - e paga seus salários. Como candidato, se for
realmente verdadeira a notícia, Vossa Excelência terá a oportunidade de saber
que tipo de avaliação os brasileiros irão fazer de sua atuação como ministro do
STF, mediante um julgamento justo e imparcial, que não será, com toda certeza,
em nada parecido com algumas de suas recentes decisões no Supremo
Tribunal. O povo é a única e verdadeira fonte de sabedoria!
Espero que Vossa
Excelência compreenda e reconheça o meu direito de criticar os homens públicos
que, a meu juízo, mereçam ser criticados.
Afinal, estamos
num país ainda livre e são os nossos impostos que pagam seus salários.
Bem, Excelência, no início solicitei dispensar-me alguns minutos
do seu valioso tempo. Vossa Excelência deve ter levado menos de cinco para
concluir esta leitura.
Despeço-me,
rendendo-lhe o preito de todo a minha deferência e acatamento, aliado aos mais
sinceros desejos de felicidades e bem-estar pessoal,
extensivos a todos os seus familiares. O juízo que faço de Vossa
Excelência como homem público nada tem a ver com o respeito que lhe devo.
Finalmente, devo
dizer a Vossa Excelência que este não é um documento de conhecimento
exclusivo. Por isso, reservo-me o direito de divulgá-lo quando, onde, e
pela forma que me parecer mais oportuna e conveniente.
Respeitosamente,
Geraldo José
Chaves
Delegado de
Polícia Federal
Aposentado em
defesa do Poder Judiciário contra aventureiros