IRRESPONSÁVEL CONFESSO
Carlos Nina e Moreira Serra
Diário da Manhã, São Luís - MA , 16/05/2006
O Governo do Maranhão é um irresponsável
confesso. Dentre outras áreas, específica e expressamente na da segurança
pública, como declarou seu Secretário de Segurança em entrevista recente na
mídia local.
Aliás, as afirmações do Secretário chocam-se diretamente com as do Governador,
criando uma situação na qual alguém está mentindo. No caso, o Governador ou o
Secretário. Ou ambos.
O Governador e outros prepostos seus têm
declarado que todos os municípios dispõem de delegados de polícia de carreira,
ou seja, bacharéis em Direito, como manda a lei. O Secretário de Segurança,
porém, disse que mais de 100 (cem) municípios do Maranhão não têm delegado de
carreira. O cargo vem sendo exercido por agentes de polícia, sargentos ou
soldados da Polícia Militar.
É a irresponsabilidade e o descaso confessados, além, claro, da mentira exposta.
Quem deveria fazer alguma coisa contra essa
situação?
Em princípio, cada cidadão, denunciando, como fazemos agora, ou cobrando das
instituições e autoridades públicas. O problema é que, na maioria dos casos, as
tais autoridades, do Executivo e do Legislativo, não estão nem um pouco
preocupadas com essas questões.
Duas instituições que têm o dever legal de
exigir o respeito à Constituição Federal, mas cujo comprometimento de seus
comandos com o Governo as tem conduzido à omissão escandalosa, são o Ministério
Público estadual e a OAB.
Diz a Constituição Federal (art. 119, II)
que o Ministério Público tem por dever zelar pelo respeito aos direitos nela
assegurados, promovendo as medidas necessárias à sua garantia. E a Lei federal
n. 8906/94 (art. 44, II) diz que a OAB tem por finalidade defender a
Constituição Federal.
Querendo mostrar serviço, o Ministério Público estadual ensejou uma campanha de
combate ao nepotismo, generalizando suas ações, numa desenfreada caça às
bruxas, como se toda situação onde haja relação de parentesco no Poder Público
configurasse ofensa ao princípio da moralidade.
Fazendo o jogo do Governo estadual no sentido de tripudiar sobre a já liquidada
candidatura de um dos supostos candidatos do Governador, a OAB atacou a
cobrança da taxa do lixo.
Sem entrar na discussão da
constitucionalidade ou não da taxa do lixo, essa matéria trata de interesse
patrimonial privado. O dever social da OAB é para com o interesse público.
Admitindo-se, porém, que se trata de matéria alcançada pelo dever da OAB de
defender a Constituição Federal, constata-se, aí, a omissão do Ministério Público
estadual. O que não é uma novidade.
No que se refere à OAB, há de se perguntar o seguinte: se a OAB se mostrou tão
diligente para entrar em questão de interesse privado, que é a taxa de lixo,
sob o argumento de defender a Constituição, por que não cumpre o seu dever com
relação a questões mais importantes e de maior interesse social, como a
defensoria pública, a segurança pública, a saúde e o salário-mínimo, para ficar
apenas nesses exemplos?
A Constituição Federal assegura a todo
cidadão pobre um advogado pago pelo Estado (art. 5º, LXXIV); garante que a
saúde é um direito de todos e dever do Estado (art. 196); e, também, garante a
todo trabalhador um salário-mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado (art.
7º, IV).
Por que o Ministério Público estadual e a OAB não ajuízam as ações competentes
para exigir o respeito à Constituição Federal e fazer com que:
a) seja criada – o que existe é um arremedo – uma Defensoria Pública capaz de
atender à demanda das pessoas que não podem pagar um advogado, mas que têm
direito a um, do quadro de Defensores Públicos?
b) todos os delegados de polícia sejam bacharéis em direito, concursados?
c) o Estado disponibilize estabelecimentos de saúde decentes, com pessoal e
equipamentos necessários para garantir esse direito constitucional?
d) o Governo estadual respeite o salário-mínimo nacional fixado pelo Governo
Federal?
No caso da Segurança
Pública, quem a comanda é um Conselheiro Federal da OAB! Que confessou
compactuar com a inconstitucionalidade, a ilegalidade e a imoralidade de nomear
para o cargo de delegado de polícia - privativo de bacharéis em Direito, aprovados em concurso público - pessoas não habilitadas. E
ainda se deu ao desplante de fazer desafio desmoralizante ao Ministério Público
estadual, deixando claro, publicamente, que aqueles fatos eram passíveis de
ações do Ministério Público.
Quanto à OAB, sabe-se que nada fará. Se fizer, será jogo de cena, pois a
Instituição é hoje a extensão do Gabinete do Governador e do Secretário de
Segurança, para mantê-la manietada e cúmplice na omissão - como no caso da
corrupção e da tortura - e até na ação - como no caso da taxa de lixo - para
atender interesses políticos eleitoreiros.
Segurança pública é coisa séria e não deveria ser tratada com
tanto desrespeito. A decisão do Governador de mandar suas filhas para
Brasília por motivos de segurança é uma prova mais eloqüente do que qualquer
discurso para comprovar que nem mesmo ele confia na segurança que seu Governo
pode oferecer.
Se assim é com as filhas do Governador, o
que pode acontecer – e tem acontecido - com os demais cidadãos, especialmente
os pobres, para quem nem defensor o Estado assegura?
Tudo isso acontece com o beneplácito, a
omissão e a cumplicidade do Ministério Público e da OAB.
A violência que acontece no Rio de Janeiro,
que em São Paulo matou mais de setenta pessoas em
menos de quatro dias e que se alastra pelo País conduz a sociedade brasileira a
uma guerra civil. A causa imediata: a falta de aplicação responsável de
recursos na segurança pública, na educação e em políticas públicas eficazes.
Falta de dinheiro? Não. O dinheiro existe, mas é escoado na vala da corrupção
precisamente sob o título de obras e ações governamentais de fachada, nas quais
os profissionais da corrupção sangram os cofres públicos e levam ao caos os
sistemas de segurança, de educação, de saúde, de previdência e os serviços
públicos em geral.
Atacar a violência com discursos demagógicos, falaciosos, mentirosos e cínicos
já não engana ninguém. A raiz desse mal está na corrupção. Ou se ataca a corrupção ou vamos conviver – talvez sobreviver - com uma
guerra civil provocada pela violência e pela miséria da exclusão a que estão
sendo compelidos milhões de brasileiros.