Governo vai demitir na frente os que têm menos tempo
de serviço público, como manda o ajuste de conduta
Diário, 20.05.2005
Bilhete azul dia 30 aos primeiros
500
FABÍOLA BATISTA
A partir do próximo dia 30, o
governo do Estado demitirá os primeiros 500 trabalhadores temporários do
serviço público, conforme o cronograma do termo de ajustamento de conduta
assinado na Justiça do Trabalho, em 9 de maio. Deverão ser demitidos primeiro
os que têm menos tempo no serviço público. O critério também está previsto no termo
de ajuste de conduta e foi reiterado ontem à tarde durante reunião no Centro
Integrado de Governo (CIG), entre representantes da Secretaria Executiva de
Administração (Sead) e a Intersindical.
Tramita no Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº
54/99, que dá aos temporários com mais de dez anos no serviço público, nas três
esferas - federal, estadual e municipal -, a estabilidade, mesmo sem terem
feito concurso público. A Comissão de Constituição e Justiça e de Redação da Câmara
dos Deputados já opinou favorável à admissibilidade da PEC. No Pará, 21.838
servidores estaduais são temporários e cerca de 60% deles podem ser
beneficiados pela PEC. Todos iriam para um quadro especial em extinção, ou
seja, o Estado ficaria proibido de contratar temporários para substituir os que
forem saindo do serviço público.
Enquanto a PEC 54/99 tramita, o termo de ajuste de conduta força o governo do
Estado a demitir, até dezembro deste ano, 10.338 funcionários, mais 5.500 até
junho de 2006 e seis mil até 2007. “Quando esteve em Belém, o presidente da
Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, mostrou-se favorável à emenda
constitucional. E amanhã (hoje), iniciam as negociações das bancadas estaduais
e por partido para sua aprovação. No país são aproximadamente 400 mil
temporários nos governos federal, estaduais e municipais”, informou Kilber Nunes, assessor da Comissão dos Servidores
Temporários do Pará.
CRÉDITO - Na reunião de ontem,
também ficou acordado que o Banco do Cidadão abrirá uma linha de crédito
especial aos temporários demitidos. Haverá cursos de qualificação na Casa do
Trabalhador ou Escola de Governo. Servidoras grávidas e sindicalistas terão
tratamento diferenciado na dispensa. “O secretário (Frederico Monteiro) se
comprometeu a apresentar formalmente esses critérios numa reunião, na próxima
segunda-feira, às 15h30, com a presença dos gestores, demais secretários e
diretores de recursos humanos de toda a administração”, disse Nunes.
Frederico Monteiro confirmou que os temporários com contratos mais recentes
serão os primeiros a sair. “Considerando a existência da PEC, com tramitação em
caráter especial e em negociação, os temporários com mais de dez anos serão distratados a longo prazo, porque
é fundamental que transfiram suas experiências aos mais novos para manutenção
da qualidade do serviço público”, salientou.
Segundo ele, o governo do Estado não tem obrigação de garantir a capacitação
aos demitidos, mas a atual administração está sensível a esta situação. “Simão
Jatene já havia determinado e estamos concluindo estudos para que os
temporários com limitações numa concorrência de concurso público, devido à
idade ou baixa qualificação, possam ter um novo meio de vida”, disse.
Educação e saúde preocupam o
governo
A saída dos temporários causará
mais impacto na Educação e na Saúde. Monteiro ressalta que a situação desses
trabalhadores será avaliada com prudência, porque não se pode interromper as
aulas na rede estadual, em pleno ano letivo, ou prejudicar o atendimento médico
à população.
Ainda há seis mil concursados aguardando nomeação e
11 concursos públicos programados, “e podemos ter ainda mais”, cogitou o
secretário. No próximo domingo, a Sead publicará em
todos os jornais a relação dos aprovados nos concursos públicos aptos a serem
chamados, ou seja, os classificados pelo número de vagas
existentes, conforme também exige o termo de ajuste de conduta.
Advogado denuncia TJE e Ministério
Público
ELLEN VAZ
O Ministério Público do Trabalho
(MPT) vai investigar a denúncia do advogado do Sindicato dos Trabalhadores em
Educação Pública do Pará (Sintepp), Walmir Brelaz, de que há servidores temporários no Tribunal de
Justiça do Estado e no Ministério Público Estadual (MPE).
O procurador do MPT, Paulo Germano, recebeu a informação no dia 25 de abril e
decidiu formalizá-la ao MPT, na última segunda-feira. Walmir Brelaz questiona a responsabilidade dos poderes Legislativo
e Judiciário, do Ministério Público, da OAB e do próprio MPT, sobre a
permanência prolongada e ilegal de servidores temporários e diz que cada um dos
poderes tem responsabilidade na contratação irregular.
O advogado cita a violação do artigo 37, inciso II, da Constituição de 1988,
que restringe a investidura à aprovação em concurso público de provas e
títulos, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão, de livre nomeação e
exoneração.
“É justamente esse ordenamento
jurídico que, no entendimento do Ministério Público, está sendo violado,
inclusive - e principalmente - com a participação do Poder Público, no qual o
Executivo conta com a ‘autorização legal’ do Legislativo, através de aprovações
de seis leis complementares, autorizando contratações e prorrogações de
contratos de temporários.
RESPONSABILIDADE - O advogado
denuncia que o Ministério Público do Pará, fiscal da lei, silencia e mantém em
seus quadros “temporários”, da mesma forma como o Poder Judiciário estadual,
que nos municípios funciona com temporários ‘emprestados’ das prefeituras. “E a
OAB/PA e o próprio Ministério Público do Trabalho, o
que fizeram em anos anteriores? Todos, queiram ou não,
têm a sua parcela de culpa desse caos administrativo”, acusa o advogado.
A procuradora-chefe em exercício do MPT, Loana Uliana, informou ontem que
a denúncia de Brelaz ainda não foi distribuída, em
razão do acúmulo de serviço provocado pela chegada de novos procuradores em
Belém, Marabá e Macapá, que assumirão os cargos nas novas subsedes
do MPT. Ela garantiu que a denúncia será distribuída até a próxima semana.
Louana informou que, caso haja temporários no
Ministério Público Estadual e no TJE, o MPT vai chamar o presidente do TJE,
Milton Nobre, e o procurador-chefe do MPE, Francisco Barbosa, para firmar termo
de ajuste similar ao do Executivo e da Assembléia Legislativa (AL) do Estado,
estabelecendo prazo para demissão e realização de concurso público para as
vagas. “Mas vamos primeiramente avaliar a situação, porque cada caso é
diferente”, ponderou Louana.
Concurso até o final do ano
A assessoria de imprensa do TJE
informou que Nobre planeja um concurso público para o final do ano. Ainda
segundo a assessoria, a presidência mandou levantar o número de temporários no
Poder. Nobre disse ontem ao DIÁRIO que há um mandado de segurança sobre o
assunto e que não faria julgamentos precipitados. A assessoria de imprensa do
Ministério Público do Estado informou que não há mais temporários trabalhando
no órgão desde dezembro, quando começaram a ser empossados os
420 servidores dos cerca de 14 mil aprovados no último concurso. No
último mês, mais 41 servidores foram chamados para a capital e o interior.
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