Exame de ordem para médicos
segunda-feira, 8 de agosto de 2005

O que fazer para melhorar o nível dos 12 mil profissionais que se formam todos os anos, no Brasil?

Ellen Simone Paiva

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) vai aplicar, em outubro, um exame de habilitação - nos moldes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) - para os estudantes do último ano e os recém-formados em Medicina nas faculdades e universidades paulistas.

A prova, que será opcional, tem como objetivo auferir o conhecimento dos profissionais formados em Medicina - uma iniciativa que poderá ganhar dimensãão nacional e, talvez, tornar-se obrigatória no futuro, se tiver a adesão do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Não haverá taxa de inscrição e os exames serão realizados em São Paulo e em Ribeirão Preto. Na primeira etapa da prova, os candidatos responderão a 120 questões que envolvem clínica médica, clínica cirúrgica, ginecologia e obstetrícia, pediatria, saúde pública e epidemiologia, conteúdo semelhante ao exigido nas provas de residência. Além disso, os estudantes responderão também a questões sobre ciências básicas, bioética e saúde mental. Os aprovados nessa primeira fase serão convocados para fazer, em novembro, uma segunda prova, uma avaliação prática.
Ao ler esta notícia nos principais jornais nacionais, comecei a me questionar se a medicina no Brasil pode tratar seus males de maneira tão superficial,tratando apenas seus sintomas. Exame de ordem para médicos?
No Brasil existem, atualmente, 145 escolas médicas em funcionamento, muitas delas sem a menor condição de manter suas portas abertas. Por ano, estas instituições de ensino oferecem 12.789 vagas. Só o Estado de São Paulo conta com 26 escolas médicas, que oferecem por ano 2.458 vagas para formar novos médicos. A quem interessa a abertura de tantas escolas na área da saúde, e principalmente, qual a contribuição social que a abertura de tantos novos cursos pode trazer para a medicina brasileira?
Boa parte destes 12 mil estudantes que se formam a cada ano não tem a oportunidade de fazer um bom curso e, pior, muitos não terão como fazer a residência médica, pois estas mesmas instituições que os formam não oferecem especialização. No ano passado, o CFM lançou a pesquisa "O Médico e o seu Trabalho". O estudo apontou que a formação do médico vem ocorrendo, majoritariamente, 70,6%, em escolas de medicina públicas, e, dentre estas, apenas 61,6% oferecem residência médica.
As principais entidades nacionais representativas da classe médica (Associação Médica Brasileira, Conselho Federal de Medicina e Federação Nacional dos Médicos) já se posicionaram, por diversas vezes, contrárias à abertura de novas escolas médicas e lutam na esfera federal para que o Conselho Nacional de Saúde tenha papel decisório e não apenas consultivo, como é hoje, no processo de abertura de novas escolas médicas. Além disso, as entidades também estão unidas na defesa de projeto de lei que prevê uma moratória de 10 anos para abertura de novas escolas médicas.
Atualmente, temos mais de 290 mil médicos registrados nos Conselhos de Medicina em todo o Brasil e o que sentimos é a ausência de políticas de saúde eficientes que possibilitem uma melhor distribuição desses profissionais pelo País. Não temos número insuficiente de médicos, temos regiões desprovidas de qualquer condição de trabalho, onde o médico naturalmente não quer ir e regiões onde o mercado de trabalho para o médico encontra-se saturado. A abertura de instituições de ensino médico sem compromisso com a formação médica de qualidade só vem agravar esse quadro.
Hoje, 53% das escolas de medicina são instituições de ensino privadas. Uma escola de medicina requer uma estrutura cara e complexa, que dificilmente é disponibilizada pelos “empresários da educação”. Sugiro que neste momento moralizante da política brasileira, nossos dirigentes comecem a pensar em fechar as escolas que não apresentam condições de oferecer uma boa formação antes de pensarem em abrir novas.

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