Melhoria na formação do advogado ajudará a reduzir reprovação no Exame de Ordem

O Liberal, 19.11.2006

A advogada Ângela Sales assumirá a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Pará (OAB-PA), no próximo ano com a tarefa de dar prosseguimento à administração de um grupo que está há pelo menos dois mandatos consecutivos no comando da entidade. Para ela, as urnas demonstram a satisfação com o trabalho, que deverá seguir a linha da ampliação do que foi feito pelo seu antecessor, como a interiorização da Ordem.

A meta é também centrar força na formação dos advogados e daqueles que lidam com o Direito para facilitar o trabalho advocatício. O bom relacionamento com as instituições ela demonstra ter. Atualmente, revela, a aproximação com o Tribunal de Justiça do Estado (TJE) renderá um projeto de lei para a redução das custas judiciais, pleito antigo dos profissionais. E a parceria com universidades tenta reverter o quadro da alta reprovação nos exames de Ordem.

Advogada formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a futura presidente da OAB tem uma carreira vinculada à entidade, da qual é vice-presidente, e à Justiça Eleitoral, tendo sido nomeada juíza pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para o período de 2005 a 2007.

A senhora afirma que a diferença de 30% dos votos confirma a aprovação da administração atual da OAB. A que atribui essa aprovação?

Jamais alguém, na Ordem, terá unanimidade. A Ordem será sempre uma obra inacabada. Ela não é uma coisa concreta, é uma obra moral, então, sempre teremos algo a aperfeiçoar. Mas o julgamento dos advogados, com essa diferença grande, demonstra que o trabalho que temos feito garante a dignidade e a democracia. O nosso objetivo é garantir que a Ordem seja intangível na sua imagem e respeitada acima de poderes, partidos, governantes. Afinal, ela é a grande mediadora da sociedade civil com o poder.

Como será a relação com o Judiciário?

Vamos continuar trabalhando de forma crítica, mas colaborativa com o Poder Judiciário, em todas as esferas: estadual, federal e trabalhista. Vamos continuar trabalhando no sentido de criticar, mas de propor soluções concretas. Continuar exigindo mais concursos para juízes, mais concurso para o Ministério Público, varas instaladas efetivamente funcionando. Isso é o mais importante. Agora mesmo vamos ter nova tabela de custas judiciárias com o projeto que está sendo encaminhado para a Assembléia Legistativa, num trabalho conjunto da Ordem com a Justiça. Vamos rever a forma de cobrança, reescalonar a tabela para que ela fique mais compatível e acessível. Na Justiça do Trabalho, vamos continuar exigindo as Varas Itinerantes. Vamos tentar uma vara descentralizada em Icoaraci e continuar postulando varas para as diversas comarcas de municípios-pólos. Em resumo, vamos continuar esse trabalho que instrumentaliza o advogado no dia-a-dia.

De que forma isso ajuda o advogado?

A maior estrutura do Poder Judiciário garante ao advogado resultado no seu trabalho porque nós somos, hoje, uma proporção de um advogado para 850 habitantes e de um juiz para cada 22 mil habitantes; significa que somos muito mais a pedir do que juízes a prestar jurisdição, a resolver problema. Então, quanto maior estrutura, mais se garante o pleno exercício da advocacia, com mais resultado, que é o que interessa: a justiça mais ágil.

O projeto encaminhado à Assembléia une OAB e Judiciário. A Ordem sempre criticou o Judiciário. Então, há uma aproximação hoje que deve ser mantida?

As críticas continuam, mas temos que reconhecer que o Judiciário melhorou muito na administração do doutor Milton Nobre (presidente do TJE), que, por coincidência ou não, é oriundo do quinto constitucional pela classe dos advogados. Nós temos um relacionamento firme, mas respeitoso, cujo objetivo é contribuir para o aperfeiçoamento do Poder Judiciário e Justiça do Trabalho. Temos tido bom relacionamento com o Luiz Albano, presidente do Tribunal do Trabalho, de crítica colaborativa. O mesmo com a Justiça Federal. Exigimos, mas mostramos o caminho dando sugestões concretas. Vamos continuar melhorando as salas dos advogados, instalando salas em todas as comarcas do interior e melhorando as da capital, porque esse é um ponto alto da nossa administração. Em 2001 tinhamos cerca de dez salas, hoje vamos para 67, a última instalada em Óbidos. É fundamental essa estrutura porque instrumentaliza o advogado, que tem onde trabalhar quando sai da capital para acompanhar processos no interior. Lá, nas salas, ele consulta internet, tem fax.

A ampliação é uma das metas de campanha, assim como a introdução de disciplina para prerrogativas do advogado nos cursos de Direito. Do que se trata?

Outro ponto fundamental é defender as prerrogativas, que é o direito não como pessoa, mas de representar alguém que precisa de um serviço público essencial, que é a Justiça. Para que esse papel seja exercido com independência, coragem e confiança, é preciso garantir as prerrogativas, que é uma espécie de salvaguarda para que ele possa defender sem constrangimentos ou impedimentos ao trabalho.

Então há advogados com pouco conhecimento dos seus direitos na profissão?

Não, ele tem conhecimento. Quem não tem são aqueles que saem da faculdade de Direito, não optam pela advocacia - optam por outros ramos do Direito, até serventuários da Justiça, delegados de Polícia, magistrados, membros do Ministério Público, autoridades que exercem cargos ligados ao Direito, mas não são advogados - e que, às vezes, não respeitam por não entenderem a importância dessas prerrogativas, que é justamente fazer do advogado o grande interlocutor da sociedade e da cidadania brasileira. A nossa proposta é produzir a importância das prerrogativas nos currículos normais, nos cursos de formação e nos preparativos para concurso voltado para pessoas que ingressarão em funções ligadas ao Direito. Que essas pessoas sejam conscientizadas da importância.

A senhora é favorável ao Exame de Ordem. Onde o desempenho tem sido baixo?

O índice de reprovação traduz a falta de qualidade do ensino jurídico. E o índice não é diferente do observado nos concursos para a magistratura, o que demonstra que o aluno ou bacharel em Direito sai da faculdade sem estar aparelhado para enfrentar o mercado de trabalho efetivamente, e isso é uma luta da Ordem. O exame deve servir como termômetro da qualidade dos cursos jurídicos e ele vai continuar sendo rigoroso. Sou a favor do rigor do exame porque o advogado aprovado no exame, com o rigor que ele tem, está seguro moralmente que está qualificado para enfrentar de igual para igual, porque não há subordinação entre magistrados, membros do MP e advogados. Ele não se sente inferior, sabe que é tão qualificado quanto. Esse é o ponto positivo. É digno da profissão.

Como reduzir a reprovação?

A Ordem tem o instrumento de incentivo, que é o 'OAB Recomenda'. Todas as faculdades de Direito têm o objetivo de alcançar a aprovação no exame. No Pará fomos pioneiros ao instalar um fórum de discussão do ensino jurídico com participação dos reitores, dos centros acadêmicos e membros da OAB. Se discute a qualidade, se propõem soluções e levamos aos reitores essas questões, com experiências de outras faculdades. Dá para resolver o problema, sim.

Com relação à imagem da OAB, qual será o perfil da Ordem na sua administração frente a assuntos como corrupção, comportamento do Executivo, da Justiça. Será mais incisiva?

A OAB jamais deixou de ser incisiva. Vai continuar sendo incisiva porque o papel da Ordem não é fiscalizar. É exigir que os órgãos que têm a competência para fiscalizar fiscalizem efetivamente, punam quando tem fundamento. A Ordem tem papel de ser o olhar, o ouvido e a boca do cidadão. Ela vê, ouve, mas ela localiza a crítica e exige soluções. A apuração de desvio de poder, a Ordem vai continuar exigindo que os órgãos que têm competência para apurar a denúncia e punir os envolvidos o façam sob pena de a Ordem ir para os jornais pressionar, ou ela mesmo adotar medidas judiciais contra aqueles que se omitem no dever.