DISPUTA
FOLCLÓRICA
Carlos Nina
Tribuna do Nordeste, São Luís - MA , 18/10/2005
Tudo indica que o presidente da OAB,
Roberto Busato, e o da República, Lula da Silva,
decidiram disputar o troféu dos discursos politicamente incorretos, para não
dar outro título talvez mais adequado a esse embate folclórico.
Os absurdos dos discursos do presidente
Lula já ganharam notoriedade. Os do presidente Busato
estão começando a ganhar agora, especialmente pela verborragia demagógica com
que tem cobrado de autoridades públicas e até desportivas aquilo que acontece
na OAB impunemente.
Para quem conhece a história da Ordem e tem
conhecimento das ocorrências de seu processo eleitoral, bem como da omissão e
até da conivência de suas lideranças diante de graves denúncias de corrupção e
até de fraude dentro da própria Instituição, os discursos do Presidente da OAB
não devem inspirar qualquer credibilidade.
Por último, o Presidente da Ordem, depois
de expressar seu preconceito contra a estatura física do ex-presidente da Câmara
dos Deputados, Severino Cavalcanti, a quem se referiu apontando-o como
“expressão física do mensalão”, merecendo justa
crítica de Mauro Santayana (jbonline.terra.com.br, 09/09/2005), verberou, agora, no melhor estilo Torquemada, e sentenciou: José Dirceu tem de ser cassado
porque, “Segundo ele (Busato), Dirceu já foi
‘definitivamente condenado pela opinião pública brasileira porque ele
representou toda essa podridão, esse porão, esse mar de lama que ocorreu no
Poder Executivo’" (site da OAB).
Ora, a Ordem dos Advogados do Brasil tem o
dever de defender a Constituição Federal e o Estado democrático de Direito. Em
ambos os casos é elementar a prevalência do devido processo legal, do
contraditório e da ampla defesa, princípios que são conhecidos popularmente e
não poderiam jamais ser ignorados por um advogado, com a agravante de ser o
representante de todos os advogados do Brasil. Mau
representante, aliás, pois, recentemente, cometeu uma agressão gratuita
exatamente contra um advogado inocente, o que explica o fato de, com seu
julgamento precipitado de José Dirceu, violar, também, o princípio
constitucional da inocência.
Contrariamente a esse posicionamento, o
mesmo Presidente da Ordem atacou o Presidente do Superior Tribunal de Justiça
Desportiva, acusando-o de ser o responsável pelo caos no futebol brasileiro,
por ter anulado os jogos viciados pela fraude de juízes de futebol.
Ou seja, no primeiro caso, o Presidente da
OAB quer José Dirceu cassado, sem direito às garantias constitucionais, porque
a população já o julgou e condenou. No segundo caso, julgou e condenou o
Presidente do STJD porque este tomou a decisão de anular os jogos
declaradamente fraudados.
Não surpreende essa posição contraditória do Presidente Busato
porque, já na Diretoria da OAB, tomou conhecimento de denúncia que levamos ao
Conselho Federal sobre esses julgamentos de exceção e nada fez, como no caso em
que o atual Presidente da OAB-MA declarou o advogado e então Conselheiro
Moreira Serra Júnior punido com advertência, sem que o advogado tenha cometido
qualquer falta, sem que tenha sido aberto contra ele qualquer processo, sem que
tenha tido a oportunidade de se defender.
O que a sociedade pode esperar de uma Instituição que está tomando esse rumo,
levada pelo desatino de seus dirigentes?