Destruindo um SONHO
Meu nome é Leonardo José Santana, sou “bacharel em direito”, “formei”
em dezembro de 2003 na Fadom, faculdade de Divinópolis-MG, tive uma
inscrição junto à OAB/MG sob o nº 644-E, que, devido ao tempo, já se
encontra suspensa. Não poderia deixar de estar enviando este pequeno relato,
sei que não vai mudar em nada, tendo em vista, ser eu um pequeno grão
de areia em tão enorme praia, mas era necessário.
Venho de uma família simples, do interior, mas uma família que sempre
teve garra e de filhos que sempre começaram a trabalhar cedo, eu comecei
com 10 anos, certo que era muito novo, por isso brincava de trabalhar,
mas já me achava importante, pois estava ao lado da uma pessoa pra uma
das mais importantes de minha vida, minha irmã e Madrinha, naquela
época ADVOGADA. Profissional de respeito e super disputada, atendia a
maioria das empresas da cidade, trabalhava na área de cobrança enpresarial.
Lá descobri o Direito.
Fiquei bastante tempo com ela, e nesse tempo sonhava em um dia ter um
pouquinho de sua capacidade e ser ADVOGADO, planejávamos de trabalharmos
juntos, eu ela e quem sabe meus sobrinhos, já nessa época inventava até
nome para o escritório, lógico, incluindo o meu.
Com o passar do tempo as coisas não ficaram muito boas para a área que
ela atuava, foi necessário fechar o escritório, e então, com essa mania
de trabalhar, como sempre não consegui ficar parado, fiz um pouco de
tudo, vendia picolé, trabalhei em oficina mecânica, vendia almofadas na
feira, vendi salgado e doces, costurei cortinas com minha, dentre outras
coisas.
Até que um dia fui chamado pra trabalhar num cartório de notas.
Recomeça meu trabalho com o Direito, era completamente apaixonado com
sucessões, adorava desventar as partinhas, mas como toda alegria dura pouco,
com os altos e baixos precisei me ausentar desta profissão, problemas...
Passado algum tempo, por coincidência, minha irmã, aquela que me
ensinou o que era o direito, passa num concurso do Estado e é chamada para o
cargo de Escrivã Judicial da 2ª Vara Cível de Divinópolis. Necessitando
de ajuda me procura, eu estava de férias de um outro trabalho, me
convida para trabalhar com ela, e eu, lógico, fui. No início ela me pagava,
até que os outros funcionários resolveram ajudar também, fiquei no
Fórum por quase 5 anos. Fazia de tudo, trabalhei desde as fichinhas que
controlavam os processos à implatação do Siscon, que foi uma loucura. Eu
que “ensinava” aos estagiários o que era processo e todos os seus
trâmites, desde uma inicial à sentença. Mas sempre sonhava em estar do outro
lado do balcão.
Quando entrei para o fórum, ainda fazia 2º grau, prestei vestibular e
passei. Foi a maior festa, ali começava um SONHO.
Com muito custo comecei meu curso, confesso que não era o melhor da
sala, mas me esforçava, e sempre apaixonado pelo Processo Civil.
Meu SONHO, já estava virando realidade, fui chamado para trabalhar num
dos maiores departamentos jurídicos de Divinópolis, disputado por
muitos, e eu estava lá. Me tratavam como se fosse advogado, mesmo sendo
apenas um Estagiário. Buscava sempre aprender com os mais antigos, e
aprendi. Passei a ser, agora, um apaixonado pelo Direito Imobiliário.
Me “formei”, aquele dia foi o melhor de todos, o mais perfeito, eu me
“formava” em Direito, realizava um SONHO. De agora em diante faltava
muito pouco para eu ser ADVOGADO, mas já me considerAVA um.
Até que veio o primeiro exame da ordem. Quando me deparei com aquela
prova, tive o maior susto. Pensei que tivesse feito outro curso, pois as
questões eram completamente diferentes daquilo que havia estudado, como
já esperado, não passei.
Tentei o ano todo, mas não deu, achava que o problema era a forma dos
meus estudos e resolvi mudar minha vida, e largar tudo. Desisti de meu
emprego, deixei a minha família e pessoas que amo, pra tentar me
esforçar mais e finalmente completar meu SONHO, me mudei pra Belo Horizonte.
Comecei um cursinho e vinha me dedicando, novamente tentei e tentei e
nada. Trabalho hoje em uma empresa e sou tratado como se ADVOGADO fosse,
mas sempre corrigindo as pessoas, “não sou advogado, sou apenas
bacharel em direito”. Ainda trabalho com área imobiliária, mas pensei que um
dia poderia ser ADVOGADO.
Lutei com todas as minhas forças, juro que lutei. Mas hoje às 17:00
horas tive uma triste notícia. Não passei novamente na OAB, estava com
esperança, porque a prova de dezembro te dá a chance de fazer uma peça,
uma prova subjetiva, onde vão avaliar se você tem competência para atuar
como ADVOGADO, mas infelizmente, não vão nem olhar minha prova. Fiz a
pior prova objetiva de todas as 4 anteriores, consegui apenas 30 pontos.
Eu precisava relatar isso que aconteceu comigo, como um desabafo. Pois,
me sinto hoje o pior dos piores, a vergonha da minha família, a
vergonha dos meus amigos, e vergonha de todos àqueles ADVOGADOS que um dia
foram meus estagiários, eu um dia eu lhes ensinei o que era ser um
ADVOGADO, e eu infelizmente não sou.
Essa foi a minha última tentativa, não tenho mais coragem de olhar para
os fiscais, não tenho mais coragem nem de voltar pra minha cidade,
talvez isso seja um teste de sobrevivência que Deus está fazendo comigo,
mas vou ser um tanto quanto covarde e pular do barco, não tenho mais
saúde pra passar por tudo isso novamente, não tenho ânimo.
Sei que estou destruindo um SONHO, vou ser criticado, mas, nunca pensei
que seria assim, infelizmente não somos nós que autorizamos a abertura
de tantos cursos de direito pelo país. Então, por que será nós temos
que pagar por isso? Se querem menos advogados, fechem um pouco de
faculdades. Não é justo isso, não é humano.
Talvez se uma criança pegar aquela prova objetiva pra fazer, poderá ela
ter mais sucesso que eu, que nunca fui bom em jogos. Mas se é assim que
se mede a capacidade de um profissional do direito, eu nunca me
tornarei um ADVOGADO. Sei que o mérito é todo meu, mas muito obrigado pela pequena participação na destruição de um SONHO.
Atenciosamente,
Leonardo Santana
Belo Horizonte, 19 de dezembro de 2005.
A ORDEM DOS ADVOGADOS está errada. A Constituição Federal deveria ser respeitada.
Não desista, LEONARDO.
O mais importante é o modo como as vitórias são conseguidas, com ética, sem trapaças e sem baixarias.
Ou seja: mais vale uma derrota, em face das injustiças, do que uma vitória obtida através de subornos ou baixarias.
Leia Miguel de Unamuno e Cervantes - Dom Quixote.
Pode ter certeza de que você já é um advogado, talvez melhor do que a maioria dos Conselheiros da OAB, que têm a coragem de aceitar toda essa baixaria do exame e que, aliás, talvez nem fossem capazes de obter aprovação no mesmo. O próprio Presidente da OAB, em recente entrevista, confessou que não seria capaz de passar nesse exame.
PS: nem tudo que deveria ser dito pode ser publicado, como você sabe!!!
Disponha. Um grande abraço do
Fernando Lima