Defensoria Pública de SP
corre risco de já nascer enfraquecida
Caso a
pressão que vem sendo feita sobre os deputados paulistas surta efeito,
advogados e orientadores trabalhistas não concursados poderão se transformar
automaticamente em defensores públicos. Além de inconstitucional, decisão
comprometeria a qualidade do atendimento à população carente.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO PAULO – Quando, há
poucos meses, o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou a lei
que criou a Defensoria Pública no estado, vetou um dispositivo que permitia a
orientadores trabalhistas e advogados da Funap se tornarem defensores
públicos sem
a realização de concurso público. A Funap (Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro
Pimentel de Amparo ao Preso) presta assistência judiciária a presos, egressos e
seus familiares, e funciona através de um Convênio com a Procuradoria Geral do
Estado (PGE). Também desenvolve programas de educação e geração de renda para
ex-detentos. Sem o veto do governador, os 220 advogados da Fundação e
orientadores trabalhistas passariam a ter o status de servidores públicos
estatutários – além de receberam um reajuste de salário de cerca de 260% –, ao
lado dos 87 procuradores do Estado que antes trabalhavam na Procuradoria de
Assistência Judiciária (PAJ) e optaram pela carreira de defensor público. Pela
lei aprovada, por já serem concursados, aos procuradores foi permitida uma
transferência automática para os 400 cargos criados.
A razão do governo de São Paulo para o veto a tal dispositivo se baseia em dois
argumentos. O primeiro, de que os advogados da Funap não possuem concurso
público, o que faria da sua transferência automática para a carreira de defensores
uma medida inconstitucional. O segundo, de que a área da atuação da Funap não
atinge a amplitude das tarefas exigidas pela Defensoria Pública. Hoje, a PAJ
atua nas áreas criminal, de execução penal, infância e juventude, família,
cível, tributário e consumidor.
Nas últimas semanas, diante da possibilidade de derrubada do veto do governador
a pedido da Funap, os corredores da Assembléia Legislativa passaram a ser
ocupados, quase que diariamente, por defensores e críticos da configuração da lei
aprovada. Pressionando fortemente os deputados e o colégio de líderes da
Assembléia estão, de um lado, os antigos procuradores de Estado e agora defensores
públicos, e, de outro, os advogados da Funap e orientadores trabalhistas. Com
as bancadas rachadas, a situação é incerta. O PSDB, obviamente, mantém o veto
do governador – apoiado desta vez por diversos movimentos sociais que
batalharam pela criação da Defensoria Pública em São Paulo. Ao seu lado está o
PDT. PT e PCdoB, que em princípio defenderam a Fundação, estão mudando de
opinião e podem votar pela manutenção do veto agora. Mas como nenhuma das maiores
bancadas (tucanos e petistas) está completamente fechada, há uma série de
pequenos partidos que podem decidir a questão, já que não foi possível chegar a
um acordo de líderes. Para derrubar o veto, é preciso o voto da maioria
absoluta dos 94 deputados. Nesta quarta-feira (03), mais uma vez a ameaça de
entrada na pauta do pedido de derrubada do veto não se concretizou.
Na opinião da recém-fundada
Associação Paulista dos Defensores Públicos (Apadep), a entrada dos advogados da Funap e
orientadores trabalhistas sem prévio concurso na nova carreria
pode causar uma grave crise institucional na Defensoria de São Paulo, sobretudo
em função da não habilitação desses profissionais para as demais áreas – os
funcionários da Funap seriam escolhidos por meio de um processo seletivo
interno, focado somente no direito penal relacionado à questão penitenciária.
Além disso, o próprio serviço público da assistência judiciária correria o
risco de ser interrompido, antes mesmo a Defensoria se consolidar, em função de
um possível cancelamento do concurso já marcado para as vagas não
preenchidas pelos procuradores. Cerca de 10 mil pessoas já teriam se
matriculado em cursos preparatórios para disputar o concurso para a Defensoria
Pública. Há quem argumente ainda que, se o veto de Alckmin for derrubado, a
emenda que entrará em vigor pode abrir caminho para que outros profissionais
também não concursados passem a pleitear os mesmos benefícios dos advogados da
Funap.
Na semana passada a
Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep) e o Conselho Nacional dos Defensores
Públicos Gerais (Condege) entraram na briga e encaminharam ofícios aos
deputados paulistas apoiando a manutenção do veto. Para a Anadep, a derrubada
do veto fará com que a “recém criada Defensoria Pública do Estado de São Paulo
passe a ter seus cargos majoritariamente preenchidos por profissionais que não
atendem aos requisitos necessários para o adequado desempenho da função de Defensores
Públicos”.
“Os orientadores
trabalhistas são oriundos da Secretaria de Relações do Trabalho e não atuam
judicialmente, fazem apenas atendimentos de orientação na área de Direito do
Trabalho, matéria que sequer é de competência da Defensoria Pública Estadual.
Vale dizer, não atuam em área em nada semelhante às funções dos Defensores
Públicos”, diz a carta da Associação dos Defensores Públicos enviada aos
parlamentares. “A população carente de São Paulo merece uma Defensoria Pública
forte e eficiente, não se podendo atender a uma categoria em detrimento da
qualidade do serviço prestado a toda à população, que há mais de 15 anos
aguardava a criação da Defensoria Pública”. A Pastoral Carcerária também
encaminhou um ofício aos deputados com o posicionamento de parte da sociedade
civil contra a derrubada do veto.
O
OUTRO LADO
No córner oposto da luta, a
Funap afirma que os argumentos usados por quem defende o veto não correspondem
à realidade. Segundo a Fundação, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que
transformações, enquadramentos, transposições ou outras situações semelhantes
adotadas para enquadrar os servidores em leis que reestruturam ou criam
carreiras são constitucionais e possíveis, desde que as atribuições sejam
semelhantes e que os servidores tenham prestado concurso.
“Os advogados da Funap,
desde 1983, oferecem assistência judiciária para presos, egressos
(ex-presidiários) e seus familiares quando os mesmos não têm condições de arcar
com esses serviços. Todas essas atribuições são intimamente ligadas aos
objetivos da nova Defensoria Pública. Outro dado extremamente relevante é que
todos advogados da Funap que pleiteiam o direito de ingresso na nova Defensoria
Pública através da opção ou realizaram concurso público de provas e títulos
- prova que obedece a princípios constittucionais da legalidade, impessoalidade,
publicidade e moralidade - ou já exerciam a função antes da instalação da
Assembléia Nacional Constituinte de fevereiro de 1987, tendo este direito
garantido por Lei”, diz um documento distribuído pela entidade.
A Fundação alega que, apesar de atualmente os advogados terem sua atuação
ligada à prestação de serviços judiciários a presos e egressos, todos os
profissionais têm formação completa em Direito, e que sua capacidade técnica de
exercer a função de defensor público em sua plenitude estaria, portanto,
assegurada.
"Impedir o direito de opção à Defensoria Pública do Estado de São Paulo,
dentro deste cenário, caracteriza uma violação frontal ao princípio da
isonomia", afirma Fausto Bittar Filho, presidente da Asaf, associação que
representa os direitos dos advogados da Funap. Bittar lembra que, em outros
estados que criaram Defensorias Públicas, os antigos profissionais que
prestavam assistência judiciária tiveram garantido o direito de integrar o novo
órgão. "Além disso, o ingresso dos advogados da Funap na Defensoria Pública
do Estado será benéfico à população, uma vez que esses profissionais possuem
ampla experiência na função, alguns com mais de 20 anos de serviços
prestados", completa.
Os advogados da Funap contam com o apoio da OAB/SP, que emitiu recentemente uma
moção de apoio à derrubada do veto.
ÓRGÃO EM CONSTRUÇÃO
A lei complementar que criou a Defensoria Pública de São Paulo passou a vigorar
oficialmente no dia 10 de janeiro deste ano, preenchendo uma lacuna de mais de
16 anos de inconstitucionalidade do estado, que não cumpria a exigência do
artigo 134 da Constituição do Brasil. À exceção de Santa Catarina, todos os
Estados já criaram sua Defensoria Pública. A lei pode ser considerada a mais
moderna de todo o país, pois estabelece que a Defensoria de São Paulo terá
autonomia administrativa e financeira, assim como um Conselho Superior, que
contará com a participação ativa da sociedade civil.
O novo órgão, além de garantir o atendimento jurídico em todas as áreas à
população carente – efetivando o direito de acesso à Justiça da população –
resolve uma grave contradição conseqüente do atendimento à população ser
prestado pela Procuradoria de Assistência Judiciária, um órgão do Estado:
agora, os Procuradores do Estado não correm mais o risco de trabalharem como advogados
de pessoas que, muitas vezes, processaram o próprio Estado, eliminando assim um
sério conflito de interesses.
Nesta terça-feira, os 87 defensores públicos já designados votaram na
eleição de Defensor Público Geral. A lista tríplice, que deve ser entregue em
breve ao governador, é composta por Vitore Zílio Maximiliano (que obteve 81,3%
dos votos), Pedro Giberti (10,3%) e Cristina Guelfi Gonçalves (9,4%). Quinze
dias após a entrega da relação o novo Defensor deve ser nomeado.
Para saber mais sobre a Defensoria Pública de São Paulo, visite a página www.defensoria.sp.gov.br