DAMÁSIO DE
JESUS
Muito bem, ouvintes da Rádio Justiça, nós temos agora o prazer de
anunciar a participação no nosso programa do Presidente do Complexo Jurídico
Damásio de Jesus, ele que é promotor de justiça aposentado e entre diversas
atividades que desempenha tem atuação na ONU, é membro do Conselho Jurídico da
Fiesp, também é autor de inúmeras obras na área penal e processual penal e está
neste momento falando conosco diretamente do Estado de São Paulo. Professor
Damásio de Jesus, tudo bem com o senhor?
Tudo bem, e
vocês Andréa, também?
Tudo ótimo, eu agradeço, para nós é uma grande honra
tê-lo participando conosco aqui da Rádio Justiça, neste momento falando para
todo o Brasil, está certo? Pois não, eu queria saber como é que o senhor vê o
Exame de Ordem, professor? O senhor é favorável a esse Exame?
Veja bem. Eu
acredito que a questão é muito superior a afirmar sim ou não ao Exame de Ordem.
Andréa, nós temos hoje uma faculdade de Direito e a intenção minha, nesta fase
da vida, em ter uma faculdade de Direito foi a de demonstrar a possibilidade de
ter uma faculdade de alto nível e para isso nós fizemos uma pesquisa de campo,
para conhecer como andam as faculdades, como andam os alunos, e os alunos que
saem das faculdades, como é que eles se comportam, na sua atuação, seja como
simples advogado, promotor, juiz ou outra atividade. E além
disso eu fui professor de faculdade de Direito durante muitos e muitos
anos e continuo com o meu curso preparatório, aqui em São Paulo, tendo uma
lida, uma relação diária com os alunos, nesse sentido de ensino.
Então, não se
pode dizer que a minha experiência seja muito grande, mas é suficiente para
dizer o seguinte: o Exame da Ordem é, hoje, uma necessidade. E por que? Porque
alguém poderá dizer: bom, se tem o Exame de Ordem, por que não haveria também
um exame para engenheiros, para médicos, mas acontece o seguinte, que o número
de faculdades de Direito hoje no Brasil é centenas de vezes maior do que o
número de faculdades de outras disciplinas e o que nós temos verificado nos
alunos que nos chegam na faculdade e no curso preparatório, e isso há dezenas
de anos, é o seguinte: os alunos, nas fases anteriores da sua educação, eles
não vêm preparados de maneira alguma. Nós costumamos notar e dizer que o aluno
ele vai ser alfabetizado no curso preparatório, ou na faculdade de Direito. Eu
tenho inúmeros casos, Andréa, durante todos esses anos de curso preparatório,
de candidatos que, advogados, querem ser juízes ou promotores, mas eles não
sabem escrever. Quer dizer: eles passaram inclusive pela faculdade de Direito
sem saber escrever e muitos são os casos que eu tive em que excelentes alunos,
que tinham conhecimento profundo no sentido técnico, não passavam nas provas. E
eles vinham me perguntar: professor, eu já fiz várias vezes o concurso para
promotor e não passo da prova escrita. Eu respondo tudo certo. O senhor poderia
ver o que é que está acontecendo? E como eu era Procurador de Justiça, Promotor
de Justiça, eu perguntava aos examinadores: poderia me dizer o que está acontecendo
com o candidato tal? E eles me diziam: é, Damásio, do ponto de vista técnico,
ele não errou nada, mas ele não sabe escrever. E eles diziam: como é que nós
vamos mandar esse menino para a Comarca, para razões, para a apelação, para um
pedido de arquivamento de inquérito policial.
Andréa, eu
acredito que o mal de tudo isto está não só na origem, mas também no
desenvolvimento da educação do brasileiro, porque enquanto em outros países, um
professor, que eles chamam lá fora de professor preliminar e nós chamamos aqui
de professor de primeiro grau, lá fora esses professores são prestigiados. No
Japão, por exemplo, o funcionário público mais importante para a comunidade é o
professor daqueles cursos mais inferiores, quando o menino sai da sua casa e vai
aprender as primeiras letras, o que não acontece aqui no Brasil hoje. Nós temos
professoras recebendo, em alguns Estados brasileiros, um real por dia e mesmo
nos Estados brasileiros mais importantes, não se dá uma consideração devida ao
professor. Tanto é que antigamente o professor era uma das autoridades das
cidades e hoje ele é desprestigiado. E esse professor que inicia o aluno nas
primeiras letras, não sendo prestigiado, ele não tem nenhuma motivação para
fazer com que o curso do aluno seja algo produtivo. E isso acontece nas fases
posteriores da educação. De maneira que o estudante nosso, antes de entrar na
faculdade de Direito, nas fases anteriores, ele não é um bom aluno, ele não
sabe escrever bem, e veja bem, mesmo naqueles casos, Andréa, em que você
verifica que o aluno é muito bom em física, em química, em matemática, mas em
português ele não é bom, e há determinadas atividades que dependem disso, como,
por exemplo, a advocacia.
Então, não se
pode, creio eu, colocar qualquer culpa, qualquer dever não cumprido, à OAB, ou
simplesmente às faculdades de Direito, mas todos nós somos culpados, porque
veja bem: eu coloco no meu curso preparatório um português forense. Não é
simplesmente português, porque eu estaria dizendo que o aluno não sabe português,
mas eu disfarço, dizendo português forense, porque sempre eu soube que o que
mais reprova nos concursos da magistratura, ministério público, delegado de
polícia, procuradoria do estado, procuradoria da república, não é matéria
determinada jurídica, não é direito penal, não é processo civil, é a redação.
Então, o maior número daqueles alunos que não são aprovados nos concursos da
área jurídica é porque não sabem escrever. Agora, quanto à pergunta inicial, o
que eu penso do Exame da OAB, eu creio que é necessário, exatamente por causa
do momento em que nós estamos atravessando, em que o Brasil tem centenas e
centenas de faculdade de Direito, enquanto alguns países, que são o nascedouro
do Direito não têm nem uma centena.
Agora, aqui nós já ouvimos opiniões a favor e contra,
e um dos argumentos que se diz contra o Exame de Ordem fala que na verdade esse
Exame privilegia muito mais a memorização do que a análise crítica, a
capacidade interpretativa do aluno. O senhor concorda com isso? Quer dizer, eu
não sei se o senhor acompanha, com certeza o seu curso rotineiramente deve vir
acompanhando esses Exames, o senhor acredita que é, ele privilegia muito mais a
memorização do que essa capacidade de raciocínio?
Não acredito,
não acredito nisso. Veja bem, eu acompanho, porque nós temos um curso preparatório
para a OAB também e eu convivo com alunos da OAB e professores da OAB e mesmo
os alunos que não são aprovados, eventualmente, em um primeiro Exame da OAB, eu
converso com eles a respeito de por que é que não passou, o que é que
aconteceu, então,
nós temos experiência a respeito disso. Agora, não vemos isso, a aprovação ou
reprovação, como um problema de memorização. Só passariam 3% ou 10%, são
aqueles que memorizam. Não, não vem ao caso, porque se fosse assim, nós
estaríamos dizendo então que 90%, desses milhares de candidatos que não são
aprovados, que eles estão desmemoriados. Não creio que seja isso.
Entendo. O Professor Damásio de Jesus, fala conosco
direto de São Paulo, falando conosco sobre o Exame de Ordem, vai conversar
agora com Pedro Beltrão, que está ao meu lado, aqui em Brasília, nos estúdios
da Rádio Justiça.
Professor Damásio de Jesus, tudo bem?
Tudo bem, Pedro.
Quero dizer que é uma honra tê-lo aqui conosco na
Rádio Justiça.
Ótimo, para mim também.
Professor, eu gostaria de saber, com relação a esse
assunto, primeiro uma pergunta que deve estar na cabeça de muitos e eu gostaria
de fazer neste momento: será que o professor Damásio está defendendo até o
próprio Exame de Ordem porque ele tem um curso preparatório? Eu gostaria que o
senhor esclarecesse isso aos nossos ouvintes.
Ah, pois não. Veja
bem: jamais passou pela minha cabeça, nem numa previsibilidade muito longínqua,
em ser a favor ou contra o Exame de Ordem porque eu tenho um curso preparatório,
uma vez que eu também tenho outros cursos e o Exame de Ordem nós temos há pouco
tempo. Nós temos o Exame de Ordem somente há quatro anos e o curso preparatório
eu tenho há dezenas de anos e há dezenas de anos que eu venho falando a
respeito da exigência de que nós não tenhamos advogados em condições de atuar
em processos sem nenhuma condição. Então, nós conhecemos em Direito Penal a
intenção, o dolo, a consciência, e conhecemos também a culpa e conhecemos
aquele em relação ao qual jamais passou determinada idéia. Assim, defender o
Exame da OAB porque eu tenho um curso preparatório, ah, isso faria com que eu
me negasse a falar com você a respeito de OAB, se isso ocorresse comigo.
Está certo, professor. Agora, professor, muito se
questiona também se seria competência da Ordem fazer esse Exame ou se deveria o
MEC mesmo fiscalizar as faculdades, os cursos de Direito. Será que seria
responsabilidade do próprio poder público, e não da OAB, examinar a qualidade
dos cursos jurídicos?
Eu creio que
seria inaproveitável, não seria possível de ser realizado, fiscalização pelo
próprio Governo, no terreno do Direito, quer dizer, termos um exame em que os
examinadores fossem funcionários públicos, do MEC ou de qualquer outro
Ministério. Eu creio que a OAB, e eu conheço a OAB,
seja federal, seja a estadual, seja a municipal, e acredito, e sou advogado
também, e não estou defendendo porque sou advogado, mas porque eu sou sincero e
objetivo e creio que o trabalho da OAB é eficiente, nesse sentido. O que a OAB
está fazendo neste momento é importante para o País, importante para a
coletividade. Por que? Porque está impedindo que atuem nos foros profissionais
sem qualidade.
Está certo. Professor Damásio, após a Emenda 45, nós
sabemos que surgiu na nossa lei a exigência de três anos, no mínimo, de
atividade jurídica, para os cargos de magistrado e também do Ministério
Público. Agora, o bacharel em Direito, aquele que se forma, ele ainda possui
algum tipo de mercado, ou ele vai ter que se submeter a um Exame de Ordem, ou
fazer um concurso jurídico?
Veja bem, o
curso de Direito, ele oferece um leque, ao contrário da medicina, por exemplo,
o sujeito faz um curso de medicina, ele sai médico, só. O curso de Direito não.
Enquanto o médico, na medicina, ele pode ser médico de estômago ou médico de
cabeça, o bacharel em Direito ele tem um leque múltiplo, porque ele pode
trabalhar exatamente como advogado ou fora da advocacia. Então, o sujeito sai
da faculdade de direito e ele pode ser um juiz, um promotor, um delegado, um
procurador, mas ele pode ser Presidente da uma entidade jurídica. Ele pode
trabalhar em tantas e tantas coisas, pode ser embaixador, aqui ou em outro
lugar. Então, o leque é muito maior. Então, eu acredito que a profissão é
fantástica, ela permite uma escolha de atividades e em alguns casos, inclusive,
Pedro, torna-se difícil para o aluno, que está na Faculdade, escolher com
antecedência o que ele vai ser no futuro, uma vez que eu recomendo que o aluno,
desde o primeiro ano, já pesquise as suas tendências, para que o aluno, durante
o curso, ele se aprofunde muito mais naquelas disciplinas que exigem, no
futuro, o seu conhecimento.
Está certo. Uma última pergunta, Dr. Damásio, eu
gostaria de saber se o Exame atual ele é um bom exame, se precisa ser
aperfeiçoado, precisa ser modificado, o exame que é feito pela Ordem?
Veja bem, Pedro,
nós nunca podemos dizer que alguma coisa está perfeita e não precisa de
alteração. Evidentemente que precisa de alteração o Exame de Ordem, como também
o exame do Ministério Público, da Promotoria, de qualquer coisa. E exatamente o
Exame de Ordem ele deve ser muito apropriado, muito bem feito, porque o número
de bacharéis é enorme. São Paulo deve ter uns 300 mil bacharéis hoje e o número
de faculdades em nosso Estado é muito grande e no Brasil também é muito grande,
de maneira que nós não podemos fazer com que o advogado ele possa exercer a
profissão sem que tenha passado por exames rigorosos.
Está ótimo então. O Presidente do Complexo Jurídico
Damásio de Jesus, promotor de Justiça aposentado, entre diversas atividades
atua na ONU, é também membro do Conselho Jurídico da FIESP, autor de várias
obras, inúmeras obras jurídicas, principalmente na área penal e processo penal,
Dr. Damásio de Jesus, gostaríamos de agradecer a participação aqui conosco, na
Rádio Justiça.
Eu é que
agradeço a possibilidade de falar com vocês.
Muito obrigado, Dr. Damásio, um abraço e um bom
trabalho.