Corrupção é mal que não tem cura

27.08.2006

A corrupção vem de berço, consolida-se na personalidade da criança até os 8 anos e, uma vez manifestada, não tem cura. O polêmico diagnóstico é do médico e psicoterapeuta do Hospital das Clínicas de São Paulo João Augusto Figueiró, para quem não existe corrupto arrependido. 'Ele pode até se arrepender, mas se tiver condições de trapacear novamente, não vai pensar duas vezes', diz. Figueiró afirma que o corrupto não tem qualquer doença, mas um desvio de comportamento que só o permite crescer na vida trapaceando. E mais: não sente qualquer remorso. Figueiró só vê uma saída para o problema: educação. A seguir, a entrevista que ele concedeu ao repórter Alan Gripp e publicada no jornal 'O Globo' de domingo passado, 20 de agosto.

 Como nasce um corrupto?

 Considerando que o núcleo da constituição ética e moral de im indivíduo se estabelece nos primeiros oito anos de vida, ele (o corrupto) nasce ainda criança. Não quer dizer que isso seja imutável, mas com certeza esse período é decisivo. É importante dizer que o corrupto não apresenta uma doença ou um transtorno. Trata-se de um comportamento corrupto. Sob ponto de vista da psicologia, ele não é uma pessoa normal. Mas não está classificado dentro das doenças mentais, isso seria um atenuante para ele.

O que o leva a desenvolver o comportamento corrupto?

 O comportamento transgressor tem uma contribuição mais importante dos fatores ambientais, familiares e culturais do que propriamente de fatores genéticos ou hereditários. Mas é evidente que o comportamento trapaceiro pode ser observado em todas as espécies animais e é inclusive um fator de seleção natural. Um animal que não trapaceia com os seus predadores tem probabilidade alta de extinção. O ser humano, pelo seu potencial de malignidade, também. Se ele não internalizar valores éticos, morais e legais para a sua cultura o mais cedo possível, tem probabilidade muito alta de ter um comportamento corrupto.

 A corrupção tem cura?

 A priori, o comportamento corrupto é incurável. O indivíduo que tem essa personalidade transgressora no pior sentido vai manifestá-la sempre que tiver oportunidade. Por isso, a única forma de contê-la é utilizar controles externos. No caso do político, por exemplo, o mais eficaz é privá-lo do direito de se candidatar. Nos Estados Unidos, os candidatos a vagas na Polícia são avaliados para se descobrir se ele manifesta esse comportamento, mesmo sendo difícil discriminar quem pode ser corrompido ou não. Porque o corrupto é, por natureza, um trapaceiro.

 Então não há chance de existir um corrupto arrependido?

 De um modo geral, eu diria que não. O corrupto se arrepende quando é flagrado ou punido, ou privado de algum tipo de benefício. Mas se ele tiver condições de trapacear novamente, não vai pensar duas vezes.

 Qual o perfil do corrupto?

 Geralmente são sedutores, bem-falantes, arrogantes, menos sensíveis ao sofrimento dos demais, egocêntricos, egoístas, histriônicos, teatrais, instáveis e oscilam do amor ao ódio de acordo com as circunstâncias que os gratifiquem ou frustrem. São trapaceiros nas pequenas e grandes coisas de sua vida, com baixa tolerância à frustração, gostam do atalho e utilizam a esperteza para satisfazer seus desejos.

 Um corrupto então jamais toleraria um trabalho normal...

 Ele fracassa em se conformar com as normas sociais; não aceitaria nunca ter um trabalho comum e ter que esperar virar o mês para receber um salário. Ele repetidamente pratica atos considerados como ilegais, tem propensão para enganar e mente compulsivamente. Sente prazer em ludibriar o outro. Enfim, utiliza quase sempre a chamada Lei de Gérson.

 O corrupto tem noção de que está praticando um ato ilícito ou já considera tudo normal?

Tem noção, sim. Mas apresenta uma indiferença ou racionaliza, apresentando sempre uma explicação para validar o seu ato: 'Eu ajo assim porque todo mundo faz ou o meu partido faz assim porque todos fazem'. Isso é para que ele se isente perante si mesmo.

 Todos possuímos este transtorno em algum grau?

 A experiência empírica mostra que não. Mostra que existem cidadãos que funcionam dentro de molduras éticas e morais preconizadas pela sociedade em que vivem. Mas estes indivíduos foram educados neste sentido, identificaram-se com comportamento éticos na família, na escola, na comunidade, na sociedade e na cultura, introjetaram estes valores e aprenderam a valorizá-los acima da auto-satisfação a qualquer preço.

 Uma pessoa que acha normal roubar um talher no restaurante sofreria do mesmo transtorno em grau menor?

Essa pessoa não deixa de ter comportamento transgressor, permissivo. Tem a característica de ser egocentrada. Há uma piada que diz que ela avança em termos de corrupção até onde vai a garantia do seu anonimato. Se aquele comportamento não for revelado, o indivíduo é capaz de fazer coisas maiores e maiores.

 A incidência deste comportamento é maior entre políticos e policiais?

 Aparentemente sim. A pessoa com esse comportamento tende a procurar essas profissões. O indivíduo que tende a se corromper tem a capacidade diminuída de conseguir seus benefícios com esforço, rotina. Ele busca atalhos e isso o leva a ocupações nos quais esse comportamento possa se manifestar livremente. A política e a polícia são instituições que dão autoridade, nas quais uma pessoa pode se sobrepor a outra. O abuso da autoridade é facilitado e ela tem acesso direto ao dinheiro com pouco controle. O indivíduo corrupto que for trabalhar num banco será flagrado. Não sobreviveria num trabalho normal.

 Qual o caminho para evitar novas gerações de corruptos?

 Educação. Mas num sentido muito mais amplo possível, que inclui o minuto a minuto em contato com a sociedade à volta. E nesse aspecto o Brasil é um mau exemplo. Temos uma cultura excessivamente permissiva e transgressora.