Constituinte exclusiva é “golpe” e “inviável”, dizem
especialistas
A
convocação de uma Assembléia Constituinte
exclusiva para fazer
uma reforma política no Brasil seria “inconstitucional”, “um golpe” e
“inviável”. É o que dizem especialistas, entre advogados e juristas, ouvidos
por Última Instância sobre o assunto. A idéia fez parte de encontro
nesta quarta-feira (02.08.2006) entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e
uma comissão de juristas e ex-presidentes da OAB (Ordem dos Advogados do
Brasil).
Segundo informações da OAB, o presidente Lula teria aceitado apresentar uma PEC
(Proposta de Emenda Constitucional) desde que houvesse um movimento em toda a
sociedade encabeçado pela OAB, após o período eleitoral. A assessoria do
Ministério das Relações Institucionais negou que a idéia tenha partido de Lula,
mas confirmou a disposição do presidente em apoiar a iniciativa se houver
sustentação popular.
A realização da Constituinte
exclusiva
aconteceria a partir da aprovação de uma PEC convocando a Assembléia Constituinte, que ficaria
responsável por promover modificações no sistema político brasileiro. A
utilização da PEC é questionada pelos especialistas ouvidos por Última
Instância —Dalmo Dallari, Roberto B. Dias da Silva e Rubens Approbato Machado. Apenas Ives Gandra
Martins apóia a idéia, mas considera “inviável” colocá-la em prática com a
atual classe de políticos.
A PEC alteraria o modo como mudanças na Constituição são aprovadas. Atualmente,
são necessários três quintos dos votos na Câmara e três quintos no Senado para
mudar a Constituição.
Inconstitucional
O jurista Dalmo Dallari afirma que a hipótese é “inadmissível”, pois “o sistema
de emendas é cláusula pétrea” —artigos da Constituição que não podem ser
mudados. “A PEC não deve sequer ser apreciada”, defendeu. Dallari protesta
contra a idéia e diz que, caso a PEC seja aprovada pelo Legislativo, vai
“entrar no Supremo [Tribunal Federal, STF] para que seja declarada sua
inconstitucionalidade”.
Professor de direito constitucional da PUC-SP, Roberto B. Dias da Silva afirma
que a idéia é “juridicamente inviável”. Ele destaca que existem duas maneiras
para que a Constituição possa ser alterada. A primeira delas seria a convocação
de uma Assembléia Nacional Constituinte,
que teria o intuito de confeccionar uma nova Constituição. A outra, é o atual
sistema em que emendas com propostas de alteração são apresentadas e necessitam
de aprovação nas duas Casas que compõem o Congresso Nacional —Câmara dos
Deputados e Senado Federal.
Uma PEC como a que foi levantada nesta quarta-feira teria o objetivo de
facilitar a aprovação de emendas específicas na reforma constitucional, “mas
seria inviável, porque a emenda alteraria a Constituição de uma maneira que não
é prevista na lei”, defende. “A emenda não tem poder para modificar
Constituição, em sua forma de aprovação de alterações na própria Constituição”,
avalia.
Ex-presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Rubens Approbato Machado considerou um “golpe” tentar mudar o
sistema político por meio de uma Constituinte
exclusiva. Para ele,
qualquer Constituinte
só pode ser justificada em momentos de ruptura de regime, “como aconteceu em
1946, do Estado Novo para o regime democrático; em 1967, quando os militares
iniciaram um novo regime, totalitário; e em 1988, na volta para a democracia”.
“Uma Assembléia Constituinte é, na verdade, para quando ocorre
uma ruptura no sistema vigente. Não havendo golpe, revolução, faz-se as
alterações constitucionais através de emendas”, afirmou. “Assembléia Constituinte agora é golpe.
Para fazer uma nova Constituição, não é esse o caminho. A situação em que
vivemos não comporta essa possibilidade", conclui.
Opinião dissonante
Único dos juristas a discordar sobre o assunto, Ives Gandra
Martins, embora considere a idéia difícil de ser implementada, disse não só
apoiar a realização de uma Assembléia Constituinte exclusiva
para reformar o sistema político brasileiro, como também afirmou que defende a
idéia desde 1962. “Sou inteiramente favorável”, afirmou.
Ele sustenta que a Constituinte
exclusiva deva ser
convocada por meio de emenda constitucional, e que os eleitos não podem seguir
carreira política, voltando-se exclusivamente para a confecção de um novo marco
legal para o sistema político. “Quantos não concorreriam a deputado, senador, etc? Brasileiros de bom nível, porque sabem que depois de
ter contribuído para reformar o sistema político, voltariam às suas atividades
normais”, afirma.
No entanto, Gandra Martins vê como quase impossível a
idéia vingar no Brasil, porque seu resultado alteraria a atual distribuição de
poder, reduzindo a fatia que os atuais políticos possuem. Como a idéia deve
partir da atual classe política, o jurista considera “muito difícil” que possa
vingar. “Nenhum político que quer se manter no poder dará apoio a uma constituinte exclusiva, porque nenhum
deles quer deixar o poder”, avalia.
Para Gandra Martins, seria necessário também convocar
um plebiscito ou referendo sobre a realização de uma Constituinte exclusiva, para garantir a legitimidade do
processo. “Faz-se um plebiscito sobre o apoio a uma Constituinte Exclusiva. Afinal, quem é o detentor do Poder Constituinte? É o povo. Se o
povo disser em um plebiscito que quer uma Constituinte exclusiva, não há quem possa questionar isso”,
diz.