C a
ro a m i g o
. . . . . . ,
CARLOS
NINA
Muito bom este texto do Dr. Carlos Nina. Esclarece
qual é a OAB que nós criticamos. Nós não estamos contra a OAB, mas apenas
contra alguns erros de alguns de seus dirigentes...
Você está correto quanto à sua observação. É uma
correção bem vinda. É um cuidado que eu procuro ter, mas que, ao lidar
diariamente com essas situações, acaba-se por descuidar na linguagem. Por isso
o jornalismo noticioso ou opinativo também comete essa generalização injusta
que você se refere e diz o “O Brasil...”, mas nem todos os brasileiros são...;
“A Polícia...”, mas nem todos os policiais são...; “O Judiciário...”, mas nem
todos os magistrados são...; “O Ministério Público...”, mas nem todos os seus
membros são...; “A imprensa...”, mas nem todos os jornalistas são...; “Os
advogados...” , “A classe dos advogados...”, “Os
médicos...”, “A classe dos médicos...”, mas nem todos os médicos e advogados
são....
Essa generalização é usada nos discursos, dos meios
acadêmicos aos palanques de rua.
Isso não a torna correta, nem legítima. Você continua
correto em sua crítica, que recebo e agradeço, porque, como disse prefiro as
críticas, que me dão a oportunidade de corrigir-me, do que os elogios, que
podem consolidar equívocos.
No que diz respeito a minhas críticas à Ordem, quem as
leu todas ou ao meu livro, há de perceber que fiz questão de identificar bem
que me referi a algumas administrações. Destaco inclusive a excelência de
algumas, como a do Faoro, do Baeta, do Márcio. No caso da fraude e da corrupção
recentes, aponto diretamente para o presidente e a diretoria. A anterior e a
atual. Poupo o Conselho, em alguns casos, porque nem todos os Conselheiros
sabem o que se passa. A diretoria ou seu presidente nem leva ao conhecimento do
Conselho. Troca figurinhas com alguns membros natos e conselheiros do que eles
chamam de ALTO CLERO. Esse mesmo fato, porém, acaba por submeter o Conselho à
crítica, por omissão, pois, no momento em que algum Conselheiro sabe dessas
irregularidades, tem o dever de levar ao Conselho. E mais: que Conselho é esse
que não toma conhecimento desses fatos graves que acontecem na Instituição?
Então, quando alguém trata insistentemente sobre
assuntos dessa natureza, envolvendo instituições, acaba fazendo a generalização,
que, contudo, é compreendida pelo leitor ou ouvinte porque sabe que se fala de
pessoas. Nenhuma instituição existe sem as pessoas. Sei que isso é uma
presunção, mas seria um pessimismo cético imaginar-se que quando se critica a
Polícia não se saiba que se fala de quem a dirige ou de alguns policiais e que
se queremos que isso mude, não se quer, contudo, acabar com a Polícia, ou o
Judiciário, ou o Ministério Público, ou mesmo a OAB. Conto a História da OAB em
meu livro analisando seus méritos, mas fazendo as ressalvas de sua omissão.
Não seria difícil evitar essa impropriedade, mas os
descuidos dessa generalização não prejudicam a mensagem, nem deve envergonhar
pessoas sérias, responsáveis, decentes, como você, que honram a Instituição.
Sua indignação lembra a de Rui Barbosa. Mas não foi Rui Barbosa que envergonhou
o País, nem é você que envergonha a OAB. Ou melhor, para não generalizar, não
foi Rui Barbosa que envergonhou os brasileiros; nem é você quem está
envergonhando os advogados.
Aliás, no caso da generalização, há seu outro lado,
que é o positivo, o referente à construção de uma imagem de respeito, de
um conceito construtivo. É o do reconhecimento, como você fez na mensagem
abaixo, que ora respondo. Você se refere aos “inumeráveis serviços já prestados
por ela (OAB) à Democracia e à Cidadania no Brasil”. Eu também reconheço
isso, fazendo a mesma generalização que você fez, sabendo que tais serviços
foram realizados por dirigentes e Conselhos, por pessoas, porque a OAB não
existiria sem elas. Se existissem, se fossem apenas programas de computador,
por exemplo, para executar o que lhes é programado, com certeza cumpriria
fielmente seus objetivos institucionais estabelecidos no art. 44, incisos I e
II, de nosso Estatuto, lei federal 8906.
Mas não será sua generalização que me fará aceitar ou
acreditar que a conduta do atual presidente nacional da OAB, de sua diretoria e
de seu conselho, do presidente, diretores, conselheiros e ex-dirigentes e
ex-conselheiros da OAB-MA – cujos membros têm sido informados de inúmeras
irregularidades, até violações grosseiras a advogados por parte do presidente
nacional – seja um serviço prestado à democracia ou à cidadania.
Mas, repito, você tem razão em sua crítica e até no
sentimento de vergonha pela minha generalização. Imagino o quanto você deve
envergonhar-se, então, com a conduta desses agiotas do conceito e da imagem da
OAB, que fazem um discurso de arautos da moralidade, mas se comportam
exatamente como os que criticam. Imagino o quanto você deve ter-se envergonhado
ao saber que os diretores da OAB-MA forjaram um contrato com
efeito retroativo para fazer evaporar um crédito de meio milhão de reais
da Caixa de Assistência dos Advogados; ao saber que, em vez de apurar essa
fraude, a OAB (e aí não há como dizer diferente, porque foi USADO o nome da
própria OAB) impetrou habeas-corpus para tentar impedir a apuração da fraude.
Não me surpreenderá se o caso acabar na vala comum da impunidade que a OAB,
como instituição, tem o dever de combater, mas que, contraditoriamente, é usada
por seus dirigentes para estimular e tentar garantir. É bom que se diga que o TRF1 (os membros da Corte que o julgaram) negou o pedido
por unanimidade; o STJ também. Imagino quanta vergonha o amigo, que, além de
advogado, é um cientista político respeitado e admirado, deve ter sentido com
nossa denúncia de que a direção da OAB no Maranhão corrompeu o processo
eleitoral de 2003 e ficou impune porque a direção nacional da
OAB, sua diretoria e seu Conselho, aos quais denunciei, nada fez. Então,
amigo, o cansaço nos faz resumir a indignação para perguntar apenas: qual a
autoridade moral que tem a OAB?
Mas me corrigirei, sempre grato: QUAL A AUTORIDADE
MORAL QUE ESSA OAB TEM?
Por fim, peço que o amigo me desculpe pela vergonha
súbita que o fiz sentir. Não foi, não é, nem será jamais minha intenção.
Notadamente por um amigo tão especial quanto você. Uma coisa me consola. A
vergonha que eventualmente tenha causado a você ou a outros colegas, terá sido pelas impropriedades de minhas generalizações,
não pela conduta indigna de quem desrespeita, violenta, contraria, desonra a
Instituição, seu compromisso como advogado e até os valores mais elementares da
ética e da moral.