Cansei
é termo de dondocas enfadadas
ENTREVISTA
Ex-governador Cláudio Lembro critica movimento de
protesto lançado por elite paulista
Domingo, 11 da manhã. Com
duas mil pessoas, a passeata convocada pelos movimentos “Cansei” e “Cria”
(Cidadão, Responsável, Informado e Atuante) chega à avenida 23 de Maio. O coro
“Fora Lula” já deu o tom à caminhada. A alguns quilômetros dali, abraçado e
beijado por populares e tendo a seu lado o senador Marco Maciel (DEM-PE), o
ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, assiste à missa na Catedral da Sé.
No início da noite, Lembo diria a Terra Magazine o que pensa sobre o movimento
“Cansei”, suas origens e motivações: - “Cansei” é um termo muito usado por
dondocas enfadadas em algum momento das vidas enfadonhas que vivem”.
Lembo, colunista deste Terra Magazine, em seu artigo semanal a ser publicado
hoje, tratará do que detecta ser um “clima de colapso” e analisará as ações de
governos e da mídia em meio à crise.
O ex-governador de São Paulo percebe haver em vários setores da sociedade
insatisfação com o “clima de colapso nos serviços públicos”. Entende ele que a
depauperização dos serviços públicos se dá há duas décadas e se aprofundou “nos
últimos 10 anos”.
Lembo constata que os recentes acidentes aéreos “comoveram o Brasil e
produziram, inclusive na sociedade, uma dor imensa”, mas lamenta “a utilização
de um movimento natural e de motivos nobres por movimentos e atividades com
claro objetivo político ainda que tentem escondê-lo ou apesar de o negarem, e
isso não é bom”.
A colunista Mônica Bergamo informa na sua coluna de ontem na Folha de S.Paulo:
por entenderem que o “Cansei” tem slogans que podem levar a uma leitura
política e partidária, as redes de televisão Globo e Bandeirantes não cederão
espaço publicitário gratuito ao movimento. Por enquanto, a revista IstoÉ cedeu
espaço.
Por fim, mas não por último, o ex-governador situa geográfica e nominalmente o
“Cansei” desde o que, no seu entender, seria o nascedouro: “É um movimento
nascido em Campos do Jordão. O empresário João Doria Jr., ao que li e
acompanhei nas últimas semanas, há pouco dedicava-se a um desfile de cãezinhos
de madames em Campos do Jordão.” A seguir, a entrevista com Cláudio Lembo.
(Terra Magazine)
Terra Magazine - Na noite da última sexta-feira,
durante o casamento de Sophia - filha do ex-governador Geraldo Alckmin de quem
o sr. foi vice -, o sr. disse ao repórter José Alberto Bombig, da Folha, que o
movimento conhecido como “Cansei”, nascido em protesto contra a crise no setor
aéreo, a violência e a corrupção, é um movimento de “um pequeno segmento da
elite branca” e nascido em Campos do Jordão. O que o sr. quer dizer com isso e
o que o leva a ter essa convicção?
Cláudio Lembo - O
próprio ato de nascimento do movimento. O “Cansei” nasce conduzido por figuras
conhecidas que sempre possuíram e possuem uma visão elitista do país e da
sociedade.
Terra Magazine - A
quem ou ao quê o sr. se refere?
Cláudio Lembo - Por
exemplo, ao sr. João Doria Jr., que só trata com os grandes empresários do
Brasil, e que, até onde sei, só se relaciona com o topo da sociedade. Suas
ações e relações estão sempre nesse nível, que representa uma parcela ínfima do
Brasil.
Terra Magazine - Mas,
a sua convicção se forma apenas através das suas informações, do seu feeling?
Cláudio Lembo - Meu
ou de qualquer um. Basta ver a forma, a expressão, o verbo utilizado para dar
sentido ao movimento. “Cansei” tem um sentido muito próprio.
Terra Magazine - Que
“sentido próprio” é este?
Cláudio Lembo -
“Cansei” é um termo muito usado por dondocas enfadadas em algum momento das
vidas enfadonhas que vivem.
Terra Magazine - O
sr. tem, certamente, a consciência de que nesses movimentos, o “Cansei” ou o
“Cria”, há a participação de familiares de vítimas dos acidentes aéreos?
Cláudio Lembo - Tenho
consciência e isso me deixa mais triste ainda.
Terra Magazine - Por
quê?
Porque é a utilização de um movimento natural e de motivos nobres por
movimentos e atividades com claro objetivo político ainda que tentem escondê-lo
ou apesar de o negarem, e isso não é bom.
Terra Magazine - Não
é bom por quê?
Cláudio Lembo - Não é
bom porque as vítimas, os familiares, os acidentes comoveram o Brasil e
produziram, inclusive na sociedade, uma dor imensa, enquanto o movimento de
Campos do Jordão o que quer é ter espaço na mídia etc.
Terra Magazine - Por
que Campos do Jordão?
Cláudio Lembo - Pela
figura de um dos organizadores centrais, senão o principal, ao menos no início.
Terra Magazine - O
que exatamente o sr. está querendo dizer?
Cláudio Lembo - O
empresário João Doria Jr., ao que li e acompanhei nas últimas semanas, há pouco
dedicava-se a um desfile de cãezinhos de madames em Campos do Jordão (N.R.: Foi
o 6º Passeio de Cães de Campos do Jordão).
Terra Magazine - Mas
o sr. não ignora que há motivos claros e justos para que pessoas protestem, se
manifestem...
Cláudio Lembo - Claro
que não. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso deixar claros quais são os
motivos, qual é a justeza deles, e não sair propositadamente atacando sem dizer
exatamente o que se quer e a favor ou contra quem. Há motivos muito grandes,
justos, e creio que há um clima, em várias camadas da sociedade, de colapso dos
serviços públicos.
Terra Magazine - E
por que esse clima de colapso? Culpa do governo?
Cláudio Lembo - É
difícil dizer, assim de passagem. Falo de um clima, mas é claro que o motivo
não é só esse. Isso vem de há muito.
Terra Magazine - Como
e por quê?
Cláudio Lembo - A
reestruturação dos serviços públicos brasileiros partiu de uma cópia servil do
modelo norte-americano, ou por eles imposto, e não encontrou raízes no Brasil.
Isso nos últimos 20 anos e se agravou nos últimos 10 anos muito profundamente.
Terra Magazine - Me
dê exemplos do que o sr. está dizendo.
Cláudio Lembo - Pois
não: as agências como a Anac, Anatel, ANP, e ONGs. Nos Estados Unidos as
agências tinham e têm uma cultura ambiente favorável e as ONGs, em grande
parte, nasceram para fiscalizar o governo. No Brasil as agências apenas servem
para abrigar os interesses de empresas privadas, e ONGs, em sua maior parte,
são apêndices de governos.
Bob Fernandes