Cansaram-se?! Pois eu não me canso de bater em hipócritas!

Fernando Soares Campos

 

Túmulos caiados sempre querem se passar por honestos, santificados, verdadeiros, sinceros, amigos, parceiros, bons, autênticos, equilibrados, enfim, detentores de todas as verdades e portadores de todas as virtudes. Túmulos caiados têm verdadeiro pavor de contrariar os ditames morais e éticos impostos pelo establishment. Moral no papel, moral nos discursos, moral letárgica, moral morta se fazendo de viva pra enganar os coveiros.

 

Desde tempos longínquos os túmulos caiados adoram a moral virtual:


“Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a túmulos caiados: formosos por fora, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície” (Mateus, 23, 27-28).

 

Autobiografia, por exemplo, é uma narração fantástica, repleta de ações honrosas, dignificantes, na qual se revela um personagem altruísta, justo, honesto, sincero, cordial, culto, inteligente, protótipo do ser humano perfeito, como o autor imagina que possa existir. Até os defeitos daqueles que escrevem suas autobiografias se transformam em virtudes.

 

Além de auto-retratar-se com as qualidades que fariam todos ao seu redor enxergá-los como impolutos seres extraterrestres, as vestais do mundo do faz-de-conta costumam pintar seus afetos como réplicas de si. Lembrei-me deste trecho de um conto que, já faz alguns anos, escrevi:

 

Conivências

A lancha Susi atracou no cais da Praça XV. Luci estava retornando de sua primeira aula prática de mergulho. Os outros dois alunos se despediram e se foram; ela ficou, a pretexto de conversar um pouco mais com Celso, sobre segurança e primeiros socorros aos mergulhadores, em caso de acidente.

 

Foram para um restaurante na Cinelândia, um lugar que Celso costumava freqüentar após as aulas. Pouco falaram sobre mergulho. Luci estava mais interessada em investigar a vida pessoal do seu instrutor, queria saber onde esta se cruzava com a de sua sogra.

 

Apesar da grande diferença de idade, parecia existir bastante afinidade entre eles.

— Por que deu o nome de “Susi” à sua lancha?

— Era o apelido de uma ex-namorada minha.

— Apelido.

— Sim, apelido carinhoso... coisas de namoro. Você sabe.

— Claro! Eu mesma, de Lucilene, virei Luci. Isso quer dizer que, se meu namorado tivesse uma lancha...

— Tenho certeza de que seria “Luci”. Entre namorados, isso é quase regra.

— Mas esse é o tipo de homenagem feita geralmente por quem está apaixonado à vera.

— Sim.

— Isso quer dizer que você estava muito apaixonado?

— Acho que não existe ninguém “pouco” ou “mais ou menos” apaixonado. Paixão é sempre uma explosão de sentimentos.

— Nossa! Pelo visto, essa Susi arrebentou seu coração!

— Eu gostava muito dela. Era paixão de verdade, roxa!

— Vocês se casaram? Ah, me perdoe, se eu estiver sendo indiscreta!

— Não está. Falar sobre isso não me incomoda — fizeram um breve silêncio. Com um olhar vago, ele parecia querer se situar no passado, como se pretendesse plasmar um momento perdido. — Bem, eu mesmo nunca me casei de papel passado, o preto no branco, mas ela sim.

— Mas, se ela casou-se com outro, então, você não tinha motivo para manter a homenagem. Ou tinha?

— Acontece que, quando eu a homenageei, ela já era casada.

— O quê?! Acho que não entendi.

— Foi na nossa fase de amantes.

— Tornaram-se amantes?! Incrível! Bom, agora você vai ter que me contar mais. Quem mandou atiçar?!

Sorriam.

— O fato é que, mesmo depois de ter sido abandonado por ela, eu permaneci apaixonado. Você sabe: o amor é cego, quem ama não percebe os defeitos da pessoa amada. Aliás, uma pessoa apaixonada fica tão abobalhada que os defeitos morais da pessoa por quem se apaixonou passam a ser vistos como virtudes.

— Chega-se a tanto?

— Se você ainda não chegou, é porque nunca se apaixonou pra valer.

— Mas... quais eram os desvios morais da Susi, e como você os encarava?

— Pra você ter uma idéia, o seu egoísmo, por exemplo, eu o via como a expressão de sua auto-estima. Ou seja: ao meu ver, ela não era egoísta; apenas valorizava a si mesma. E, se uma pessoa dessas me tinha como namorado, isso queria dizer que eu estava sendo valorizado.

— Nossa! Isso é paixão ou cegueira sentimental?

— Qual a diferença?

— Bem, depois do que você falou, acho que, quando falamos de “cegueira sentimental”, nos referimos a uma manifestação emotiva mais parcimoniosa. Uma coisa mais zen.

Riram e brindaram-se com as tulipas de chope.

Depois de beber, Celso fechou-se num aspecto grave. Novamente parecia olhar para dentro de si mesmo, revolvendo o arquivo morto de sua alma.

— Tínhamos planos. Tudo parecia correr muito bem entre nós — Celso falava com a melancolia dos ofendidos. — Até que um dia ela conheceu um alto executivo de uma empresa multinacional, na verdade um testa-de-ferro. E foi aí que manifestou sua mais cruel deformidade moral: a ambição desenfreada, a ganância.

— Ganância?! Bom, pelo que você falou, antes da traição, o que nela se expressava como “ganância desenfreada” seria, pra você, uma manifestação de garra, de perseverança...

— Isso mesmo. Você pegou o espírito da coisa.

— Chegou a odiá-la?

— Já vi que você nunca se apaixonou de verdade.

(Para conhecer a história completa, clique aqui: Conivências)

 

Mas.. o que estou querendo dizer com essa lengalenga toda?

 

Bom, hoje estou, além de descansado, encontrando os textos prontos para compor este artigo. Está muito fácil dizer o que pretendo desde que tomei conhecimento de um tal “movimento cívico” que certas figuras andam "arquitetando". Até me lembrei dos últimos meses do governo João Goulart.

 

Do meu amigo Urariano Mota, escritor pernambucano dos bons (como escritor e pernambucano), recebi uma de suas preciosas coletas na internet:

Coluna de Mônica Bergamo, Folha de São Paulo, 26.7.2007:

 

Moral e cívica

 

Representantes da Fiesp, de bancos, de publicitários e de alguns meios de comunicação fizeram reunião anteontem no escritório do empresário João Doria, em SP, para finalizar o lançamento de um "Movimento Cívico" no Brasil. Preocupados com a possibilidade de se colocar frontalmente contra o governo Lula - ou, como diz o informe produzido por um dos presentes ao encontro, "para evitar conotações políticas"-, ficou decidido que a única entidade que assinará a campanha será a OAB.

 

MORAL 2

 

As propostas do já batizado “Movimento Cívico" são: marcar um minuto de silêncio para o dia 17 de agosto, um mês depois da tragédia de Congonhas; elaborar peças publicitárias para TV e rádio, convocando as pessoas para o ato com frases como “cansei de corrupção", “cansei de apagão aéreo", “cansei de bala perdida"; criar blog de protesto na internet.

 

MAPA

O esforço para caracterizar o movimento como iniciativa da OAB foi em

vão: o governo Lula está sendo informado de cada passo da manifestação, e daqueles que a organizam.”

 

E esta nota enviada pelo jornalista e crítico de cinema André Lux, extraída do Blog do Mino Carta:

 

Cansei

 

“Ah, a indignação dos nossos graúdos... Não se indignaram com a criação de um Estado que pretendia ser liberal sem sê-lo e da construção de uma democracia sem povo. Não se indignam com o fato de que apenas 5% da população brasileira ganhe de oitocentos reais para cima."

- por Mino Carta (http://blogdomino.blig.ig.com.br/)

 

”Estou empolgado com o movimento “Cansei”, “que pretende expor a indignação dos brasileiros em relação à crise aérea, a violência e outros problemas do País”. Nasce da aliança entre o presidente da OAB de São Paulo, Luis Flavio Borges D’Urso (na charge abaixo), e do “organizador de eventos”, João Dória Jr. (na foto à direita), aquele rapazola de cabelo engomado que consegue obrigar a fina flor do empresariado a vestir os trajes de Indiana Jones para participar de tertúlias promovidas em lugares aprazíveis.

 

“Representantes da Fiesp e da Associação Comercial de São Paulo compareceram ao lançamento do movimento, hoje de manhã, na sede da OAB paulista. Ah, a indignação dos nossos graúdos... Não se indignaram com a criação de um Estado que pretendia ser liberal sem sê-lo e da construção de uma democracia sem povo. Não se indignam com o fato de que apenas 5% da população brasileira ganhe de oitocentos reais para cima.

 

“Impassíveis, transitam diante das favelas na cidade que ostenta a maior frota de helicópteros do mundo. Ou, por outra, não se indignam com seu próprio comportamento, anos, décadas, séculos afora.”

 

Mas era disso que eu queria falar: dos túmulos caiados. Hipócritas! São os mesmo sujeitos insensíveis à miséria de milhões de brasileiros, indiferentes à fome, ao abandono dos hospitais e das escolas públicas, à favelização. Queria tratar sobre esses indivíduos que, quando falam de favelas, expressam apenas o medo e preconceito contra favelados, que, para eles, não passariam de gente bandida conivente com o varejo do tráfico de drogas. Cretinos que só conhecem uma favela à distância, ou quando visitam alguma delas, autorizados pelas bocas, durante campanhas eleitorais.

 

Cansaram-se?! ! mas vocês têm muitos escravos para lavar e passar suas roupas de grife, cuidar de seus futuros pitboys, dirigir seus carrões. Até as amantes para relaxar e gozar! Estão se sentindo inseguros?! Ora, muitos de vocês estão protegidos em verdadeiros bunkers!

 

Agora vocês vão convocar essa gente útil para bradar contra aquilo que vocês mesmos produziram?! Sei que vocês nunca se incomodaram com a miséria deste país; nem mesmo com a violência, enquanto as balas perdidas não começaram a atingir suas crias e acuá-los nos condomínios de luxo. Certamente não acreditavam que um dia seriam atingidos. Eram tempos em que vocês pouco se preocupavam em promover movimentos cívicos, isso enquanto os corruptos (...)gavam e andavam impunemente, sem que seus escusos negócios fossem ameaçados por uma eficiente Polícia Federal e um governo que não interfere nas investigações, doa a quem doer.

 

Já sei! Querem um “Basta de algemas!”, “Fim das investigações!”, “Quadrilhas de funcionários públicos desonestos, uni-vos!”, “Propinas sem pepinos!”, “Sucatear para privatizar!”, dentre outros "benefícios".

 

Túmulos caiados! Formosos por fora, mas, por dentro...

 

Bleeeaaarrrgh!!!