Candidatos à presidência
da OAB-SP opinam sobre Exame de Ordem
João Novaes
A
obrigatoriedade do Exame da Ordem nunca foi tema de consenso no meio jurídico.
Seus defensores alegam que ele é a única maneira de estabelecer um padrão
mínimo de profissionais qualificados. Já os que são contra o Exame consideram
que ele é inconstitucional, não serve como parâmetro de conhecimento e tem o
único objetivo de criar uma reserva de mercado.
Entretanto,
seja quem for o presidente da seccional paulista da OAB (Ordem dos Advogados do
Brasil) nos próximos três anos, o Exame do Ordem
contará com um defensor. Os quatro candidatos ao cargo são favoráveis
à sua realização e culpam a rápida proliferação dos cursos jurídicos, aliada à
pouca qualidade, como a principal responsável pelos baixo índices de aprovação
ocorridos nos últimos anos.
Na
semana passada, Última Instância publicou entrevistas especiais com os quatro
candidatos à presidência da OAB-SP, nas quais todos tiveram a oportunidade de
se apresentar, explicando suas motivações, apresentando propostas e fazendo
críticas. Foram entrevistados, nessa ordem, os candidatos Rui Celso Reali Fragoso, Clodoaldo Pacce
Filho, Leandro Pinto e Luiz Flávio Borges D’Urso.
Alguns
dos temas relevantes para os advogados são apresentados, a partir desta
quinta-feira (16/11), em contraste, para que se possa comparar de forma mais
clara a opinião de cada candidato. Hoje, eles emitem suas opiniões sobre a
proliferação de cursos jurídicos em todo o Estado e no país, além de comentarem
o que pensam a respeito do Exame de Ordem.
Nos
próximos especiais, eles serão perguntados a respeito das defesas das
prerrogativas dos advogados; sobre a crescente queda do poder aquisitivo da
classe; e sobre o apoio a projetos de lei que influam diretamente na advocacia.
Por
uma questão de eqüidade, a pergunta foi feita da mesma maneira a todos os
candidatos. A ordem das respostas é a mesma da publicação das entrevistas.
Qual
sua posição em relação à proliferação dos cursos de direito e também em relação
ao Exame de Ordem?
Rui Celso Reali Fragoso
Penso
duas coisas: é um mal necessário [o Exame de Ordem]. Infelizmente, temos no
Estado mais de 225 cursos; no Brasil, mais de 980, beirando a mil. É
inaceitável um número tão grande de cursos, ainda mais porque a maioria deles
não está apta a fornecer a formação adequada aos bacharéis. Então, precisamos
ver a causa da reprovação, atacar uma de suas causas, que é a formação
deficiente, e, depois, também acredito que adequar [a prova], sem que isso seja
considerado um afrouxamento. As provas têm que ser mais equilibradas, de modo a
procurar auferir aquilo que o candidato realmente sabe e que vai enfrentar no
seu futuro como advogado. Enfim, tem que ter um equilíbrio melhor nas provas.
Clodoaldo Pacce
A
proliferação dos cursos de direito tem ocorrido por incompetência das
autoridades federais. O que acontece quando o aluno ingressa nessas faculdades?
A instituição finge que ensina, e o aluno acredita que aprende. Ele vai sentir
as conseqüências mais tarde. Então, os índices de reprovação nos Exames de
Ordem devem ser atacados em suas causas. O que ocorreu? Nos últimos três anos,
na OAB de São Paulo, a pior média de aprovação no Exame foi em torno de 7,5%
[7,16%, no 126° Exame de Ordem, em maio de 2005, pior resultado da história],
enquanto a melhor foi de 9,5%, aproximadamente [o 129° e penúltimo exame teve
aprovação de 9,79%, terceiro pior resultado da história]. Para nosso espanto,
no último exame realizado agora no segundo semestre, o índice de aprovação
chegou a 32% ou 34% [o 130º Exame, realizado em setembro, aprovou 16,16%, mas
31,9% dos inscritos passaram na 1ª fase]. Fiquei espantado, fiquei feliz.
Vários colegas entrando no mercado, essa competitividade é boa, o mercado
absorve tudo isso, não há problema nenhum. Só questiono o que aconteceu. De
repente, de menos de 10%, o índice de aprovação saltou para 32%. Houve uma
moleza? A Ordem deu uma moleza? O que aconteceu? Ou as faculdades, em
pouquíssimo tempo, se recuperaram, e os bacharéis resolveram estudar desesperadamente
e aprenderam tudo o que não sabiam em dois meses? Só
que, com esse índice de aprovação de 32%, estão entrando para a OAB mais 6.000
advogados, que representam 6.000 novos votos. Então, na boca da urna, parece
que houve certa condescendência eleitoreira.
Leandro Pinto
Educação
sempre é muito bom, sou um homem voltado à educação. Termos mais universidades
significa uma melhoria no país. Agora, ter universidades ruins, que só querem
receber mensalidades, não. Esse pessoal está fazendo um serviço ruim e tem que
ir para a cadeia, porque isso é estelionato. Se você se propõe a fazer uma
universidade, ela tem que ter qualidade. Caso contrário, tem que ser fechada e
processada. Sou a favor da responsabilidade. Crescer culturalmente é muito bom,
feliz daquele país que cresce com homens que estudaram. Agora, homens com
diploma sem terem estudado é errado. Sou completamente a favor de um exame
rígido para entrar na Ordem. O indivíduo, para a OAB, tem que ser bom. Porque
nós representamos uma elite para a sociedade, comprometida com o direito, com a
sociedade no que diz respeito às leis, às normas. Para ser advogado, o
indivíduo tem que ter uma cultura jurídica indiscutível. Não é simples e
puramente fazendo uma universidade que ele se gabarita para ser advogado. Ele é
bacharel
Luiz Flávio Borges D’Urso
Temos
uma proliferação desenfreada de faculdades de direito, que precisa acabar.
Temos em torno de mil no Brasil, nos EUA, não chegam a 200. É um descalabro,
resultado de uma política governamental que passou a autorizar a instalação de
faculdades sem os qualificativos mínimos para bem formar o bacharel. Se nós
focarmos a verificação que a Ordem faz das faculdades de direito, vamos
encontrar muitas que receberam parecer negativo, mas o MEC autorizou o
funcionamento. O Exame de Ordem reprovou de 80% a 90%, em média, no Estado de
São Paulo. Grande parte disso, sem dúvida nenhuma, é a baixa qualidade do
ensino jurídico, aliado muitas vezes à baixa qualidade do ensino fundamental.
Tivemos acesso a provas em que o bacharel não consegue usar o plural, não sabe
escrever. Conjugação de verbos, os mais simples, ele não os articula. A
redação, pobre, sem nexo. Ou seja, o indivíduo chega a ter um diploma de
bacharel sem ter condições de ter sido aprovado no ensino fundamental. Isso é
uma deformação gravíssima, que não ocorre só na área do direito. Sou totalmente
favorável ao Exame de Ordem.
Na
eleição anterior, fui alvo de muita mentira e crítica infundada. O próprio Rui,
que é meu amigo e hoje adversário, teve um comportamento inadequado, porque
assinou mensagens propagando que se eu fosse eleito, iria acabar com o Exame de
Ordem. Isso me custou muitos votos, porque não consegui desmentir a todos. Não
acabei com o Exame de Ordem, pelo contrário, coloquei ordem nele. O Exame hoje
é serio, criterioso, quem tem condições passa, quem não tem, é reprovado, pode
ser filho de quem for, ter o sobrenome que for. A professora Ivete Senise levou o exame com muito rigor, critério e seriedade.
Quem ainda não está no ponto, vai se preparar um pouquinho mais.
Quinta-feira, 16 de novembro de 2006
Fonte: www.ultimainstancia.com.br