Belém, a cidade onde tudo pode
Bicicleta na contramão
pode!
Lanchonete volante em bicicletas pode!
Churrasqueira nas ruas centrais pode!
Camelô no meio da rua atrapalhando os carros ou fechando calçadas e a rua pode!
Restaurante nas calçadas pode!
Apanhar mangas das árvores públicas para vender nas feiras pode!
Mesas e cadeiras de bar no meio da rua e calçadas pode!
Crianças limpando pára-brisas de carros nos cruzamentos até serem baleadas e
ficarem definitivamente inválidas pode!
Criancinhas fazendo malabares nas faixas de pedestres em sinal fechado pode!
Meninos e meninas em tenra idade vender chicletes, beijo-de-moça e até o
próprio corpo nas janelas dos carros pode!
Homem que cospe fogo nos cruzamentos pode!
Meninas e gays expondo os corpos nus ou a busanfa nas esquinas à noite pode!
Legião de vagabundos morando, cozinhando, mijando e defecando nas praças
públicas e sob viaduto pode!
Loucos vagando nus pelas ruas e agredindo transeuntes e quebrando carros pode!
Fechar as ruas para qualquer protesto, mesmo protestos pelo ilegal e pelo
imoral como o próprio protesto, pode!
Desembargadora sacar dinheiro da conta judicial sem autorização do dono pode!
Invasão de terras, sem qualquer interferência das autoridades, pode!
Queimados, deformados, aleijados, leprosos, tuberculosos, idosos e famintos sem
teto pedir esmolas nos carros nos cruzamentos pode!
Feiras livres sobre carros de mão enormes nas principais esquinas da avenida
central (ou outra qualquer) e atrapalhando pedestres e veículos
pode!
Tomar as calçadas de assalto para montar venda de qualquer porcaria nas ruas
centrais e em frente às grandes lojas pode!
Cortar cabelo em barbearia improvisada no meio da calçada pode!
Vender lanches, cachorro quente, remédios e comidas em todas as esquinas de dia
e à noite, sem qualquer controle das autoridades sanitárias, pode! Oh, desculpe, falei em autoridade? Isso não pode!
Pintar carros nas calçadas pode!
Construir lombada de qualquer altura em qualquer rua, avenida, rodovia, vila,
passagem e onde bem entender, sem necessidade de consultar as autoridades ou de
autorização, pode!
Depositar lixo em qualquer esquina, nos canais, rios e
igarapés pode!
Transporte clandestino de pessoas em kombis pode!
Mijar de dentro do ônibus para a rua e na via pública pode!
Vender coco verde nas praças, água em saquinhos plásticos, refrigerantes e
sucos nos cruzamentos também pode!
Pode quase tudo ou tudo mesmo nesta cidade da qual estou falando. Pode vir,
pegue o ônibus clandestino ou da linha aí na sua cidade e não se preocupe com
nada. Se não der pane, ele chega tranqüilo e lhe desembarca ali no
Entroncamento, porque parar fora do Terminal Rodoviário para desembarcar você,
sua prole, suas quinquilharias domésticas, sua mulher e o cachorro pode! Já o seu papagaio de estimação, bem, é... traga também que o Ibama não tá nem vendo e pode!
Ah, diga aos seus parentes, amigos e vizinhos que, se quiserem vir, também
pode!
Moradia não é problema, pois invadir terreno alheio pode! Tem muito terreno pra
invadir sem ser importunado pelas autoridades (opa, falei de novo em
autoridade, desculpe) e é um grande negócio para sua futura especulação
imobiliária e pode! Você vai virar corretor ou corretora de imóveis invadidos,
negócio muito lucrativo e que também pode! Depois de vender a sua casa, você
invade outro terreno e, se o dono aparecer reclamando a sua propriedade, você
põe ele pra correr com enxada e terçado, que são ferramentas e não armas, por
isso não pega nada e pode!
Mas saiba de uma coisa: lá não tem emprego para os rapazes nem para as moças,
mas isso não será problema também, porque roubar, pode, furtar pode, assaltar
pode e pode até matar se a vítima resistir sem problema porque não tem polícia
por perto!
Para você - o pai -, arranje duas rodas de carro e madeira e faça um carro de
mão, daqueles enormes, e saia por aí juntando latinhas e garrafas plásticas nos
sacos de lixo e camburões para revender, porque isso pode!
Retirar lixo das vilas no “carrão” de mão para jogar no cruzamento mais
movimentado também pode!
Sair pelas ruas centrais fazendo frete do Ver-o-Peso com peixe, frutas e
verduras expostos, atrapalhando os carros e na contramão também pode!
Mas, se preferir, arranje um burro ou um cavalo bem magro e doente, atrele
carroça nele, bote uma criança pilotando o animal e atrapalhando o trânsito
para juntar ferro velho, roubar tampa de bueiro pra vender, pois isso também
pode!
Vender mingau sem qualquer higiene em triciclo também pode!
Já a sua mulher talvez se arranje como caseira, lavadeira
ou cata-lixo nos lixões do Aurá, que também pode!
Para as meninas e meninos, emprego só de flanelinha ou a
prostituição infanto-juvenil, que dá um bom dinheiro e não tem pressão
sistemática, portanto, pode!
Como diz a música do saudoso Tim Maia, só não pode é dançar homem com homem nem
mulher com mulher... o resto tudo pode! E você amigo
(a) leitor (a), que perdeu o seu tempo lendo essas verdades, não se preocupe
que não vou dizer o nome dela, pois compartilho do mesmo temor seu de aumentar
mais ainda toda essa desgraceira que tomou de assalto as nossas ruas, minou de
morte nossos bons costumes, acabou com a tranqüilidade do nosso pacato povo
trabalhador e ordeiro, feriu de morte a nossa história e dos nossos
antepassados, inchou e encheu de bêbados, notívagos e marreteiros de bugigangas
a nossa festa maior de fé à Virgem de Nazaré, enfim, não vou dizer o nome dela
porque todo mundo já sabe!
Manoel Valente Neto
Travessa Alferes Costa, 2.732/803
valente.bel@terra.com.br
Belém