Auto-ajuda para um bacharel em Medicina
por Marcelo - 37
A recente
indicação dos conselhos de Medicina para a criação de um exame de ordem tem
sido aplaudida vividamente e a sua rejeição pelos estudantes tem sido tomada
como sinal de comodismo, preguiça, arrogância etc. O exame de ordem seria
necessário e suficiente para garantir a capacidade dos profissionais que
exercem a Medicina e/ou uma medida essencial contra a
proliferação de cursos médicos.
A idéia de que
uma prova one-round,
por mais bem elaborada que seja, vá separar confiavelmente
bons profissionais de incompetentes em potencial vai de encontro a qualquer
tendência didática da avaliação moderna. A profissão médica requer
conhecimentos biomédicos como todas as profissões da área da saúde e estes
conhecimentos podem ser testados em uma prova (e a relevância deste teste
sobreposto às avaliações de disciplinas da graduação é evidentemente baixa),
mas a prática clínica e a sua qualidade não são testáveis em uma prova, mesmo
em uma prova prática! A ética profissional, a constância da boa relação médico-paciente, a
habilidade de lidar com situações de decisão rápida e de resistir ao estresse
emocional da profissão clínica não são passíveis de simulação satisfatória em
uma avaliação deste tipo.
A luta dos
acadêmicos de Medicina contra o exame de ordem parece arrogante pela sua
singularidade, pois não há indicação clara de outros exames de ordem (ainda).
Ainda assim, é a Medicina um curso especial!? Por que eles não podem ser bacharéis!? A resposta é que o exame de ordem não se aplica a curso algum. A louvada idéia original da
OAB foi uma péssima idéia (Oh!) e todas as iniciativas de exames de ordem são
igualmente execráveis. Não se esperaria, no entanto, que estudantes de Medicina
fizessem piquete contra o exame de ordem da OAB ou o futuro exame do CRBM!!!! Um bacharel em Medicina não é igual a um bacharel em
Biomedicina (de cursos acadêmicos), pois o primeiro foi privado de exercício
profissional, enquanto o segundo não o foi...
Os exames
vestibulares moldaram o Ensino Médio e o transformaram em uma coleção de
conhecimentos em blocos desconexos, incapaz de prover ao estudante qualquer
vantagem no mundo real com exceção do ingresso em um curso superior (quando o
faz). Promoveram também a proliferação dos “cursinhos”, que fazem as boas
escolas de Ensino Médio parecerem universidades em termos de pensamento crítico
e interatividade. O remédio para avaliações
(em oposição a sistemas de avaliação)
nunca foi atingir novos patamares de qualidade, mas sim explorar as falhas
grosseiras de um evento de avaliação transversal que pretende medir as
conseqüências de um evento longitudinal (três anos de Ensino Médio, seis anos
de curso médico etc.)
A idéia de que
as universidades nunca se avaliarão por si mesmas não condiz com a legislação
já existente que as obriga
a tal, através das comissões próprias de avaliação (CPAs), inseridas no Sistema Nacional de Avaliação do
Ensino Superior (SINAES). O MEC deveria exercer drasticamente a atribuição de descredenciar cursos de qualidade duvidosa? Sim. E qualquer
um destes cursos pode ser reconhecido facilmente em um sistema de avaliação.
Qualquer membro do CFM/CREMESP é capaz de entrar em
uma faculdade de Medicina e perceber óbvias falhas (que existem...), como
laboratórios de Anatomia com bonecos anatômicos da mais alta tecnologia,
currículos disciplinares deficientes etc.
Aplicado a um
curso completamente heterogêneo como o curso biomédico, o exame de ordem ainda
revela a sua incapacidade de permear satisfatoriamente a heterogeneidade
natural que existe entre as instituições e as regiões. Na profissão médica,
você avaliaria apenas os conceitos básicos de cada especialidade? Entretanto, é necessário ao especialista maiores conhecimentos para o
exercício desta especialidade... Haverá provas por especialidade? Em que esta
prova difere do exame de residência?
O exame de ordem
não separa o joio do trigo profissional. Separa, sim, alguns indivíduos (às
vezes bastantes), para que se possa alardear que algo está-se
fazendo para a solução da negligência, inépcia etc. na prática médica. Um
paradigma que ignora completamente que mesmo bons médicos com bons currículos
(que já eram os contratados mesmo antes do exame...) continuam a praticar com
negligência em um sistema de saúde caracterizado pela superlotação e pela baixa
remuneração. O exame de ordem não resolve as consultas-de-minuto, não resolve a
falta de ética profissional... Enfim, talvez o CFM devesse revelar exatamente
quantos processos foram justificados por que o médico em questão foi negligente
por não saber identificar uma doença fibromatosa por
radiografia ou não saber o que era uma pinça Kelly...