ANA JÚLIA TEME A SAÍDA DE TEMPORÁRIOS – O Liberal,
05.12.2006
Problema - Equipe
de transição da candidata eleita alerta que demissões inviabilizarão governo
A comissão de
transição de governo teme que a dispensa dos servidores temporários do Estado,
exigida pela Justiça Trabalhista, vá 'inviabilizar' o início da administração
de Ana Júlia Carepa. Os temporários, que chegam a 21.838 trabalhadores, segundo
a equipe de transição, representam apenas 19% do total de 116 mil servidores
públicos estaduais, no entanto, formam 90,41% da força de trabalho existente
nos serviços essenciais de saúde, educação e segurança pública. O assunto foi
tema de reuniões do coordenador administrativo da transição, Carlos Guedes, com
a Intersindical, ontem de manhã, e com a secretária especial de Gestão, Teresa
Cativo, à tarde, no Centur.
A equipe de
transição decidiu que discutir imediatamente o problema com o Ministério
Público do Trabalho - com quem o atual governo firmou acordo judicial em maio
do ano passado, para a dispensa gradual dos temporários e a realização de
concursos públicos para a substituição deles -. A intenção é repactuar os
prazos de dispensa dos temporários considerando os concursos previstos para
realização no ano que vem e o grau de essencialidade dos serviços públicos, em
especial educação, saúde e segurança pública. Outras providências serão o levantamento do número de concursados que possam ser
empossados até fevereiro do ano que vem; e a verificação do processo de
regulamentação da Lei Estadual nº 6.338/00, que trata do emprego público na
administração estadual.
O prazo para a
dispensa de todos os temporários deveria terminar este mês, mas o Tribunal
Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT), na semana passada, concedeu liminar ao
recurso interposto pelo governo, prorrogando o prazo para dezembro do ano que
vem. O mérito do recurso ainda está pendente de análise. De acordo com a
transição, 19.313 temporários estão na saúde, educação e segurança pública,
distribuídos da seguinte forma: 11.362 na Secretaria Executiva de Educação
(Seduc), 401 na Universidade do Estado do Pará (UEPA), 2.220 na
Superintendência do Sistema Penal (Susipe), 2.996 na Secretaria Executiva de
Saúde Pública (Sespa), 362 no Hospital Ophir Loiola, 920 na Santa Casa, 243 no Fundação do Hospital de Clínicas Gaspar Viana, 12 na
Secretaria Executiva de Segurança Pública (Segup), 245 na Fundação da Criança e
do Adolescente (Funcap), 207 na Polícia Civil, 63 no Centro de Perícias
Científicas Renato Chaves. Do total dos temporários, 2.235 foram contratados há
menos de dois anos.
A equipe de
transição afirmou ontem que não há 'disponibilidade e nem tempo hábil' para o
preenchimento de todas as vagas a serem abertas com as demissões dos
temporários. Outra preocupação é que a contratação de concursados represente um
acréscimo de despesas de 30% a 40%, o que levaria o novo governo a descumprir o
limite da folha de pagamento acordado com o governo federal, através do
programa de ajuste fiscal. O limite máximo estabelecido para o Pará é de 48,60%
da receita corrente líquida, sendo que o Estado gasta 43,03%, atualmente. Sem
falar na preocupação com o teto de despesas com pessoal fixado na Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), que torna o administrador público passível de
improbidade administrativa. A transição resume que a admissão de concursados
para atender à necessidade do governo impediria a concessão de reajuste
salarial em 2007.
Intersindical -
A Intersindical
e a equipe de transição decidiram criar uma agenda de trabalho conjunta com
foco na construção de uma política de respeito e valorização do segmento, que
deve incluir a situação dos temporários, salariais, de regionalização do
governo e os mecanismos de transparência do serviço público. Guedes garantiu
que a gestão de Ana Júlia manterá um canal permanente de diálogo com os
servidores públicos.
Os
sindicalistas pediram que a relação com o novo governo seja respeitosa e
transparente. Eles reclamaram que, atualmente, a categoria
têm perdas salarial acumuladas em quase 80%. A Intersindical defendeu
que o servidor temporário não pode aparecer como o vilão, considerando que foi
o próprio Estado que criou essa situação. As duas partes concordaram que a
exigência constitucional de aprovação em concurso para o ingresso no serviço
público deve ser respeitada e, ainda, defenderam a aprovação do Projeto de
Emenda Constitucional nº 54, que assegura a
permanência dos temporários que tenham a partir de 10 anos de trabalho no
serviço público.
Associação vai pressionar decisão na Justiça
Os servidores
temporários, agora reunidos em uma associação registrada para defendê-los,
reuniram-se ontem no auditório da Santa Casa de Misericórdia do Pará, com o
objetivo de avaliar a decisão tomada na última sexta-feira (01), pelo
desembargador Marcos Lousada Maia. Relator do recurso do Estado contra a
decisão que obriga a demissão imediata de servidores temporários, Lousada
concedeu uma liminar que suspende os efeitos da decisão da juíza Ida Selene, da
13ª Vara do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), que havia imposto ao Estado multa
diária de R$ 30 mil, caso os temporários não fossem dispensados. Agora os
servidores aguardam a decisão do mérito, que só deve sair após o recesso do
Tribunal Regional do Trabalho (TRT), que começa no dia 20 de dezembro, ou seja,
em 2007.
Com a liminar,
o Estado foi isento de pagar a multa diária de R$ 30 mil, e passou a valer o
novo acordo entre governo e Ministério Público, que estende o prazo para a
substituição dos temporários por concursados para dezembro de 2007. Até o
julgamento do mérito o Estado vai manter as demissões suspensas, mas, segundo
Regina Braga, coordenadora da Associação dos Servidores Temporários do Estado
do Pará (ASTEP), os servidores desejam que a decisão do TRT seja tomada logo no
início do ano. 'Desejamos celeridade da Justiça para esse caso, e esperamos que
seja compatível com o acordo já existente, para diminuir a angústia que tem
tomado conta dos servidores públicos, que hoje são 90% da força de trabalho em
órgãos essenciais, como saúde e educação'ª, afirmou.
Para os
servidores, no entanto, a esperança de salvação está na aprovação da Proposta
de Emenda Constitucional 54 (PEC 54), que deve entrar na pauta do Congresso na
primeira semana de março de 2007. O deputado Zenaldo Coutinho (PSDB), que tem
se engajado na luta pela permanência dos temporários com mais de dez anos de
serviço público, conforme prevê a PEC 54, também esteve ontem na reunião. Ele
informou que já foi recebido pelo presidente em exercício do TRT, Elisiário
Bentes, e que também pediu a mesma celeridade no julgamento do mérito do
aditamento ao acordo com o MP. Ontem os temporários decidiram que, entre as
estratégias para sensibilizar a Justiça, vão organizar um cronograma de
manifestações que mostrem o grave quadro das instituições se houver a saída
drástica dos cerca de 16 mil servidores temporários
que ainda restam no Estado, após as demissões já feitas.
Mesa-diretora seleciona nomes para demissões
A mesa-diretora
da Assembléia Legislativa do Estado está começando a avaliar os nomes dos
servidores temporários que deverão ser dispensados a partir de janeiro, de
acordo com informações do presidente da Casa, Mário Couto (PSDB). A avaliação
será conjunta com a Comissão de Temporários da Alepa e a diretoria da
Associação de Servidores da Assembléia Legislativa (Asalp). Inicialmente,
informa Couto, serão dispensados os temporários cujos contratos vençam no final
deste mês. Na realidade, aqueles que foram contratados pela Alepa nos últimos
três anos não terão os contratos renovados.
Segundo
informações de Mário Couto, há 574 servidores temporários no Legislativo
paraense, mas parte deste grupo assinou contratos com a Casa há mais de dez
anos. 'Vamos manter o acordo realizado com o Ministério Público do Trabalho de
dispensar os temporários, a partir da primeira quinzena de janeiro, período em
que encerra o calendário eleitoral e a legislação nos permite contratar e
demitir', informa Couto.
O presidente da
Alepa também garante que à medida que os primeiros grupos de temporários forem
sendo demitidos, a mesa-diretora agilizará o processo de nomeação das pessoas
aprovadas no concurso público realizado pela Assembléia Legislativa no primeiro
semestre deste ano.
Em relação ao projeto de emenda constitucional do deputado Martinho
Carmona (PMDB), que prorroga os contratos dos temporários de toda
administração, Mário Couto informa que não tem certeza haverá tempo hábil para
colocar a matéria em pauta.