Aldo Rebelo não vê necessidade de convocação de Constituinte

10.08.2006


O presidente da Câmara Federal, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), discorda do presidente Luiz Inácio da Silva e diz que o momento é impróprio para a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva para a votação da reforma política. Ele lembra que há uma proposta de reforma pronta no Congresso e que basta aprová-la. “É o caminho mais rápido e eficaz”, disse Rebelo, ao participar hoje pela manhã, em Goiânia, da instalação do Fórum Legislativo de Desenvolvimento Econômico Sustentado do Estado de Goiás. Aldo Rebelo participou da solenidade, ocorrida na Assembléia Legislativa, a convite do deputado Fábio Tokarski (PCdoB). Em entrevista à imprensa, ele falou do desgaste político do Congresso e analisou a CPI dos Sanguessugas, de quem espera punição exemplar dos acusados. Ao ser indagado se essa onda de escândalos envolvendo parlamentares teria reflexo nas eleições deste ano, respondeu que a população vai julgar cada candidato, do presidente da República ao deputado estadual. “Eu creio que ano eleitoral é o ano mais apropriado para que a população corrija as deformações da vida política, renove a vida política do Brasil, e creio que nós todos temos essa expectativa, sem prejuízo das ações e das medidas que o próprio Congresso possa adotar, que o próprio Poder Judiciário também possa dotar, punindo aqueles que têm responsabilidades, que cometeram desvios”.

P – Em pleno ano eleitoral, é possível debater um tema tão importante como é o caso do Fórum de Desenvolvimento Econômico?

R – Eu creio que nada mais apropriado do que debater os rumos do crescimento, do desenvolvimento sustentável do que em um ano eleitoral. A eleição é exatamente o ambiente no qual os rumos da sociedade, do Estado e do país devem ser discutidos. Por esta razão, eu felicito a Assembléia Legislativa do Estado de Goiás, por compreender que o momento eleitoral é um momento sublime da vida da população e da vida do Estado em promover esse debate.

P – É possível em ano eleitoral, dar seqüência à política de depuração do Parlamento brasileiro?

R – Eu creio que ano eleitoral é o ano mais apropriado para que a população corrija as deformações da vida política, renove a vida política do Brasil, e creio que nós todos aguardamos temos essa expectativa, sem prejuízo das ações e das medidas que o próprio Congresso possa adotar, que o próprio Poder Judiciário também possa dotar, punindo aqueles que têm responsabilidades, que cometeram desvios, que não são dignos da vida política e nem da representação popular.

 

P – O Congresso nunca tinha sofrido tanto bombardeio. Até que ponto isso poderá ter influência nessas eleições?

R – Aí nós só vamos saber depois do julgamento da população. A população vai julgar cada candidato, do candidato a presidente da República ao candidato a deputado estadual. Mas, por outro lado, também, a Câmara tem a sua responsabilidade, tem o seu papel. A CPI (das Sanguessugas) está preparando um relatório. Quero que ele seja votado o mais rapidamente possível, e tão logo seja votado, a Câmara dos Deputados adotará todas as medidas cabíveis, de acordo com a gravidade da situação que, no meu ponto de vista, é muito elevada.

 

P – O brasileiro ficou um pouco decepcionado pelo fato de a CPI do Mensalão ter punido apenas três deputados. O que pode ser diferente agora, com a nova CPI?

R – Eu creio que quando você apresenta provas materiais, concretas – e nesse caso é desvio mesmo de dinheiro público, não é o caso de acordo entre partidos, como foi o caso da CPI do Mensalão - eu acho que a Câmara tenderá a ter um crritério mais rigoroso. A minha expectativa é que as punições para os casos comprovados de desvio de dinheiro público, separando naturalmente os que foram acusados injustamente, devam ser mais rigorosas.

P – O senhor assumiu um ministério importante (o da Articulação Política), depois assumiu a Presidência da Câmara dos Deputados. Se fosse possível fazer um balanço antes mesmo do término do seu mandato, o senhor diria que se sente de alguma forma decepcionado com o Legislativo?

R – Se eu fosse fazer um balanço da minha atividade política, eu teria que começar pelo Centro Acadêmico, na diretoria da UNE, há cerca de 30 anos, quando vim pela primeira vez em Goiás fazer uma passeata na Avenida Anhanguera. Mas eu acho que o momento é de olhar para o futuro, ter confiança no Brasil, na capacidade do nosso povo. E o Legislativo ele tem que se renovar, readquirir a confiança da população, dando provas da sua maturidade e do seu compromisso com o povo e com o país, votando matérias importantes para a população brasileira, como votou nos últimos três anos – a Lei de Biosegurança, a Parceria Público Privada, a Reforma Tributária, a Reforma da Previdência. Quando o Congresso vota matérias importantes para a população, ele tem credibilidade. Quando não vota naturalmente sofre questionamentos. Nós temos agora a lei geral da micro e pequena empresa, que precisa ser votada. Eu luto para que o Congresso vote matérias importantes para a população e para o país. Se ele fizer, ele tem credibilidade. Se não o fizer, vai ser permanentemente questionado.

 

P – O que o senhor pensa da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, exclusiva para votar a reforma política?

R – Acho que a reforma política é inadiável e uma coisa urgente para o Brasil. No entanto, não sei se tem necessidade de uma Assembléia Constituinte exclusiva, porque nós temos uma proposta, já pronta para votação – cujo relator é o deputado Ronaldo Caiado, do PFL de Goiás. A proposta teve a unanimidade da Comissão Especial. Ou ela pode ser votada este ano, se houver acordo entre os líderes, ou pode ser votada no próximo pelo Congresso. Não sei se uma constituinte exclusiva seria uma necessidade. Acho que nós temos um caminho mais rápido e mais eficaz, que é votar a proposta que já está pronta no Congresso.

 

P – Um Congresso tão atingido por denúncias, teria condições de votar uma reforma política?

R – O que nós temos discutir é se a reforma política é boa, ou não é? Não podemos esperar e ficar de braços cruzados, enquanto o país precisa da reforma política. Além do mais, é o seguinte. Não é o Congresso, é uma minoria de deputados. A não ser que alguém pense o seguinte: por que uma minoria foi denunciada, a maioria não faz nada. Fica sem votar. Acho que o país não quer uma atitude dessa.

 

P – Como está a tramitação da PEC do Cerrado, muito importante para a nossa região?

R – Nós temos naturalmente um desafio, que é compatibilizar a defesa do meio ambiente, com a necessidade do desenvolvimento do país. O Brasil precisa defender o meio ambiente e precisa crescer, desenvolver a nossa agricultura e a nossa indústria. E é compatibilizando essas duas necessidades que nós vamos negociar definitivamente essa proposta de emenda à Constituição.

 

P – Como o senhor recebeu a crítica do presidente Lula, que responsabilizou o Congresso pela demora na aprovação do projeto do Fundeb?

R – Nós temos no Congresso o desafio de combinar a representação do país com uma eleição muito acirrada. Aliás, na última vez, nós não votamos exatamente porque as lideranças do Governo acharam melhor não votar. Outra hora, as lideranças da oposição acharam melhor não votar. Então, há uma responsabilidade conjunta dos líderes dos partidos, e eu procuro convencê-los a superar essas dificuldades e desobstruir a pauta.

 

P – Como integrante do PC do B, o senhor tem acompanhado a participação do partido na sucessão em Goiás?

R – Tenho acompanhado pelo deputado e candidato ao Senado, Aldo Arantes, pelo deputado Fábio Tokarski, e tenho consciência de que o PCdoB procura cumprir o seu papel como força política, e que tem compromisso com o Estado de Goiás. Espero que o partido tenha êxito e que a campanha, em Goiás, seja conduzida em alto nível, porque há homens públicos candidatos qualificados, em todas as frentes constituídas. Acho que o povo de Goiás espera uma campanha de alto nível e com um debate profundo sobre os rumos e as necessidades do Estado.