A GUERRA DAS DROGAS

Fernando Machado da Silva Lima

 11.12.2000

 

      Todos sabem que o tráfico e o abuso existem, aqui e em todo o Mundo. Muitas vidas já foram arruinadas pelas drogas, tanto pelas drogas proibidas, como pelas legais, especialmente o álcool e a nicotina, e o problema se torna cada vez mais grave, mas a grande maioria prefere fazer de conta, e ignorar essa realidade, que decorre de outros problemas, mas é responsável pelo aprofundamento de inúmeros outros, podendo transformar as diversas tragédias pessoais isoladas em um desastre nacional ainda maior.

 

      Todos sabem que é muito fácil encontrar, na Praça Batista Campos, ou nas ruas do antigo ‘Belocentro’, alguns daqueles moleques magros, sujos e maltrapilhos, segurando aquelas garrafinhas de plástico azul, e a flanela amarela encardida, com os olhos esbugalhados pelo efeito da cola de sapateiro.

 

      Todos sabem também que pelas ruas ou pelos ‘points’ da moda, especialmente nas madrugadas do fim de semana, é ainda mais fácil encontrar alguns daqueles moleques gordos, perfumados e bem vestidos, segurando aqueles copos de uísque doze anos ou o volante do carrão importado, com os olhos esbugalhados pelo efeito do álcool ou das drogas.

 

      A chamada ‘Guerra das Drogas’, que começou nos Estados Unidos há vinte e cinco anos atrás, quando terminava a do Vietnam, é hoje um empreendimento global, como a própria economia americana, porque esse  conflito já se alastrou para além das fronteiras americanas, chegando à América Central, à América Latina e à nossa ( ? ) Amazonia. As tropas americanas já estão no Panamá e na Colômbia. O que começou como uma tentativa de controlar o uso da maconha pelos jovens americanos, e o incipiente mas persistente uso de drogas mais pesadas em alguns centros urbanos, já inclui hoje, como uma das possíveis ações, o bombardeio de fungos letais nas plantações de coca que abastecem o mercado norte-americano, nas cabeceiras do Rio Amazonas.

 

      Por mais incrível que possa parecer, as reações a essa notícia foram maiores nos Estados Unidos, onde a opinião pública começa a acreditar que o Governo está menos interessado em proteger as vidas ou a saúde do povo do que os empregos dos burocratas e dos policiais engajados nessa Guerra, que custou neste ano 17 bilhões de dólares ao contribuinte norte-americano.

 

      Uma recente pesquisa médica, divulgada nos Estados Unidos, concluiu que as drogas legais, prescritas pelos médicos, matam vinte vezes mais do que as proibidas, exatamente 106.000 americanos, em decorrência de reações a esses medicamentos. Os médicos matam muito mais gente, todos os anos, do que os traficantes de drogas, e essa revelação foi apresentada como uma forma de contestação contra a Guerra das Drogas. Segundo as estatísticas, a heroína e a cocaína mataram apenas 5.212 americanos.

 

      É claro, dizem os pesquisadores, que muito mais pessoas tomam essas drogas prescritas pelos médicos, e que por esse motivo o maior número de mortes é natural, mas que isso prova, também, que os políticos estão superestimando as conseqüências das drogas ilegais, aparentemente para justificar esse dispendioso programa governamental. A inocente aspirina matou duas vezes mais do que o LSD. A maconha não matou ninguém, mas 641.642 americanos foram presos, no ano passado, e o governo americano está tentando responsabilizar os médicos que receitam a maconha para as vítimas da Aids e do câncer.

 

      Proibir as drogas, transformando um problema médico em um problema policial, causa mais mortes, segundo o economista Milton Friedman, todos os anos, do que as próprias drogas, devido à violência resultante dos conflitos entre os usuários, os traficantes e a polícia. Na verdade, nenhuma solução radical poderá resolver esse problema, nem a simples proibição das drogas, deixando tudo nas mãos da polícia, nem a sua liberação total e incondicionada.

 

      Tudo indica que os Estados Unidos estão perdendo essa Guerra, como perderam a do Vietnam, nos anos sessenta, e também a Guerra do Álcool, com a chamada Lei Seca, nos anos vinte, que enriqueceu muitos ‘gangsters’ e muitos políticos.

 

      No Brasil, a CPI do Narcotráfico, no Congresso Nacional, já indiciou 400 pessoas, entre deputados federais e estaduais, empresários, policiais e traficantes, conforme O Liberal desta sexta-feira noticiou. Em Minas, até mesmo o deputado relator da CPI e o Chefe da Polícia estão sendo acusados do uso de drogas, e de ligações com os traficantes. Nos EEUU, os deputados não aceitaram a proposta para que eles próprios também fossem submetidos a exame, para verificar se são usuários de drogas.

 

      Mas no Brasil, onde a Constituição Federal, entre outras normas, estabelece restrições até mesmo à propaganda comercial do tabaco, e das bebidas alcoólicas (art. 220, § 4º), bem como à sua produção e comercialização (art. 225, § 1º), isso não tem impedido que o seu consumo aumente cada vez mais, nem que o tabaco seja, por mais incrível que possa parecer, um de nossos símbolos nacionais.

 

Acreditem, é verdade, porque nas “Armas Nacionais”, de acordo com a Lei 5.700/71, e com as alterações do Decreto-lei 5.812/72, da Lei 6.013/81 e da Lei 8.421/92, foram mantidas as normas do Decreto nº 4, de 19.11.1889, e da Lei 5.443/68, que dispõem a respeito do “escudo redondo em campo azul celeste, contendo cinco estrelas de prata, dispostas na forma da constelação do Cruzeiro do Sul, com a bordadura do campo perfilada de ouro, carregada de tantas estrelas de prata quantos forem os Estados da Federação”, e também a respeito da “espada, empunhada de ouro, contendo uma estrela de prata sobre uma coroa formada por um ramo de café e por outro de fumo florido...”

 

Mas o pior de tudo é que depois, quando alguém diz que este não é um País sério, muitos ainda ficam aborrecidos.

 

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