Jatene quer prova igual à da OAB nos cursos de
medicina
Brasília, 15/07/2007 – Em entrevista exclusiva à revista Istoé, o médico Adi Jatene, um dos principais responsáveis pelo
crescimento de duas das maiores instituições da cardiologia nacionais, o Instituto
do Coração e o Instituto Dante Pazzanese,
"A medicina não pode ser um
negócio"
Cirurgião
cardíaco pede mais honestidade e a criação de prova antes de dar registro
profissional aos novos médicos
Por MÔNICA
TARANTINO
O
médico Adib Domingos Jatene, 78 anos, acaba de receber uma homenagem memorável.
Por decisão do governo da Grécia e da Sociedade de Cardiologia daquele país,
foi laureado como um dos sete homens sábios do planeta no campo da cirurgia
cardiovascular. Um dos feitos que o tornaram respeitado internacionalmente foi a invenção da cirurgia que corrige uma grave alteração na
anatomia do coração Por MÔNICA TARANTINO dos recém-nascidos, chamada de
transposição das grandes artérias, mal incompatível com a vida. Mas há muitos
outros. A homenagem, feita em maio, tocou fundo o
médico nascido em Xapuri, no Acre, que há 53 anos milita para levar a rotina de
pesquisador em conjunto com a busca de soluções para a saúde brasileira. Um dos
principais responsáveis pelo crescimento de duas das maiores instituições da
cardiologia nacionais, o Instituto do Coração e o Instituto Dante Pazzanese,
ISTOÉ - Hoje há cerca de 160
escolas de medicina no País. Em 96, eram 82. Precisamos de tantas?
Adib Jatene - Há uma
desarrumação. O Ministério da Educação acredita que deve formar o maior número
de profissionais e que o mercado irá selecionálos. Em algumas profissões, não
há possibilidade de emprego para mais de 15% dos formandos. Porém, na medicina,
o mercado não tem condição de selecionar. Portanto, é necessário haver
estruturas para formar um médico capacitado ao atendimento que a população
precisa e, sobretudo, às emergências. Mas o problema é que há muitas escolas de
medicina sem locais de treinamento nem hospitais para os estudantes. Isso
prejudica a formação. As escolas fazem convênios com hospitais privados e
colocam os alunos lá, sem supervisão. O resultado é que a residência médica
(pósgraduação para completar a formação do estudante de medicina) acaba sendo
indispensável para a formação. Como pouco mais da metade dos alunos consegue
uma vaga, quem fica sem residência vai trabalhar nos serviços de emergência.
ISTOÉ - O primeiro emprego de
muitos jovens médicos é nos prontos-socorros, sem o treinamento adequado?
Jatene - Exatamente. É um
problema muito sério que começa a ser discutido.
ISTOÉ - Como impedir que
médicos despreparados atendam à população?
Jatene - Não é o diploma que
autoriza o indivíduo a exercer a profissão, é o registro no Conselho Regional
de Medicina, o CRM. Mas ele virou uma espécie de cartório. O recém-formado leva
o diploma e pega a carteira. Mas o Conselho Federal de Medicina, várias
entidades e profissionais como eu estamos pleiteando a criação de uma forma de
avaliação para conceder a carteira profissional. Equivaleria ao exame da Ordem
dos Advogados do Brasil. Com a multiplicação das escolas, essa medida é mais do
que necessária. Não se pode autorizar o indivíduo que não está preparado a
exercer a medicina.
ISTOÉ - O sr.
lançou há pouco o livro Cartas a um jovem médico - uma escolha pela vida. Qual
é o recado ?
Jatene - Quis lembrar que a
medicina é uma profissão peculiar. Não trata das coisas que as pessoas têm.
Trata da pessoa. Não pode ser um negócio, não é um meio de enriquecer, de
conquistar posição social. Pode acontecer, mas o seu objetivo é ajudar pessoas
que sofrem.
ISTOÉ - Há uma crise de
valores?
Jatene - Na minha avaliação,
o mundo globalizado e tecnológico trouxe muitos benefícios, mas trouxe grandes
prejuízos. O maior é que as pessoas passam a se movimentar por interesse,
esquecendo valores universais como ética, honra, lealdade, gratidão, amizade,
honestidade, que ficaram quase em segundo plano. E isso não pode ser aceito em
uma profissão como a medicina. O médico não faz algo porque aquilo irá
beneficiá-lo. Ele faz porque vai beneficiar o doente.
ISTOÉ - Quais as
conseqüências para a relação médico-paciente?
Jatene - É um grande
problema. No passado, o diagnóstico dependia do conhecimento do profissional,
que buscava sintomas e sinais físicos, detalhando-os com cuidado. Na medida em
que a tecnologia foi incorporada, a qualidade do diagnóstico melhorou muito.
Mas recorre-se mais do que o desejável aos métodos de diagnóstico por imagem,
por exemplo. Isso reduz o tempo que o médico conversa com o doente. Assim, o
risco de abusar da tecnologia é fazer o diagnóstico baseado exclusivamente nos
exames. E até tratar o exame, o que é uma distorção. Isso também tem influência
no ensino médico. A divisão da profissão em 53 especialidades e em 54 áreas de
atuação fragmentou o paciente. Diante de qualquer sintoma, o paciente vai
direto a um especialista, pois praticamente extinguimos os clínicos gerais (que
agora queremos recuperar). Se acertar, tudo bem. Senão, vai de um especialista
a outro. Temos de buscar é um médico capaz de atender a essas pessoas e encaminha-las.
Nas faculdades, essa preocupação já aparece na hora de decidir o conteúdo das
matérias.
ISTOÉ - Os recursos da saúde
brasileira tendem a diminuir?
Jatene - Há um problema
crônico de financiamento. Hoje gastamos, em média, US$ 400 per capita. Metade
desse valor vem dos pagamentos feitos à medicina suplementar. E apenas US$ 200
se referem a cada um dos 180 milhões de brasileiros atendidos pelo SUS. Países
europeus aplicam US$ 2.000 per capita. Na Constituição de 1988, está previsto
que a saúde deveria ser financiada com 30% do orçamento da Seguridade Social, o
que não ocorre. Pouca gente sabe a origem desses recursos.
ISTOÉ - Poderia explicar?
Jatene - O orçamento da
Seguridade é utilizado basicamente pelos ministérios da Previdência, Trabalho e
Saúde. É composto da arrecadação da Previdência Social, do Cofins, do
PIS-Pasep, da CPMF, de participações sobre o lucro líquido das empresas e da
loteria. O governo, em tese, teria pouca possibilidade de modificar essa
aplicação.
ISTOÉ - Como o governo reduz
os recursos da saúde?
Jatene - O governo criou a
Desvinculação dos Recursos da União, que permite destinar 20% desse dinheiro
para outras áreas. Também as aposentadorias dos funcionários públicos da União
passaram a ser pagas pela Seguridade. Foram dois golpes duros. Quando eu assumi
o Ministério, em
ISTOÉ - Há mais algum trâmite
que afete as verbas da saúde?
Jatene - Sim, o
descumprimento da Emenda 29, aprovada por influência do ministro José Serra.
Ela determina que a União deve destinar o que aplicou
no ano anterior e mais 5% sobre o crescimento nominal do Produto Interno Bruto.
Os Estados, um mínimo de 12% e os municípios, 15%. Não é o que se vê. O governo
federal, que era responsável por quase 70% dos recursos da saúde, dá apenas com
49%. E só sete Estados cumprem o mínimo constitucional
de 12%. Em compensação, muitos municípios colocam mais de 15%. Porém, quando
começa a melhorar o orçamento, a área econômica do governo introduz despesas
novas.
ISTOÉ - Pode dar exemplos?
Jatene - O programa Fome Zero
e o saneamento básico, que nunca foi do orçamento da saúde, embora tenha
importância fundamental. Temos de corrigir esse esquema financeiro. A mudança
começa por regulamentar a Emenda 29, ou seja, definir o que pode ou não pode
ser colocado no orçamento da saúde.
ISTOÉ - Há alguma garantia de
que a arrecadação reverterá para a saúde?
Jatene - Nenhuma. A única
forma é acompanhar a execução orçamentária. Isso já é feito de alguma forma
pelos conselhos municipais, estaduais e nacionais de saúde. Mas, como a nossa
cultura é autoritária, nós não sabemos praticar o debate democrático para fazer
reivindicações. Para isso acontecer, precisamos de mais honestidade
intelectual. Só quem é intelectualmente honesto pode admitir que o outro está certo. E assim vamos construindo um País.
ISTOÉ - Qual é o impacto dessa carência
de recursos constante no SUS?
Jatene - Ele é o melhor modelo de
atendimento à saúde do mundo, mas tem deficiências enormes. Uma delas é o
subfinanciamento. Outra é a falta de leitos. Em um levantamento que fiz na
cidade de São Paulo, apenas 11 distritos tinham mais de dez leitos por mil
habitantes. E havia 39 distritos, como o Capão Redondo, com quatro milhões de
pessoas sem nenhum leito. Por isso, hospitais e prontossocorros vivem
sobrecarregados. Recentemente, foram inaugurados 16 hospitais
ISTOÉ - Como o sr.
cuida da sua saúde?
Jatene - Faço tudo o que mando os meus
doentes fazer. Vê o terno que estou usando? Ele é de 12 de setembro de 1984 e
ainda cabe. Eu mantenho o peso, tenho circunferência abdominal menor do que
ISTOÉ - Qual é o futuro da cirurgia
cardíaca?
Jatene - Eu desejo ardentemente que a
doença coronária, por exemplo, seja resolvida com remédio. Estamos caminhando
para isso. Veja o infarto: 30% dos pacientes morriam depois de chegar ao
hospital. Aí se descobriram o mecanismo e um medicamento injetável que dissolve
o trombo. Antes de duas horas, também se pode levar para o cateterismo, que
desobstrui as artérias. Com isso, a mortalidade caiu para 3% a 5% e a perda
muscular é muito menor. A próxima fronteira é recuperar o músculo. É o que se
pretende com célula-tronco, mas ainda não há motivos para entusiasmo. Outro
avanço é o ventrículo eletromecânico, um equipamento que faz o trabalho de uma
parte do coração que bombeia o sangue. Trata-se de um projeto do qual participo
no Dante Pazzanese. Já foi usado em um bezerro que viveu 15 dias caminhando e
comendo. Agora esse ventrículo está praticamente pronto para ser testado em
corações humanos.