Se
a corrupção no Brasil tem uma longa história, a ponto de se tornar um elemento
cultural, uma visão de mundo que permeia a sociedade de alto a baixo, tudo
indica que agora chegamos ao clímax dessa mazela que, na verdade, se constitui
um dos empecilhos ao nosso desenvolvimento.
O mais recente escândalo, que envolve figuras da cúpula política e econômica, e
está presente no caso do banqueiro Daniel Valente Dantas, desnuda a zorra total
em que se converteu o mais alto comando do país e é indicativo do grau de
imoralidade pública a que se chegou. Se bem que os negócios escusos já tinham
suas ramificações em governos anteriores, estão bastante acentuados desde 2003
e viriam à luz se não fossem abafados pelo Executivo.
Afinal, o caso Dantas ficou rente ao promissor Lulinha
que, para orgulho de seu pai está tendo uma carreira, digamos, “empresarial”
vertiginosa. Colou de forma inconveniente no companheiro mais chegado do
presidente da República, seu chefe de gabinete Gilberto de Carvalho. Chegou
perto demais do braço direito de Sua Excelência, a ministra da Casa Civil,
Dilma Rousseff, indicada, pelo menos por enquanto pelo próprio Lula da Silva
para sucedê-lo. Mostrou ligações perigosas com o ainda poderoso José Dirceu.
Envolveu outros devotados colaboradores do presidente e do governo do PT, entre
os quais, o dedicado compadre Roberto Teixeira, o ex-deputado federal petista
Luiz Eduardo Greenhalg, o ex-ministro Luiz Gushiken, o colaborador do PT Marcos
Valério, o exótico ministro Mangabeira Unger, sem falar em deputados,
senadores, personalidades, empresas.
Para manter as aparências éticas, que o PT gostava de ostentar no passado, o
presidente Lula da Silva apareceu diante de câmaras e microfones para dar um
carão no delegado Protógenes Queiroz, responsável pelas prisões do banqueiro.
Protógenes foi afastado do caso pela PF, ou seja, em última instância pelo
próprio governo, mas Lula da Silva chamou Protógenes de mentiroso e disse que
moralmente ele tinha que permanecer no cargo. Mais um espetáculo da política, é
claro.
A bem da verdade, a prisão de Dantas, algemado, efetuada de modo espetacular e
devidamente televisionada, e de mais dezesseis pessoas, entre elas, Naji Nahas
e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta teve lances de Estado Policialesco.
Parece que o delegado reconheceu seus erros e exageros, mas supôs que não seria
defenestrado.
O problema, porém, não se circunscreve ás trapalhadas do delegado ou a
inconveniência do processo para a classe dominante. A questão mais grave está
na crise sem precedentes que o caso gerou no Judiciário, algo que num país
sério teria outros desdobramentos.
Dantas foi preso e solto duas vezes em uma semana, o que fez com que a Operação
da polícia, denominada de Satiagraha, fosse jocosamente denominada de solta e
agarra. O banqueiro foi solto por hábeas corpus concedidos pelo presidente do
STF, Gilmar Mendes, que considerou a prisão, da forma como foi feita, ilegal.
Tal ato desencadeou contra o ministro reações de repúdio da parte de juízes,
que se solidarizaram com o juiz Fausto Martins De
Sanctis que mandara prender Dantas duas vezes, e de promotores, sendo que
chegou a ser aventada a idéia de impeachment do presidente do STF. Mas enquanto
o caso se desenrola no vai vem do prende e solta cabe indagar o que significa
tudo isso.
Será que houve apenas o legitimo anseio de cumprir a lei, da parte do delegado
e do juiz? Mas se isso é verdade, por que nenhum petista envolvido foi preso?
Será que tudo não passa de manobra política para fortalecer ainda mais o
Executivo e destruir o Judiciário? Afinal, a rebelião de juízes e promotores
contra a instância máxima da Justiça significa a quebra total da hierarquia e o
achincalhamento do STF.
Será que tudo não passou de uma ação mirabolante de um delegado que se compraz
na luta de classes e combate os ricos para dar à sociedade aquele delicioso
prazer da vingança contra os poderosos?
Será que foi uma manobra de Tarso Genro, ministro da Justiça, para tomar o
lugar da mãe do PAC na próxima disputa presidencial?
Seja lá o que for o caso demonstra que há um perfeito conluio entre o poder
político e econômico. Mas se perguntado ao simples cidadão o que ele acha sobre
esse fragoroso escândalo, provavelmente ele responderá não tem conhecimento ou
entendimento do que está se passando.
Além do mais, no nível de degradação moral a que chegamos, o brasileiro comum é
aquele que diz que não devolveria dinheiro alheio se encontrasse, que aceita
por qualquer pagamento ser laranja, que gosta mesmo é de ligar a TV e assistir
um jogo do Corinthias. O brasileiro seja rico ou pobre é fácil de comprar, pois
está sempre em liquidação.
Neste contexto a maioria se compraz na adorável zorra total, misto de circo e
máfia que faz as delícias dos poderosos e dos bagrinhos espertos que sabem
achacar pedindo: “Dá dois pau ai pra mim, ô meu”.