VOVÓ DEÓ

Fernando Lima

Professor de Direito Constitucional

14.05.2009

 

    Mas meu netinho, eu não estou entendendo mais nada, até parece que o mundo está de pernas para o ar. Por que será que agora estão querendo até mesmo proibir uma tal de grilagem? Eu vi ontem, na televisão. Deram até os nomes dos criadores de grilos. Antigamente, ninguém criava grilos, nem lá em Portugal, nem aqui no Brasil, e se criasse, ninguém iria proibir, ora pois.

 

    Tentei explicar o que significa o termo “grilagem”, mas a vovó não se convenceu. Ao contrário, continuou insistindo: então me explique lá, meu netinho, já que tu sabes de tudo,  por que todos se preocupam tanto com o castelo daquele deputado? Todos os dias, a televisão fala sobre esse assunto, e eu não entendo mais nada. O castelo não é dele?  O povo não elegeu esse deputado? É crime ter um castelo? Se fosse por isso, lá em Portugal, temos tantos! Esta minha televisão está cada vez mais esquisita.

 

Tu sabes o que eu acho? Até parece que eles colocam certas notícias só para encher lingüiça, porque eles não têm mais nenhum assunto. Só querem saber de criticar e de falar mal da vida dos outros.

 

 Tu sabes o que está faltando aqui no Brasil? Que cada um cuide da sua vida, e cuide do seu trabalho, porque essa mania de ficar criticando a vida alheia, e se preocupando com a fortuna dos outros, não dá certo. No fim, ninguém trabalha, e só querem fuxicar. A verdade é que, quando todos criticam, ninguém tem razão.

 

    Ainda no outro dia, fiquei acordada até mais tarde, porque estava com insônia, e a minha televisão estava passando um noticiário sobre uma rapariga, uma que saiu daquele tal de BBB, que era mesmo bem sapeca, da canoa quebrada. Mas eu também não entendi por que colocar na televisão esse assunto, que só interessa a ela e aos pais dela.

 

    Mas deixa eu te contar o que me aconteceu na semana passada, para tu veres como não existem motivos para tantas críticas. Eu acho até que o governo é ótimo, porque se preocupa muito com o povo. Tu sabes que eu, com a minha idade, já não posso andar muito, porque não enxergo bem, e porque fico com as pernas cansadas. Pois bem. Na semana passada, eu fui ao Banco, ali na Doca. Sabes qual é? Aquele que fica no canto da Boaventura. Há muito tempo que eu não ia lá, mas a Maria foi comigo. Fui sacar uns trocados, das minhas economias, para comprar outra televisão, porque já estou cansada desta, que só tem fuxicos e notícias ruins.

 

 

Quando saí do Banco, atravessei a faixa de segurança, e sabes tu que do outro lado da rua, agora existe uma bonita construção? Precisas ver só. Toda de alvenaria, moderna, toda mobiliada, bem em cima da calçada, um luxo. E bem na direção da faixa de segurança. Você atravessa, e vai logo entrando. Ficamos lá dentro quase uma hora, eu e a Maria, sentamos numa poltrona, e os rapazes que cuidam da casa foram muito simpáticos conosco. Tomamos cafezinho, conversamos com eles, e também gostei muito da televisão que eles colocaram lá para as pessoas assistirem. É muito maior do que a minha, e só passa notícias boas, como por exemplo a de que aquele menino, o Lula, já disse que os hospitais estão preparados para a tal da gripe suína. Outra notícia interessante foi aquela que dizia que devido à chuva intensa, aconteceram alagamentos, acidentes, o trânsito ficou congestionado, faltou luz e aconteceram também muitos assaltos.

 

Tu já pensaste? Era só o que faltava, acontecerem muitos assaltos só porque desligaram a luz! Será que vamos ter que voltar a fabricar velas, lá na Casa O Círio, e distribuir para as pessoas, para que elas não sejam assaltadas? Mas eu não entendo isso. Por que eles dizem que devido à falta de luz as pessoas serão assaltadas na rua? Ora, bolas. Será que eles não vêem logo que no escuro os bandidos não conseguem achar as suas vítimas? 

 

Nessa hora, eu acordei. Era tudo um sonho. Eu estava conversando com a minha avó, mas era apenas um sonho, porque ela já faleceu há mais de trinta anos, mas foi muito bom rever a minha avó Deolinda, e felizmente eu não vou ter que explicar o noticiário da televisão. Acho que a única saída seria mesmo dizer que o aparelho dela está com defeito. Vocês sabem como é: as pessoas de idade acham que já viram tudo, e que as coisas já são mesmo tão ruins, que não podem piorar.