UMA PERGUNTA PARA O PAPA BENTO XVI
Atahualpa
FernandezÓ
"Por seus frutos os conhecereis.”
Seria realmente
interessante, revelador e inusitado que um dos jovens peregrinos, inspirado por
Robredo Zugasti[1] e a quem fosse concedida a “graça” de participar no
turno popular de perguntas da missa de “Cuatro Vientos”[2], se dispusesse a perguntar para o “infalível” Papa
Ratzinger (a) se segue estando de
acordo com a recomendação de seu antecessor João
XXIII de
manter em segredo os casos de abusos sexuais dentro da igreja católica; (b) se continua acreditando que a Santa
Sé, e não os tribunais seculares, deve manter uma "competência
exclusiva" sobre esses delitos; e - já que estamos - (c) que castigo deveria ser aplicado ou crê que seria humanamente
justo aos sacerdotes que levam a um extremo intolerável o “Deixai vir a mim as crianças, e não as impeçais,...” (Lucas 18:
16-17).
E
não se trataria, depois de tudo, de uma pergunta tão despropositada, uma vez
que a suposta postura do Sumo Pontífice sobre os critérios autorizados
para julgar, reparar e punir esse tipo
de crime é, nas palavras de A. C. Grayling, como sugerir “a la zorra que dicte
el reglamento para la caza del zorro”. Por exemplo, em um recente e
assombrosamente penetrante discurso concernente ao informe Cloyne sobre o escândalo dos abusos sexuais por parte do
clero católico, o primeiro ministro de Irlanda, Enda Kenny, afirmou:
“Por primera vez en Irlanda, un
informe sobre abuso sexual infantil muestra un intento de la Santa Sede para
frustrar una investigación dentro de una república soberana y democrática. Hace
tres años, no tres décadas. Al llevar esto a cabo, el informe Cloyne excava en
las disfunciones, la desconexión, el elitismo y el narcisismo que domina la
cultura actual del Vaticano.
(...) El Cardenal Joseph
Ratzinger (actual papa Benedicto) ha dicho: "Las normas de conducta
apropiadas para la sociedad civil o el funcionamiento de una democracia no
pueden ser aplicados pura y simplemente a la iglesia."
En el momento en que la Santa
Sede prepara su respuesta al informe Cloyne, como primer ministro, quiero dejar
totalmente claro que por lo que respecta a la protección de los niños de este
Estado, las normas de conducta que la iglesia considera adecuadas para sí
misma, no pueden ser y no serán aplicadas al funcionamiento de la democracia y
de la sociedad civil en esta república.[…]
Esto no es Roma. Es la República
de Irlanda”[3].
Mas, ainda que um chefe de Estado tenha dito, por fim e publicamente, a verdade,
Robredo Zugasti recorda que “el jefe de los pederastas, y principal responsable
de los obstáculos interpuestos entre los criminales y la justicia secular,
visitará Madrid éste […] agosto y será
recibido con todos los honores por un presidente y por un gobierno que aseguran
ser progresistas”.
E embora não pareça
existir nenhuma “razão cristã” que justifique tentar penetrar com nossa
limitada e pecadora inteligência humana na incomensurável e infalível
deliberação papal – e talvez nem deveríamos intentar, pois seria um pecado de
soberbia – o certo é que, independentemente de nossas posições pessoais, seja de
acordo com uma ideologia progressista ou conservadora, de acordo com a direita
ou esquerda, em termos confessionais ou laicos, as normas da moral (e
principalmente do direito) a que chamamos civilizada proíbem excluir da
apreciação dos tribunais seculares de
cada Estado soberano, de forma incondicional, a apuração e a penalização de tão
bárbaros, pusilânimes, injustificados, insuportáveis e imperdoáveis delitos.
Não é necessário ser nenhum sábio para dar-se conta do fato evidente de
que a mencionada postura da Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, seguindo os ditames de Deus, de
quem (ou “do que”) o Papa é vicário e agente exclusivo na Terra, é de um cinismo atroz e sádico e/ou de uma prepotência
perversa, tendenciosa, monstruosamente protetora e irredimível. Tentem explicar
a um pai e/ou uma mãe com uma inteligência normal que o sacerdote que violou e
abusou de seu filho pequeno será julgado e “punido” pela mesma instituição religiosa (uma comunidade de interesses
claramente particulares) que o acolhe, “educa”, protege e sustenta;
expliquem-lhes também que essa alternativa exclui qualquer possibilidade de que
esse hipotético sacerdote (abusador e violador) seja julgado e punido por um
poder estatal legitimamente constituído e com as garantias, a imparcialidade e
sanções próprias de um Estado de Direito. E perguntem depois a esse pai/mãe
qual dessas duas opções elegeriam. Podem estar seguros de que, salvo no caso de
que padeçam de alguma lesão cerebral, sua resposta seria “a segunda”.
Que um Estado soberano não queira submeter-se às leis de outro é algo
bastante lógico. Mas, formalismos jurídicos a parte, o Vaticano não resulta um
país ao uso. Qualquer pessoa que tenha visitado suas dependências haverá
concluído por si mesma de que se trata de uma espécie de ficção - ao estilo de
outras como a de Mônaco, para por um exemplo; uma “papalândia” para devotos que sequer pertence à União Européia
- só viável na medida em que o Estado de verdade, Italia neste caso, o tolere.
Seu verdadeiro reino não é deste mundo de liberdade e igualdade, impostos e
delitos, leis e códigos pactados, senão
do outro, tido por espiritual, no qual qualquer coisa é possível sempre
que os fiéis aceitem que procede da comunicação direta que se supõe que existe entre o Papa e a divina trindade.
Graças a esse despotismo ilustrado, a Igreja leva muitos séculos de
provada eficácia administrativa na tarefa ingente de controlar todo o orbe
católico. E o único que esse cariz espiritual é capaz de justificar está
limitado aos assuntos próprios dos
dogmas católicos: como se há bases teológicas e litúrgicas para crer que as
almas das crianças mortas sem batizar vão diretamente ao paraíso; se há algum
mandado divino que envie diretamente ao inferno e sem escala os sacerdotes que
abusam de menores inocentes; se é certo que
ver as penas dos condenados no inferno incrementa a felicidade dos beatos no
céu; ou até mesmo a oportunidade de devolver às mulheres a alma, que lhes foi
negada por razões teológicas.
Daí que resulte evidente que a legislação de um verdadeiro Estado
soberano acabe chocando cedo ou tarde com toda aquela que derive da vontade de
qualquer deus expressada da única forma possível: por meio de seus
representantes terrenais. A Reforma
protestante resolveu o conflito aplicando de maneira taxante o princípio de dar
a César o que é de César. Assim que a postura do Vaticano de furtar-se
covardemente às leis seculares nos conduz a uma época anterior da que separou
Igreja e Estado, com umas consequências difíceis de aceitar e avaliar “a bote
pronto”. De fato, ceder aos caprichos da Santa Sé neste assunto pode gerar
enormes problemas: imaginem, por um momento, se a mesma postura fosse adotada
por alguns líderes
religiosos islâmicos, pelo Arcebispo de Canterbury ou, no pior dos casos,
pelo obispo Edir Macedo? Imaginem o que ocorreria se todas essas autoridades
espirituais pretendessem excluir a potestade de um juiz para decidir sobre um
delito de pedofilia praticado por um dos membros de suas respectivas religiões? Cabem poucas dúvidas acerca de que o gesto do
Vaticano ao proclamar-se soberano em termos legais não passa de um ataque gratuito e desesperado, uma forma mais
de seguir fazendo muito dano ao mundo, por mais que reivindique que a bondade é
seu patrimônio.
Nem sequer aqueles que crêem na
existência de um Deus providencial, que vela pelo bem estar de todos e cada um
de nós – ou daqueles que ao menos rezam para Ele -, seriam capazes de imaginar
que os poderes mais altos de um Estado fossem excluídos da potestade de
apreciar e julgar as pretensões de cada cidadão por ver aliviada suas
particulares desgraças pessoais. Apoiar as teses do infalível Ratzinger se
converteria, depois de tudo, em uma bandeira defendida curiosamente por aqueles
que parecem não ter (ou se negam a ter) uma dimensão real do sofrimento humano
quando este ronda a impessoalidade: quem, em seu sano juízo e livre vontade,
gostaria de ver um sacerdote violador de um filho julgado pelo Vaticano? Melhor
dito: quem, em seu sano juízo e livre vontade, gostaria de “viver” em um Estado
impotente para julgar e castigar um sacerdote violador de um filho, um neto, um
sobrinho querido..., ou até mesmo de um “filho do vizinho”?
Ademais, é preciso dizer, os discursos
do Papa Bento XVI no último JMJ servem para recordar-nos que a religião
católica sobrevive principalmente graças a sua capacidade de reinventar-se a si
mesma tantas vezes quanto seja necessário e ao poder de conseguir que seus
jovens devotos permaneçam em um feliz estado de “infância intelectual”. A
ameaça do inferno, a exigência de pobreza e castidade, o medo cristão ao sexo e
a correlativa misoginia, o silêncio e as limitações que Paulo impôs às mulheres,
entre outras aberrações, se há dissipado e substituído por alegres sessões de
músicas, cantos e sorrisos fastidiosos, com outra difusa e sutil letra de
fundo: 1. que a verdade e a justiça são relativas; 2. que uma coisa é boa ou má
dependendo da ocasião e da conveniência da Igreja, a única representante de
Deus na Terra, a única legitimada para interpretar suas Escrituras e ensinar
suas ovelhas; 3. que o homem virtuoso não se modela a si mesmo de forma livre e
autônoma e que a virtude se consegue por assistência divina, sempre
intermediada pela Igreja – isto é, de que não se salvará por seus méritos,
senão porque está elegido ou predestinado por Deus e escolhido assim por sua
“graça”, caprichosa ou gratuitamente distribuída pelo Senhor ( gratia gratis data, disse o paulino
Agostinho) e; 4. que os “bem-aventurados são os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus;
os que choram, porque serão consolados;
os mansos, porque possuirão a terra; os que têm fome e sede
de justiça, porque serão saciados; os pacíficos porque serão chamados
filhos de Deus; os que são perseguidos por causa da justiça, porque
deles é o Reino dos Céus”. Por essa via parece mais fácil tragar
as iluminadas, dissimuladas e intransigentes posturas eclesiásticas, levando
suas mansas e pacíficas ovelhas a aceitar “em silêncio”, entre outros
disparates, que os “podres” e “fracos de espírito” sacerdotes pedófilos sejam
deixados ao juízo exclusivo de Deus, por intermédio de seus legítimos vicários.
Mas como nunca será
demasiado tarde para insistir na real possibilidade de construção de uma
sociedade justa e decente, o que eu realmente desejo é que em 2013 os jovens
não peregrinos, os laicos, tenham a oportunidade, como ocorreu em Madri, de
manifestarem abertamente seus motivos de indignação. Que se convertam em
militantes, fortes e comprometidos com um humanismo secular, com a idéia de que
qualquer concepção ética deriva de uma boa compreensão da natureza humana e da
condição humana no mundo real. Esse tipo de humanismo tende a uma maior
justiça, maior liberdade, a tomar consciência, entre outras coisas, da
necessidade de protestar publicamente contra toda e qualquer postura
estapafúrdia (e especialmente repugnantes desde um ponto de vista moral e
jurídico) da Santa Sé e a basear-se em direitos, cuja violação, qualquer que
seja o autor, deve provocar nossa indignação. Não cabe transigir com respeito a
forma de punir e reparar a violação de nossos direitos. Só é necessário abrir
bem os olhos, ser compassivo e usar a razão.
Ó Professor Colaborador Honorífico (Livre Docente) e Investigador da
Universitat de les Illes Balears/Espanha. Cognición y
Evolución Humana / Laboratório de Sistemática Humana/ Evocog. Grupo de Cognición
y Evolución humana/Unidad Asociada al IFISC (CSIC-UIB)/Instituto de Física
Interdisciplinar y Sistemas Complejos/UIB; Membro do Ministério Público da
União /MPT.
[1]
http://www.revolucionnaturalista.com/
[2] Antes, evidentemente, de que a tormenta desbaratasse os planos
eclesiásticos. Uma forma imaginativa de explicar a imprevista tormenta seria a
seguinte: Se um peregrino estrangeiro, naquele momento e lugar, perguntasse a
outro camarada espiritual local de donde vem tanta chuva, creio que algo bonito
para responder-lhe seria: “Deus está chorando”. E se perguntasse por que Deus
está chorando, outra coisa bonita para dizer-lhe seria: “Provavelmente por algo
que estamos fazendo”.
[3]
http://www.revolucionnaturalista.com/