TARSO GENRO CRITICA OAB
04/08/2008 -
Fonte: Correio Braziliense
Na quinta-feira, o ministro da Justiça,
Tarso Genro, viveu um dia tenso. O momento mais nervoso da agenda foi um
encontro com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto.
A entidade está em ofensiva para impedir que o governo vete o projeto de lei
que aumenta a garantia de inviolabilidade dos escritórios de advocacia. Na
entrevista ao Correio, no final do dia, o ministro deixou claro que as relações
entre o governo e a Ordem passam por um momento delicado.
O ministro demonstrou irritação com o discurso da OAB, para quem as ações da Polícia Federal colocam em risco o Estado de
Direito no Brasil. “Quando os inquéritos eram contra o governo Lula, a OAB
quase pediu o impeachment do presidente”, diz. “Agora, diz que corremos o risco
de um Estado policial. Isso não é verdadeiro.” Apesar disso, o governo prepara
uma nova lei contra o abuso da autoridade. O ministro quer acabar com os
vazamentos de informações e com a exposição de pessoas presas. “É uma pena
antecipada, pela execração pública.”
A Operação Satiagraha,
da Polícia Federal, levantou uma série de críticas sobre a exposição de presos,
a atuação da PF de uma forma geral e acabou culminando com a saída do delegado Protógenes Queiroz. O senhor diria que a operação perdeu
fôlego porque chegou perto do Palácio do Planalto?
Ela recuperou fôlego com o grupo de
policiais que foram designados para fazer o trabalho. Os erros cometidos na
operação não tiram a importância do trabalho, até do
próprio delegado que comandou o inquérito. A operação visivelmente saiu do
manual. O exemplo mais flagrante, além dos vazamentos, foi a
exposição de pessoas sendo algemadas, presas em casa, o que está
terminantemente proibido pelo manual da Polícia Federal, instituído na minha
gestão.
O governo está decidindo se veta a lei que blinda os escritórios de advocacia
contra investigações. O senhor, como advogado, acha certo que um escritório
seja inviolável?
O escritório tem que ser tão inviolável quanto a
residência das pessoas, como expresso na Constituição. Temos que fazer uma
discussão política e jurídica para não cairmos numa postura passional. O
governo deve mostrar que está preocupado com as prerrogativas dos advogados e
consagrar o direito da defesa, mas sem cair numa visão fantasiosa de que
advogados não são usados pelo crime organizado.
Durante o primeiro governo do presidente Lula, quando eram realizadas ações
espetaculares e ocorreram buscas e persecuções de advogados, essa questão não
foi tematizada. A própria OAB fez um movimento quase
que em direção ao impeachment do presidente, sem fazer qualquer crítica aos
inquéritos que ocorreram naquela oportunidade. Agora, quando os inquéritos da
Polícia Federal se destinam a todos os políticos, independentemente de sigla
partidária, e a todas as classes sociais, a OAB coloca na roda uma outra
discussão: Estado de direito ou Estado policial, como se estivéssemos à beira
de transitar para um Estado policial. Esse ponto de partida jurídico e político
eu não aceito para avaliar esse projeto de lei que foi votado no Congresso.
A acusação de autoritarismo é constante com relação ao governo Lula. Ele se
direciona para um Estado policial?
Isto não tem nenhuma base na realidade. O melhor seria falar então em um Estado
de ditadura judicial e não num Estado policial. Num Estado policial, a polícia
age com independência em relação a todos os Poderes, ela se constitui num Poder
autônomo. Num Estado de direito, a polícia age a partir de mandados judiciais.
Essa crítica tem que ser dirigida ao Ministério Público e ao Poder Judiciário e
não à Polícia Federal.
O senhor se reuniu com o presidente da OAB, Cezar Britto, que tem feito essa
crítica ao governo. Foi uma saia justa?
Temos uma divergência conceitual. À medida em que a
OAB convoca um congresso chamado Estado de direito e Estado policial está
sugerindo que há risco de transitar para um Estado policial. E isso não é
verdadeiro.
O governo prepara uma nova lei contra o abuso de autoridade. O que será
proposto?
A lei é da década de 1940 e é muito
genérica. Nós temos que ser mais rigorosos nas penas e também temos que
vincular ainda mais a responsabilidade do agente que realiza qualquer tipo de
ação fora do Estado de direito. Teremos que incorporar algo relacionado com
abuso de autoridade a partir do uso dessas novas tecnologias que estão
disponíveis.
O grampo?
A impressão que eu tive quando a OAB falou
em grampos feitos pela Polícia Federal com ordem judicial foi que se referia a gravações de diálogos dos advogados com os clientes.
Comuniquei ao presidente da OAB que há cinco meses mandamos para a Câmara
Federal um projeto de lei no qual está afirmada a proibição de gravação e a
reserva de informação daquilo que é retirado do diálogo do cliente com o
advogado.
Expor a imagem dos presos em operações da PF é abuso de autoridade?
Não tenho a menor dúvida. Esse é um
exemplo. Isso não está claramente definido na lei de abuso de autoridade em
vigor. Naquela época, a potência dos meios de comunicação era irrelevante diante
do que é hoje. A evolução dos meios de comunicação, da transmissão de imagem,
inclusive da transmissão da imagem em close das pessoas que estão sendo
detidas, expõe as pessoas a uma exposição totalmente indevida. Constitui uma
pena antecipada, sustentada pela autoridade policial, que é totalmente
inconstitucional e errada. A nova lei vai ter regras claras para que isso não
aconteça e punição para o agente que cometer essa atitude.
O senhor falou em reforma política. O governo já definiu como será o seu projeto?
Vamos apresentar um conjunto de propostas
que represente um programa máximo de reforma e dentro delas teremos um programa
mínimo, que significará um avanço para o sistema político brasileiro e será o
início de um processo de reforma. Definido pela discussão entre nós está o
financiamento público de campanha, a proposta do voto em lista (que nós sabemos
que é difícil de aprovar, mas é importante). Fidelidade com uma cláusula de
reserva que permita a passagem de um partido para outro, uma janela de tempo
modesta e não atrativa. Verticalização das
coligações, uso do tempo na TV. E uma cláusula de barreira moderada, mas que
combinada com a verticalização e o uso do tempo na TV
preserve os partidos ideológicos como o PCdoB,
mas gradativamente vá extinguindo os partidos de aluguel.
O senhor foi um grande defensor da lei seca. Que outras medidas o Ministério da
Justiça prepara para endurecer a legislação de trânsito?
O próximo passo é atualizar o valor das multas e eventualmente elevar o valor
de alguma multa para aproveitar uma mudança de cultura que está havendo. A lei
é um sucesso. Ela está mudando os hábitos. Há uma grande solidariedade,
principalmente dos pais, mas também de parte da juventude, que começa a checar
sua relação lúdica com o mundo a partir da bebida. Além de uma forma de
organização social nova, que é a busca do amigo da vez, por exemplo.