Sarney, o homem incomum
Carta Capital
25.06.2009
Leandro Fortes
Há anos, nem me lembro mais
quantos, os principais colunistas e repórteres de política do Brasil, sobretudo
os de Brasília, reputam ao senador José Sarney
uma aura divinal de grande articulador político, uma espécie de gênio da raça
dotado do dom da ponderação, da mediação e do diálogo. Na selva de preservação
de fontes que é o Congresso Nacional, estabeleceu-se entre os repórteres ali
lotados que gente como Sarney – ou como Antonio Carlos Magalhães, em tempos não
tão idos – não precisa ser olhada pelas raízes, mas apenas pelas folhagens.
Esse expediente é, no fim das contas, a razão desse descolamento absurdo do
jornalismo brasiliense da realidade política brasileira e, ato contínuo, da
desenvoltura criminosa com que deputados e senadores passeiam por certos
setores da mídia.
Olhassem Sarney como ele é, um
coronel arcaico, chefe de um clã político que há quatro décadas domina a ferro
e fogo o Maranhão, estado mais miserável da nação, os jornalistas brasileiros
poderiam inaugurar um novo tipo de cobertura política no Brasil. Começariam por
ignorar as mentiras do senador (maranhense, mas eleito pelo Amapá), o que
reduziria a exposição de Sarney em mais de 90% no noticiário nacional. No Maranhão,
a família Sarney montou um feudo de cores patéticas por onde desfilam parentes
e aliados assentados em cargos públicos, cada qual com uma cópia da chave do
tesouro estadual, ao qual recorrem com constância e avidez. O aparato de
segurança é utilizado para perseguir a população pobre e, não raras vezes, para
trucidar opositores. A influência política de Sarney foi forte o bastante para
garantir a derrubada do governador Jackson Lago, no início do ano, para que a
filha, Roseana, fosse reentronizada no cargo que, por
direito, imaginam os Sarney, cabem a eles, os donatários do lugar.
José Sarney é uma vergonha para
o Brasil desde sempre. Desde antes da Nova República, quando era um político
subordinado à ditadura militar e um representante mais do que típico da elite
brasileira eleita pelos generais para arruinar o projeto de nação – rico e
popular – que se anunciava nos anos 1960. Conservador, patrimonialista
e cheio dessa falsa erudição tão típica aos escritores de quinta, José Sarney
foi o último pesadelo coletivo a nós impingido pela ditadura, a mesma que ele,
Sarney, vergonhosamente abandonou e renegou quando dela não podia mais se
locupletar. Talvez essa peculiaridade, a de adesista profissional, seja o que
de mais temerário e repulsivo o senador José Sarney carregue na trouxa política
que carrega Brasil afora, desde que um mau
destino o colocou na Presidência da República, em março de 1985, após a morte
de Tancredo Neves.
Ainda assim, ao longo desses
tantos anos, repórteres e colunistas brasileiros insistiram na imagem
brasiliense do Sarney cordial, erudito e mestre em articulação política. É
preciso percorrer o interior do Maranhão, como já fiz em algumas oportunidades,
para estabelecer a dimensão exata dessa visão perversa e inaceitável do jornalismo
político nacional, alegremente autorizado por uma cobertura movida pelos
interesses de uns e pelo puxa-saquismo de outros. Ao olhar para Sarney, os
repórteres do Congresso Nacional deveriam visualizar as casas imundas de taipa
e palha do sertão maranhense, as pústulas dos olhos das crianças subnutridas
daquele estado, várias gerações marcadas pela
verminose crônica e pela subnutrição idem. Aí, saberiam o que perguntar ao
senador, ao invés de elogiar-lhe e, desgraçadamente, conceder-lhe salvo conduto
para, apesar de ser o desastre que sempre foi, voltar à presidência do Senado
Federal.
Tem razão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao afirmar, embora pela
lógica do absurdo, que José Sarney não pode ser julgado como um homem comum. É
verdade. O homem comum, esse que acorda cedo para trabalhar, que parte da
perspectiva diária da labuta incerta pelo alimento e pelo sucesso, esse homem,
que perde horas no transporte coletivo e nas muitas filas da vida para, no fim
do mês, decidir-se pelo descanso ou pelas contas, esse comum é, basicamente,
honesto e solidário. Sarney é o homem incomum. No futuro, Lula não será julgado
pela História somente por essa declaração infeliz e injusta, mas por ter se
submetido tão confortavelmente às chantagens políticas de José Sarney, a ponto
de achá-lo intocável e especial. Em nome da governabilidade, esse conceito em
forma de gosma fisiológica e imoral da qual se alimenta a escória da política
brasileira, Lula, como seus antecessores, achou a justificativa prática para se
aliar a gente como os Sarney, os Magalhães e os Jucá.
Pelo apoio de José Sarney, o
presidente entregou à própria sorte as mais de seis milhões de almas do
Maranhão, às quais, desde que assumiu a Presidência, em janeiro de 2003, só foi
visitar esse ano, quando das enchentes de outono, mesmo assim, depois que
Jackson Lago foi apeado do poder. Teria feito melhor e engrandecido a própria
biografia se tivesse descido em São Luís para visitar o juiz Jorge Moreno.
Ex-titular da comarca de Santa Quitéria, no sertão
maranhense, Moreno ficou conhecido mundialmente por ter conseguido erradicar
daquele município e de regiões próximas o sub-registro civil crônico, uma das
máculas das seguidas administrações da família Sarney no estado. Ao conceder
certidão de nascimento e carteira de identidade para 100% daquela população, o
juiz contaminou de cidadania uma massa de gente tratada, até então, como gado sarneyzista. Por conta disso, Jorge Moreno foi homenageado
pelas Nações Unidas e, no Brasil, viu o nome de Santa Quitéria virar nome de
categoria do Prêmio Direitos Humanos, concedido anualmente pela Secretaria
Especial de Direitos Humanos da Presidência da República a, justamente, aqueles
que lutam contra o sub-registro civil no País.
Em seguida, Jorge Moreno
denunciou o uso eleitoral das verbas federais do Programa Luz Para Todos pelos
aliados de Sarney, sob o comando, então, do ministro das Minas e Energia Silas Rondeau – este um
empregado da família colocado como ministro-títere dentro do governo Lula, mas
de lá defenestrado sob a acusação, da Polícia
Federal, de comandar uma quadrilha especializada em fraudar licitações
públicas. Foi o bastante para o magistrado nunca mais poder respirar no
Maranhão. Em 2006, o Tribunal de Justiça do Maranhão, infestado de aliados e parentes
dos Sarney, afastou Moreno das funções de juiz de Santa Quitéria, sob a
acusação de que ele, ao denunciar as falcatruas do clã, estava desenvolvendo
uma ação político-partidária. Em abril passado, ele foi aposentado,
compulsoriamente, aos 42 anos de idade. Uma dos algozes do juiz, a corregedora
(?) do TER maranhense, é a desembargadora Nelma
Sarney, casada com Ronaldo Sarney, irmão de José
Sarney.
Há poucos dias, vi a cara do
senador José Sarney na tribuna do Senado. Trêmulo, pálido e murcho, tentava
desmentir o indesmentível. Pego com a boca na botija,
o tribuno brilhante, erudito e ponderado, a raposa velha indispensável aos
planos de governabilidade do Brasil virou, de um dia para a noite, o mascate
dos atos secretos do Senado. Ao terminar de falar, havia se reduzido a uma
massa subnutrida de dignidade, famélica, anêmica pela falta da proteína da
verdade. Era um personagem bizarro enfiado, a socos de pilão, em um jaquetão
coberto de goma.
Na mesma hora, pensei no povo
do Maranhão.