O pior
resultado da história. Esta é a avaliação em relação à quantidade de bacharéis
em Direito aprovados na primeira fase do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil
no estado de São Paulo. Dos 18.925 candidatos inscritos, apenas 2.233
conseguiram número suficiente de pontos para prosseguir no exame, o que
corresponde a 88% de reprovação. Situação semelhante só foi vista em 2005,
quando apenas 12,87% dos inscritos passaram na primeira prova e só 7,16%
conseguiram a licença da Ordem para advogar.
Entre
os demais estados, os paulistas, com seus 12% de aprovação, ficaram na
antepenúltima posição. Ganharam apenas de Mato Grosso, que teve 11,8% de
aprovação, e Amapá, com 11,6%. Foi a primeira vez que São Paulo participou do
exame unificado.
A
popularização do Direito fez da carreira a mais procurada do país. O número
maior de postulantes levou a OAB a estreitar a boca do funil para proteger o
mercado dos profissionais que já atuam. Por ser o estado que oferece mais
cursos superiores à população de baixa renda, São Paulo tem também o maior
número de candidatos, o que explica o maior número de reprovados. Por
conveniência política, contudo, evita-se analisar a dicotomia aluno-fraco X
escola-boa e escola-fraca X aluno-bom. Mas não é por acaso que o estado que
mais tem aprovado, proporcionalmente, no Exame de Ordem, é Sergipe, onde
existem apenas dois cursos de Direito. São Paulo tem 243.
Para o
presidente da seccional paulista da OAB, Luiz Flávio Borges D’Urso, o baixo
índice do estado é correspondente ao grande número de faculdades de Direito,
nem todas com boa qualidade. “O problema não está no Exame, mas na preparação
dos bacharéis”, disse. “Em Sergipe, por exemplo, que ficou em primeiro lugar no
país — 33% dos candidatos foram aprovados — existe um número reduzido de faculdades
de Direito. São Paulo tem mais de 200 instituições”, explicou.
O
presidente da Comissão de Exame da OAB-SP, Braz Martins Neto, fez coro com
D’Urso. “O resultado não foi bom do ponto de vista da qualidade do ensino, pois
evidenciou que há muitos cursos jurídicos com perfis mercantilistas. Alunos de
faculdades compromissadas, como a Universidade de São Paulo, tiveram um
aproveitamento acima de 70% nesta prova”, disse.
O
excesso de cursos também foi o vilão destacado pelo Diretor da FGV Direito Rio
e membro do Conselho Nacional de Justiça, Joaquim Falcão. “A maioria das
faculdades não forma profissionais que respondam às demandas específicas do
mercado”, disse em entrevista à revista Getúlio publicada neste
mês. O conselheiro atribui à má qualidade de ensino das faculdades os
altos índices de reprovação no exame da OAB, principalmente em São Paulo, onde
proliferam cursos de Direito — a declaração foi dada antes da divulgação do
resultado da primeira fase do exame.
Embora
concorde que o nível de muitas faculdades de São Paulo seja baixo, o diretor da
Faculdade de Direito da Faap, Álvaro Villaça Azevedo,
acredita que o mau desempenho dos candidatos também se deve ao próprio Exame da
Ordem. “É uma prova que envolve conhecimentos em muitas áreas, o que é
complicado para bacharéis que acabaram de ver disciplinas específicas, como
Direito Ambiental ou Agrário, por exemplo. O advogado vai atuar em alguma
especialidade, o que justificaria que o exame também fosse específico”, sugere.
O efeito, segundo o diretor, é que o aluno acaba procurando cursos
preparatórios antes da prova, “o que não é correto”. “Muitos advogados não
passariam no exame se fizessem a prova hoje.”
O
desempenho dos alunos da Faap, no entanto, não tem deixado a desejar no exame.
Segundo Villaça, no ano passado, o índice de
aprovação foi de 60%. Por isso, a comparação com outros cursos é inevitável.
“Alunos que vêm de outras instituições perdem de um a três semestres para
fazerem disciplinas que não faziam parte do currículo da faculdade anterior. Há
quem cogite enxugamento de cursos, quando, na verdade, o período de cinco anos
é apertado”, explica.
Para
Luiz Flávio Gomes, que dirige uma rede própria de cursos preparatórios, a
passagem dos bacharéis por instituições como a sua preenche um vácuo deixado pelas
faculdades. “Muitos cursos de Direito ensinam apenas com base em códigos e
leis, o que é ultrapassado. O enfoque em jurisprudência, por exemplo, é
fundamental, mas não faz parte dos currículos.”
Gomes
atribui o fraco desempenho dos paulistas à mudança do tipo de prova aplicada.
Até o ano passado, os bacharéis do estado não participavam do exame unificado,
feito pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe)
da Universidade de Brasília, mas de uma prova feita exclusivamente para São
Paulo. “Era um exame muito mais legalista, que exigia memorização”, afirma.
Segundo ele, a prova feita pela Cespe é mais
interpretativa e prioriza questões de jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal e do Superior Tribunal de Justiça. “Uma das questões pedia ao aluno que
respondesse se, conforme a jurisprudência, o advogado criminal tem direito a
re-perguntas às testemunhas no tribunal”, explica. “Isso não está na lei, só o
Supremo se manifestou sobre o assunto.”
Segunda
chance
O diretor apontou de cinco
a dez questões dúbias na prova, que deverão ser alvo de pedidos de anulação dos
candidatos. “São perguntas ambíguas ou que admitem mais de uma resposta”, diz.
Os reprovados podem recorrer à Comissão de Estágio e Exame de Ordem da OAB-SP,
pelo Sistema Eletrônico de Interposição de Recurso, no site da entidade. O prazo é de três dias
úteis.
A
convocação para a segunda fase do exame será divulgada em 17 de junho. A prova
será no dia 28 de junho. O exame prático-profissional inclui redação de peça
jurídica e cinco questões práticas. Entre as áreas de escolha dos candidatos,
estão Direito Administrativo, Direito Constitucional, Direito Empresarial — que
entram neste ano —, Direito Penal, Direito Civil, Direito Tributário e Direito
Trabalhista. A nota mínima para aprovação é seis.
Ao
aderir ao exame unificado, São Paulo deixou Minas Gerais como o único estado em
que a prova é exclusiva. Entre as cidades paulistas
com maior número de candidatos, Campinas teve 911 inscritos e 98 aprovados, São
José do Rio Preto teve 855 inscritos e 87 aprovados, o ABC teve 131 inscritos
com 17 aprovados e Ribeirão Preto teve 549 inscritos e 74 aprovados. Com informações da Assessoria de Imprensa
da OAB-SP.