SAUDADES
DO STANISLAW
Carlos Nina
Estou me concentrando no
estudo de alguns temas e línguas que elegi, para desviar minha atenção dos
escândalos do cotidiano. Tem sido difícil, mesmo evitando assistir aos
telejornais, ouvir rádios AM ou deixando para ler jornais e revistas dias
depois de sua circulação. Amigos e leitores cobram minha manifestação. Isso me
aguça o sentimento de dever jornalístico. Contrario, assim, interesses de uns,
mas, com certeza, atendo aos anseios de outros. E tiro das minhas angústias a
indignação daquele episódio, para que não se acumule com a que inevitavelmente
virá com novo fato escandaloso, que logo emergirá. Só não quero é perder essa
capacidade de me indignar.
Alguns me sugerem que dê
tratamento cômico aos fatos. Tento, mas a indignação, muitas vezes, é maior do
que a capacidade de controlar o texto. Daí, ele acaba resvalando para um
discurso duro porque, mesmo que haja comicidade nos fatos, o drama e a tragédia
se sobrepõem.
É como
Há certos fatos ou condutas,
porém, que, pela sua repetição, se revestem de cinismo, evoluem para o
ridículo, acabam em comicidade e as pessoas passam a aceitá-los normalmente,
como folclore, embora seus protagonistas pensem que estão sendo levados a
sério. Talvez até saibam que não estão, mas pagam o preço, pelas vantagens da
farsa: o enriquecimento à custa do prestígio e do patrimônio públicos, a oportunidade
de dar vazão à vaidade incontida, a posição privilegiada para usar o Poder
Público em projetos pessoais. Outros são apenas usados. Idiotas que não sabem o
que fazem, por incompetência, nem que estão sendo usados, pela idiotia mesmo.
Temos, hoje, o Fernando
Veríssimo, que é excelente contador de casos sérios, com a leveza do texto
cômico. Tivemos o Carlos Eduardo Novaes, autor com a mesma verve satírica, que
deixou a crônica jornalística. Contudo, sinto saudades
do Stanislaw Ponte Preta. Tinha um talento natural para ver os absurdos
do cotidiano e abordá-los com bom humor. Se não tivesse morrido, em 1968, seu
Festival de Besteira que Assola o País não teria se encerrado na segunda
edição.
Essas considerações me foram
suscitadas por uma notícia prenhe daquelas características acima mencionadas:
cinismo, que revela desrespeito, e ridículo, que a torna hilária. Contudo,
trata de um fato grave: a tortura de presos, por agentes públicos, nas
dependências do Estado.
Noticiou a mídia maranhense
que OAB, o Conselho Estadual de Direitos Humanos e a Secretaria de Direitos
Humanos do Estado do Maranhão entregaram à Procuradoria Geral da República uma
representação criminal contra agentes penitenciários, policiais militares e
agentes da Força Nacional de Segurança Pública. Todos acusados de prática
“rotineira e sistemática” de sessões de tortura na CCPJ, unidade da Secretaria
de Segurança “Cidadã” do Estado do Maranhão.
Como a notícia não saiu em
nenhuma seção de piadas, considero-a verossímil, inclusive pela conduta
pregressa dos personagens.
Quanto aos dirigentes da OAB,
não têm autoridade moral para cobrar nada, uma vez que fazem tudo para impedir
a apuração de suas próprias mazelas, a exemplo da fraude cometida por
dirigentes da OAB/CAAMA, dentre os quais o presidente signatário da hilária
representação, e o envolvimento de um de seus conselheiros federais na Operação
Navalha. O que fez a OAB com relação a esses casos? Não disciplinou os
infratores; tentou impedir a devida apuração; aposta na impunidade, pela
prescrição.
Quanto ao Conselho Estadual
de Direitos Humanos, teve um arroubo inusitado, pela participação da Força
Nacional, porque a tortura “de forma rotineira e sistemática”, como informa no
documento, era de seu conhecimento e anterior à vinda da Força Nacional.
Contudo, nada fez, antes, não faz, agora, nem fará, no futuro, para,
efetivamente, acabar com essa ignomínia. É apêndice do Governo.
Quanto à Secretaria de
Direitos Humanos, é a situação mais hilária. Sua existência e atuação já são prato cheio para expor o ridículo da situação. Nesse
episódio, supera-se. Por desconhecimento, esperteza ou má-fé,
quer transferir para o Governo Federal a responsabilidade de atos
praticados por agentes do Governo que ela integra: torturas, cuja existência admite
e confessa serem “de forma rotineira e sistemática”, ou seja, com a eficiente
conivência e omissão da hilária Secretaria. Ou quer insinuar que essa tortura
“rotineira e sistemática” é fruto da ação da Força Nacional? Se
é isso, admite outra estupidez: o Governo não tem competência para
administrar a área de segurança e pede socorro a quem é pior do que os próprios
trombadinhas de seu Governo que desonram a Polícia.
Por fim, os três,
unidos por interesses políticos pessoais e irresponsabilidade, fingem não saber
que o responsável por essa tortura “de forma rotineira e sistemática” não é o
Governo Federal, mas os secretários de Direitos Humanos e de Segurança
“Cidadã”, porque são omissos e coniventes; o Procurador Geral da Justiça e o
Governador do Estado, porque sabem
de tudo isso e não tomam nenhuma providência séria. Ou porque não sabem de nada
e, também por isso, são igualmente responsáveis. No mínimo por desídia.
Quanto à OAB e ao Conselho
Estadual de Direitos Humanos, escapam porque sua omissão e conivência não são
legalmente puníveis.
Dizer que o crime é de âmbito
da Polícia e da Justiça federais porque há participação da Força Nacional é
querer tapar o sol com peneira, porque sua presença, no Maranhão, é recente.
Não foi ela quem fez da tortura policial uma prática “rotineira e sistemática”
nas dependências do Poder Público e até nas ruas, como provam o caso Gerô e as vítimas indefesas na periferia.
Apesar disso, a OAB, o
Conselho Estadual de Direitos Humanos e a Secretaria de Direitos Humanos nada
fizeram para acabar com essa “rotina”. Para tentar enganar incautos, pegaram a carona no desvio da Força Nacional para dizer que querem
combater a tortura. Não querem. Se quisessem, já tinham feito alguma coisa
séria. Não fizeram, nem farão. Só farsa para ocupar a mídia.
Por isso tenho saudades de
Sérgio Porto, o insuperável Stanislaw, que cito, para satisfazer aos leitores
afeitos aos aspectos hilários dessas imbecilidades (Febeapá
1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País. Círculo do Livro, p. 27/28):
“É difícil ao historiador
precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. ...o Festival persiste."