SARNEY NÃO É UMA PESSOA COMUM
Fernando Lima
Professor de
Direito Constitucional
19.06.2009
O Presidente Lula disse: “Sarney não pode ser tratado como uma pessoa
comum.” Falando à imprensa, em mais uma de suas turnês turísticas, desta vez no
Cazaquistão, se é que o prezado leitor já sabia que existe esse lugar, o
Cazaquistão, o Presidente Lula disse que não acredita nas denúncias referentes
aos atos secretos do Senado e que tudo não passa de uma tentativa de
“enfraquecer o Poder Legislativo”.
Uma rápida pesquisa na internet revela que existe, realmente, uma “onda de
denuncismo”, como diria Lula, para tentar prejudicar o atual Presidente do
Senado. Por exemplo: duas sobrinhas de Sarney estão empregadas em gabinetes de
senadores amigos; uma prima e uma sobrinha de Roseana Sarney estão empregadas,
também, em gabinetes de senadores, sendo que uma delas mora na Espanha; o neto
de Sarney, um estudante de administração de 22 anos, é secretário parlamentar,
recebendo 7 mil e seiscentos reais, etc...
Essas denúncias, de quem não tem o que fazer, dessas pessoas comuns que se
divertem caluniando as pessoas que não são comuns, dizem que existem no Senado
mais de 300 atos secretos, alguns vigentes há 14 anos, e que foram usados para
nomear parentes e amigos, para criar cargos e para aumentar salários, gerando
assim gastos desnecessários e a suspeita da existência de funcionários
fantasmas, pagos com o seu dinheiro, prezado leitor, você que é uma pessoa
comum.
A culpa, certamente, não é do Sarney,
ou melhor, não é somente do Sarney. Basta que se observe que muitos outros
parlamentares foram beneficiados. E será que não existe, aliás, nada semelhante
na Câmara dos Deputados, nas assembléias legislativas, nas câmaras municipais,
nos tribunais de contas, em todos os órgãos, de todos os poderes???
Será que a culpa é apenas do ex-Diretor do Senado, Agaciel Maia, acusado de
ser proprietário de uma mansão de 5 milhões, e de estar envolvido na
manipulação de contratos milionários? Ou será de Renan Calheiros, de Garibaldi
Alves, ou de Edison Lobão? Ou de José Sarney? Ou de Collor, de Itamar, de
Tancredo?
Atos secretos, ora bolas! Grande coisa!
Essa conversa de atos secretos é
antiga: em 11 de novembro de 1.971, o Presidente Médici assinou o Decreto nº 69.534, que autorizava o Presidente da República, ou
seja, ele mesmo, a legislar através de decretos secretos, que poderiam servir
até mesmo para determinar a prisão dos “inimigos do regime”. O Diário Oficial
publicava apenas o número desses decretos e uma curta ementa, com a indicação
do assunto de que eles tratavam. Com um pequeno detalhe: esses decretos estavam
todos excluídos da apreciação do Poder Judiciário, por força do AI-5, de 1.968.
Quem não concordasse, que fosse fazer queixa ao bispo. Que também poderia ser
preso, sob a acusação de ser comunista. Até
hoje, apesar da “restauração democrática”, de 1.988, esses decretos secretos da
ditadura ainda não foram publicados.
Sarney, como Presidente da Arena, viveu
esse período e conheceu os decretos secretos. Será que os atos secretos do
Senado vão ser publicados, um dia?
Mas o Presidente do Senado, José Sarney, evidentemente,
não pode ser tratado como uma pessoa comum. O Presidente Lula está certo. Ele está
acima de qualquer suspeita e não pode ser responsabilizado por nada.
Renan Calheiros também
não era uma pessoa comum. Os anões do orçamento não eram pessoas comuns. O José
Dirceu não é uma pessoa comum. O Delúbio não é uma
pessoa comum. O próprio Presidente Lula não é uma pessoa comum.
Pessoas comuns são aquelas que pagam
tributos, prezado leitor. São aquelas que pagam multas, quando furam sinais de
trânsito. São aquelas que trabalham. São aquelas que votam. As pessoas comuns são
muito perigosas. Elas são as únicas culpadas por tudo de mau que acontece. As
pessoas comuns são aquelas que elegem as pessoas que não são comuns. Em suma, as
pessoas comuns são aquelas que obedecem, pelo menos quando têm juízo.
As autoridades, os que mandam, não são
pessoas comuns. Nunca foram pessoas comuns, e todos nós sabemos disso.
É urgente alterar, portanto, aquele artigo
da Constituição que diz: “todos são iguais perante a lei, etc...”
É urgente. Urgentíssimo. Antes que alguém
acredite nessa lorota, e tenhamos mais um “retrocesso institucional”.