Progressos profissionais
que se voltam contra os profissionais
FRANCISCO CESAR
PINHEIRO RODRIGUES
Desembargador
aposentado do TJ-SP
http://www.amb.com.br/portal/index.asp?secao=artigo_detalhe&art_id=660
Não, não há erro no título. Um bom
subtítulo seria: “Problemas dos médicos, advogados, professores, etc, cada vez mais prejudicados pelos avanços concebidos
por eles mesmos”.
Que o mundo progride — ou regride, depende do
ponto de vista... — de uma forma assustadora, não há o que se discutir. Sempre
que penso no assunto, lembro-me da ousadíssima — mas
não insana — reflexão do físico Stephen Hawking, ao afirmar que em razão dos progressos da
informática o homem terá que providenciar alterações genéticas no próprio
cérebro. Não dá para esperar alterações ao acaso. Esqueçam Darwin. Os bebês
terão que nascer com cérebro maior, com dupla ou tripla quantidade de
neurônios. Do contrário, a espécie humana tornar-se-á escrava dos computadores,
cada vez mais inteligentes. Já não bastam truques pedagógicos, por melhor que
sejam (em passant, é impressionante o que conseguem
com crianças portadoras da Síndrome de Down). É
preciso aumentar mesmo a massa cerebral. As mulheres vão apoiar porque todos os
partos serão cesarianos, sem dor. E os bebês agradecerão porque é um mau
presságio vir ao mundo entre gritos, sangue, urina e excremento, uma breve
síntese do que será sua vida se nasceu pobre — principalmente em país pobre — e
não muito inteligente.
A inteligência artificial já é quase uma
realidade. Por enquanto, os computadores “limitam-se” a derrotar grandes
mestres do xadrez. O escritor José Veríssimo, com seu humor especial, diria que
eles estão apenas disfarçando, fingindo-se de burros, limitados. Não podem
assustar seus criadores de programas porque senão o grande motim cibernético
seria abortado.
Ficando no presente, consideremos a
situação dos médicos. Quanto maior o progresso na área médica, maior o prejuízo
econômico da classe. Cada grande descoberta é um tombo profissional. Vacina,
nem se fala. Já imaginou, o leitor, quanto dinheiro
deixa de ir para o bolso dos médicos quando se inventa uma nova vacina? Sabin
deu, sem querer, um “prejuízo” de bilhões, em todo o mundo, imunizando contra a
paralisia infantil. O biólogo escocês, Alexander Fleming, inventando a
penicilina, também lesou a classe médica. Um médico maldoso e
bronco, extremamente egoísta, diria, à época, que “esses biólogos
intrometidos deveriam pensar mais antes de inventar essas coisas...”. A
tuberculose, uma verdadeira praga, quase incurável, matando famílias inteiras,
hoje é tratada quase como um resfriado. Tudo isso, se representou um alívio
para a humanidade, também significou súbitos prejuízos financeiros para os
profissionais especializados nas doenças que desapareceram. Os progressos na
área sanitária também tiveram um efeito profissional
desanimador. Sem água tratada e bons sistemas de esgotos, crianças adoeceriam e
morreriam como moscas. Enfim, para cada nova conquista o médico tinha que, ou
fechar o consultório, ou migrar às pressas para outras especializações.
Agruras da profissão. Décadas de estudo e
de prática médica podem ser jogadas no lixo se for descoberta uma cura rápida
ou vacina para aquela doença. Já imaginaram o que acontecerá se descobrirem logo uma vacina ou cura fácil para o câncer, a
AIDS, o diabetes e o Alzheimer? Um massacre na área profissional. O que sobrará
para os médicos? A providencial feiúra contornável (cirurgia plástica,
alimentada pela vaidade); ossos quebrados (traumatologia) em acidentes
automobilísticos, graças à pressa e embriaguez no trânsito e, finalmente, os
problemas inerentes à velhice, porque o homem não muito infeliz agarra-se com
unhas e dentes a este delicioso vale de lágrimas.
Vejamos, agora, o que aconteceu com os
advogados, principalmente no Brasil, nas últimas décadas. A legislação
constitucional e infra-constitucional outorgou
inúmeros direitos. Bom,
Reduzido, numericamente, o campo de ações
cíveis de valor econômico de maior valor, surgiu a
alternativa das “pequenas causas”. Aí, o legislador, vendo que seria
desproporcionalmente oneroso, para o prejudicado, ter que contratar um advogado
para cobrar uma dívida de pequeno valor, tornou facultativa a presença do
advogado para patrocinar os interesses do prejudicado que recorre à justiça.
Principalmente em assuntos do consumidor. Novo prejuízo para a classe, com essa
“melhoria” legislativa outorgada à população. Como ocorre com a medicina, o
progresso na área jurídica, principalmente processual, reverte-se contra o
advogado, em termos de sobrevivência.
Para agravar a situação dos advogados — não
sei se isso também ocorre, em igual proporção, na área medica —, a indústria do
ensino aproveitou a ânsia do jovem, mesmo de poucos recursos, em se tornar um
profissional liberal. Esse aproveitamento redundou na imensa proliferação de
Faculdades de Direito, hoje mais de mil no Brasil. E como o jovem não estudou
Direito apenas para melhoria da cultura geral, o resultado é uma imensa
frustração quando, munido de diploma, não consegue penetrar no mercado de
trabalho, em razão do “Exame de Ordem”, cada vez mais difícil.
Alega-se que tais exames não são tão
difíceis assim, o problema está na falta de preparo dos candidatos.
“Felizmente”, em termos concorrência profissional, é assim, porque — por
simples jogo de raciocínio — se todos os candidatos passassem no exame de ordem,
a concorrência, a superlotação profissional, seria ainda mais selvagem, com
natural redução da qualidade ética do serviço prestada à população.
Não sei em que vai dar essa marginalização
a que foi condenada boa parcela dos jovens, formados em
Direito, que não conseguem penetrar no mercado de trabalho. Ou que,
tendo nele penetrado, não consegue acesso a uma clientela digamos “normal”. Presumo, com convicção, que a maioria dos advogados que se
envolveram com o crime organizado — levando recados ou objetos para dentro ou
para fora dos presídios —, preferiria estar ganhando a vida de maneira normal,
sem os sustos e perigos que acompanham a defesa de membros de organizações
criminosas. Atormentados pela necessidade de pagar suas contas normais, suas e
de suas famílias, acabam aceitando o convite para defender criminosos
importantes, que pagam bem mas dispõem de grande
tirocínio no lidar com os medos e carências alheias. A tênue linha divisória
entre o lícito e o ilícito profissional, fica um tanto apagada quando a
necessidade financeira pressiona demais. Umas poucas décadas atrás, na Itália,
surgiram as “Brigadas Vermelhas”, organizações terroristas com grande proporção
de jovens de nível universitário que não conseguiam trabalho na área para a
qual estudaram. Vendo que “algo estava errado”, ingressaram na violência
terrorista, querendo modificar o mundo. O Brasil está, felizmente, muito longe
disso, mas não convém — até mesmo por misericórdia — agravar a sensação de
frustração dos jovens que estudam para nada.
O Bacharel em Direito que não consegue
trabalho, no Brasil, está em situação pior se comparado com o desempregado em
outras profissões. Um biólogo, um médico, um engenheiro, um matemático ou
astrônomo, poderá tentar a sorte em outro país, porque a ciência não tem
nacionalidade. Já um diploma de Bacharel em Direito só serve mesmo para o o Brasil. Temos um tratado com
Portugal — há vários portugueses advogando no Brasil — que, em tese — em
tese... —, permitiria ao brasileiro advogar naquele país, mas, pelo que tenho
lido, a resistência dos advogados portugueses tem sido severa — como aconteceu
com os dentistas brasileiros —, mesmo porque em Portugal atuam apenas, salvo
engano, vinte mil advogados. Só no Estado de São Paulo existem cerca de
trezentos mil inscritos na OAB. Não há, “pois pois’, saída via Portugal.
Uma forma de reduzir, no Brasil, a tensão
entre “os têm” e os que “não têm” um lugar no mercado profissional, seria a
classe dos advogados começar a pensar em algo novo.
Encontrar, em certa medida, uma “solução” equivalente à encontrada, há poucas
décadas, pelos médicos: os “planos de saúde”. O cidadão, de classe média, paga uma certa quantia mensal a um plano de saúde e, sentindo
qualquer irregularidade, em qualquer parte de seu organismo, procura uma organização
credenciada que o encaminha para o profissional certo, com direito a todos os
exames laboratoriais capazes de detectar o início de qualquer doença. É mais
uma tática de prevenção, porque é enorme — felizmente! —a quantidade de chapas
e exames que não acusam tumores. Mas, se necessário, o “plano” opera o cidadão
sem nada cobrar a mais. Uma mensalidade em troca da tranqüilidade, no que se
refere à saúde.
Na área jurídica ainda não ocorre o mesmo.
A prevenção de problemas é quase nenhuma, a não ser com os mais abonados, que
não dão um passo importante sem consultar seus advogados, a qualquer hora do
dia ou da noite se o conselho tem de ser urgentíssimo. O resto, a vasta
maioria, que não dispõe de advogados especializados, decide tudo na
improvisação (errada). Só procura um advogado em último caso, quando já não há
mais saída para o problema, que se iniciou e cresceu em razão de sua ignorância
jurídica.
Quando se toca nesse assunto, a reação do
advogado varia conforme a sua situação no mercado de trabalho. Se ele está em
posição profissional confortável, ele se sente inquieto ou discorda de cara,
porque “não se mexe em time que está vencendo”, no caso o time dele. Aí
argumenta: “É um perigo, isso! Pode haver abusos! “Planos de
‘saúde jurídica’? Quem vai vigiá-lo?” Respondo:
a própria OAB, porque poderá impor mecanismos para isso.
O problema comporta longa discussão. Mas
nesse ponto, a medicina, talvez porque mais habituada, há séculos, ao exame da
relação “causa e efeito”, se antecipou à advocacia. Encontrou uma solução que,
se não é perfeita, foi bem acolhida pela população. Todos — com exceção dos
milionários — gostam de sentir a proteção de um “plano de saúde’. A advocacia,
talvez porque mais propensa às análises abstratas — o advogado não está muito interessado
no porque seu cliente se envolveu em tal ou qual problema, quer apenas
encontrar uma saída jurídica para a “enrascada” —, ainda não se convenceu de
que a “grande saída” profissional será pela via da função preventiva de
demandas. Quanto menos demandas tiver um país, melhor.
Toda demanda jurídica equivale a um
punhado de areia jogada no vasto mecanismo das relações econômicas. Demanda
judicial significa emperramento. E o advogado deve assumir essa nova função,
essencialmente preventiva. Receber, por mês, uma certa
quantia, para orientar o cliente que está em dúvida sobre como agir. Ação
judicial somente em último caso. Deve se tornar um “sanitarista legal”, ou
fabricante de “vacinas contratuais”, não um oncologista ou amputador de membros
gangrenados.
É possível que os advogados — na grande
maioria extremamente inteligentes — acordem para essa realidade. Novos tempo exigem novas estratégias. Sem prejuízo, claro,
do uso de algum freio contra o contínuo fornecimento de novos formandos. Boa
parte deles destinados a se tornarem profissionais apenas