PF investiga rede de intrigas na OAB-DF
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Samantha
Salum e Renato Alves
Do Correio Braziliense
09/03/2008
09h06-Conhecidos advogados de Brasília são
personagens de uma trama policial que revela os bastidores da guerra pela
direção da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF).
Traições, armadilhas, tentativa de manipulação de depoimentos, escutas e
tráfico de influência recheiam as denúncias em apuração pela Polícia Federal,
Polícia Civil e Ministério Público Federal (MPF). O último capítulo da briga de
poder que envolve a entidade representativa de 24 mil advogados na capital da
República consta num inquérito aberto para apurar intimidação a uma
ex-funcionária da OAB-DF, que até pouquíssimo tempo atrás era responsável pela
organização das provas do Exame de Ordem.
Quem aparece no inquérito como vítima da suposta perseguição é Janaína
Fernandes Faustino, pessoa da mais alta confiança do advogado Paulo Roberto
Thompson Flores — afastado há três meses da vice-presidência da OAB-DF por
causa de denúncias de fraude nos exames de Ordem. Sentindo-se ameaçada,
Janaína, que perdeu o emprego pelo mesmo motivo do chefe, procurou a polícia.
Contou estar sendo pressionada por um grupo de advogados, estes de chapas de
oposição à atual gestão, comandada por Estefânia Viveiros. Investigadores
passaram então a monitorar as investidas do grupo.
Dois encontros de Janaína, ocorridos em 12 e 14 de fevereiro no bar Schlob (309
Norte), foram gravados por agentes da Divisão de Inteligência da Polícia Civil
e da 9ª Delegacia de Polícia (Lago Norte). Nas imagens, às quais o Correio teve
acesso, os advogados Guilherme Castelo Branco, Luis Freitas Pires de Sabóia e
Ulysses Borges de Resende tentam convencer a ex-secretária de Thompson e da
OAB-DF a prestar depoimento no MPF contra o ex-chefe e Estefânia. Se referem a
eles como “quadrilha que precisa ser desmontada”.
“Os caras (conselheiros da OAB-DF) vão abandoná-lo politicamente, mas os caras
não vão jogar b… nele porque, se ele abrir a boca, acaba com todo mundo”, diz
um dos advogados gravados, se referindo a Thompson Flores. “Você vai ter nossa
proteção como Priscilla está tendo”, ressaltou. Ele fala de Priscilla de
Almeida Antunes, ex-examinadora da Comissão de Exame de Ordem, acusada de
preencher as respostas corretas em provas entregues em branco por candidatos,
em troca de dinheiro. (leia Entenda o caso).
Delação premiada
Em outro momento do encontro, os advogados afirmam que Thompson vai ser poupado
de qualquer punição porque é um arquivo vivo. Eles dizem à Janaína que a “corda
arrebenta para o lado mais fraco” e que, para se livrar de uma condenação,
poderia ser beneficiada com delação premiada no Ministério Público Federal.
“Esse pessoal da OAB não vai ferrar com o Thompson porque ele saberia de muita
coisa. Você é o elo mais fraco. A gente constrói uma linha e vai ao MP. O MP
tem essa possibilidade de te oferecer o perdão”, disseram eles.
No inquérito da Polícia Civil consta que Janaína foi procurada para que
“delatasse falsamente Thompson, já que era subordinada a ele, relatando que o
então vice-presidente da OAB-DF e Estefânia mandavam-na fazer as fraudes na
OAB-DF, que em troca de delação receberia proteção e também que eles seriam
defensores da vítima gratuitamente e conseguiriam a delação premiada no MP,
porque teriam grande trânsito no órgão, alegando que poderiam ver os documentos
que a incriminavam”.
A procuradora federal Anna Carolina Rezende e Azevedo, que apura as fraudes no
exame da OAB-DF, confirmou ter recebido Janaína em seu gabinete. “Recebi a
queixa-crime, mas não a anexei na ação da OAB-DF porque só trato da área
cível”, justificou. Ela garantiu que nunca prometeu delação premiada a ninguém.
“Nem faria isso por meio de terceiro. O Ministério Público não fala por meio de
terceiro”, afirmou. E negou que a ex-professora Priscilla de Almeida foi
beneficiada por delação premiada. “Não houve nenhum acordo com ela, pois seus
depoimentos não trouxeram elementos concretos”, concluiu.